A democracia dentro da bolha, por Maurício Luperi

A democracia dentro da bolha

por Maurício Martinelli Luperi

As eleições brasileiras de 2018, 2022 e 2026 consolidaram uma transformação profunda na maneira como os cidadãos recebem, selecionam, interpretam e compartilham informações políticas.

Televisão, rádio, jornais e debates eleitorais continuam relevantes, mas perderam o quase monopólio que exerceram durante décadas sobre a formação da agenda pública. Ao seu lado surgiu uma arquitetura muito mais fragmentada: WhatsApp, Telegram, Facebook, Instagram, YouTube, TikTok, X, influenciadores, grupos familiares, comunidades religiosas, redes de militares e ex-militares e, mais recentemente, conteúdos produzidos ou modificados por inteligência artificial.

Essa transformação possui aspectos positivos. Democratizou a produção de conteúdo, reduziu barreiras de entrada no debate público e permitiu que cidadãos e movimentos sociais falassem diretamente com milhões de pessoas.

Mas existe uma contrapartida.

Parcelas da sociedade podem passar a viver em ecossistemas informacionais relativamente fechados, nos quais determinadas interpretações da realidade circulam continuamente entre pessoas que confiam umas nas outras, enquanto fontes externas são progressivamente desacreditadas.

O problema, portanto, é maior que as chamadas fake news.

O que acontece quando cidadãos deixam de discordar apenas sobre como interpretar os fatos e começam a discordar sobre quais são os próprios fatos?

Por que algumas mensagens despertam muito mais engajamento que outras? Por que medo, indignação, raiva, sensação de ameaça e identificação de inimigos parecem particularmente capazes de estimular compartilhamento?

E o que acontece quando esses mecanismos comunicacionais se combinam com movimentos políticos de inclinação autoritária, para os quais determinadas instituições democráticas podem ser percebidas não como limites legítimos ao exercício do poder, mas como obstáculos políticos a serem neutralizados?

A resposta talvez esteja menos na mentira isoladamente considerada do que na combinação entre confiança, identidade, emoção, antagonismo político e arquitetura das redes.

Este artigo propõe observar quatro mecanismos que podem operar simultaneamente: indicação direta, quando uma liderança recomenda explicitamente um candidato; socialização política, quando uma comunidade constrói continuamente valores, identidades, adversários e critérios pelos quais seus integrantes interpretam a política; ativação emocional, quando medo, raiva, indignação, sensação de ameaça ou entusiasmo estimulam atenção e ação; e transbordamento, quando essas mensagens saem da comunidade original e chegam a familiares, amigos e colegas por intermédio de pessoas em quem esses receptores confiam.

A combinação desses mecanismos produz aquilo que proponho chamar de multiplicador político da confiança.

Mas veremos que ele pode possuir uma segunda face: enquanto multiplica a confiança dentro da comunidade, pode também multiplicar a desconfiança nas instituições externas capazes de contradizer suas narrativas.

1. Da fake news à manipulação da realidade

Algumas definições são necessárias.

Fake news, literalmente “notícia falsa”, tornou-se expressão popular para conteúdos falsos apresentados como informação. É uma categoria limitada porque uma mensagem politicamente enganosa não precisa ser inteiramente falsa.

Misinformation é informação falsa ou enganosa compartilhada sem que necessariamente exista intenção demonstrável de enganar. Disinformation, ou desinformação, pressupõe produção ou disseminação deliberada com objetivo de enganar ou manipular.

Há ainda a descontextualização.

Uma fotografia pode ser autêntica e receber legenda falsa. Um dado pode estar correto e ser comparado inadequadamente. Uma investigação realmente pode existir e ser apresentada como condenação. Dez segundos de uma entrevista podem adquirir significado oposto quando retirados de uma exposição de uma hora.

Nesse caso, a manipulação não fabrica necessariamente o fato. Fabrica o contexto no qual o fato será interpretado.

Também precisamos distinguir desinformação de propaganda política legítima. Candidatos selecionam dados favoráveis, enfatizam realizações e criticam adversários. Isso faz parte da democracia. O problema aparece quando há fabricação factual, falsificação de autoria, manipulação deliberada de contexto ou apresentação consciente de conteúdo falso como verdadeiro.

Nenhum campo político possui imunidade psicológica contra isso. Eleitores de esquerda, centro ou direita podem compartilhar falsidades, reagir emocionalmente e praticar raciocínio motivado.

Reconhecer uma simetria na vulnerabilidade humana, porém, não significa presumir simetria na escala, organização ou utilização política desses mecanismos. Essas diferenças precisam ser investigadas empiricamente.

Estudo comparativo de Petter Törnberg e Juliana Chueri, baseado em cerca de 32 milhões de publicações de 8.198 parlamentares de 26 países, entre 2017 e 2022, encontrou o populismo de direita radical como o fator partidário mais fortemente associado à propensão a disseminar desinformação. Ser simplesmente de direita, ser populista ou pertencer ao populismo de esquerda não apresentou a mesma associação.

Os próprios autores relacionam o resultado à dimensão radical dessa corrente política e à sua hostilidade em relação a instituições democráticas.

Portanto, a pergunta relevante não é se apenas um lado pode mentir. É por que determinadas formas de organização política podem desenvolver incentivos particularmente fortes para produzir, utilizar ou difundir desinformação.

2. WhatsApp e a transformação da confiança em credibilidade

Nos meios tradicionais, a comunicação funcionava aproximadamente assim: veículo → cidadão.

Nas redes pode funcionar: produtor → influenciador → liderança → grupo → amigo → familiar → outros grupos → cidadão.

A informação não chega apenas como informação. Chega acompanhada de uma relação social.

“Meu irmão me mandou.” “Recebi no grupo da igreja.” “Um amigo militar encaminhou.” “Meu pastor comentou.”

A mensagem recebe uma espécie de certificado social de credibilidade.

Pesquisas sobre as eleições de 2018 e 2022 documentaram intensa circulação de conteúdo político em grupos de WhatsApp e Telegram, inclusive informações falsas ou enganosas.

Mas há uma limitação metodológica importante: mensagens privadas e criptografadas não podem ser integralmente observadas. Grupos públicos monitorados por pesquisadores não representam todo o universo do WhatsApp brasileiro.

Ainda assim, aparece um mecanismo relevante: depois de vários encaminhamentos, uma mensagem pode perder autor, data e contexto. Surge uma espécie de autoridade sem autoria: “Está circulando.” “Todo mundo está falando.” “Recebi de várias pessoas.”

A repetição passa a funcionar como evidência. E talvez a propaganda mais eficiente seja justamente aquela que, ao chegar ao eleitor, já deixou de parecer propaganda.

3. Quando a bolha se torna epistemológica

Filter bubble, ou bolha de filtro, descreve a hipótese de que mecanismos de seleção e personalização — inclusive algoritmos — podem restringir ou enviesar o conjunto de informações a que uma pessoa é exposta. A magnitude desse efeito é objeto de debate empírico e não deve ser presumida.

É importante distingui-la de uma echo chamber, ou câmara de eco.

Na formulação desenvolvida pelo filósofo C. Thi Nguyen, uma bolha epistêmica pode surgir quando determinadas vozes simplesmente ficam de fora do ambiente informacional. Já uma câmara de eco possui um mecanismo mais resistente: fontes internas têm sua credibilidade reforçada enquanto fontes externas são sistematicamente desacreditadas.

Numa bolha, determinada informação pode simplesmente não chegar. Numa câmara de eco, ela pode chegar e ser rejeitada porque sua fonte já foi previamente deslegitimada.

A pessoa encontra a informação contrária, mas já aprendeu por que não deve confiar nela: “A imprensa mente.” “As universidades são ideológicas.” “Os institutos manipulam pesquisas.” “A Justiça Eleitoral está contra nós.” “As agências de checagem fazem parte do sistema.”

Forma-se um circuito: a narrativa é verdadeira → quem a contesta pertence ao sistema → a contestação comprova a existência do sistema → portanto a narrativa continua verdadeira.

É quando a bolha se torna epistemológica.

O problema pode chegar a uma fragmentação epistemológica: comunidades diferentes não apenas interpretam os mesmos fatos de maneiras distintas, mas deixam de reconhecer as mesmas instituições e procedimentos como capazes de estabelecer o que é factual.

Há evidência brasileira compatível com esse mecanismo. Pesquisa em duas ondas realizada por Patrícia Rossini, Camila Mont’Alverne e Antonis Kalogeropoulos durante as eleições de 2022 encontrou associação entre crença em desinformação eleitoral, ideologia, confiança no processo eleitoral e nas instituições democráticas e hábitos de informação. A participação em grupos políticos de aplicativos de mensagens também esteve associada a maior probabilidade de acreditar em desinformação eleitoral.

Isso não demonstra que os grupos causaram essas crenças. Reforça, porém, a importância de estudar conjuntamente confiança, identidade e arquitetura informacional.

A democracia pressupõe divergência. O problema começa quando desaparece o chão factual sobre o qual podemos divergir.

4. Autoritarismo e deslegitimação institucional

É nesse ponto que a discussão sobre desinformação encontra a discussão sobre autoritarismo.

Em uma democracia liberal, instituições como eleições competitivas, oposição, imprensa independente, Judiciário e mecanismos de controle constituem limites ao exercício do poder. Esses limites podem ser incômodos para qualquer governante. Mas justamente por isso existem.

A questão muda quando movimentos com tendências autoritárias passam a tratar instituições que restringem seu poder não como componentes legítimos da democracia, mas como inimigos que impedem a realização da vontade do “verdadeiro povo”.

É importante não transformar isso numa característica automática de toda direita, de todo conservadorismo ou mesmo de qualquer movimento chamado genericamente de populista. A literatura comparada distingue direita convencional, direita radical, extremismo, populismo e autoritarismo.

Mas a associação encontrada por Törnberg e Chueri entre populismo de direita radical e disseminação de desinformação em 26 países sugere uma questão institucional importante: a desinformação pode cumprir função política dentro de projetos que contestam instituições da democracia liberal.

Os próprios autores observam uma relação potencialmente sinérgica: a perda de confiança nas instituições abre espaço para a exploração estratégica da desinformação, enquanto a própria desinformação pode ser empregada para reduzir ainda mais a legitimidade das instituições.

Nesse contexto, ela deixa de servir apenas para convencer alguém a votar num candidato. Pode servir também para deslegitimar quem fiscaliza, contradiz ou limita esse candidato.

O mecanismo pode assumir a seguinte forma: instituição contraria o movimento → instituição é apresentada como inimiga → sua credibilidade diminui entre os seguidores → informações produzidas por ela deixam de ser aceitas → sua contestação da narrativa passa a ser apresentada como nova prova de que ela pertence ao “sistema”.

Se a imprensa contesta: “a imprensa mente”. Se um instituto apresenta pesquisa desfavorável: “a pesquisa foi manipulada”. Se o Judiciário impede determinado ato: “está perseguindo”. Se uma autoridade eleitoral confirma uma derrota: “a eleição foi fraudada”.

O ponto não é afirmar que toda crítica à imprensa, ao Judiciário ou à Justiça Eleitoral seja autoritária. Instituições democráticas podem e devem ser criticadas.

A diferença está entre criticar decisões e procurar destruir previamente a legitimidade de qualquer instituição capaz de produzir uma conclusão desfavorável ao próprio grupo.

A desinformação pode, então, adquirir uma função adicional: reduzir a capacidade das instituições democráticas de arbitrar conflitos porque uma parcela da sociedade deixa de reconhecê-las como árbitros legítimos.

5. Religião e política: todas as igrejas funcionam da mesma maneira?

Não.

Católicos, protestantes históricos, pentecostais e neopentecostais possuem estruturas institucionais e formas de autoridade diferentes. E existe enorme diversidade dentro de cada categoria.

Precisamos separar duas perguntas: quando uma liderança religiosa apoia um candidato, consegue influenciar o fiel? E: com que frequência e de que maneira determinada organização transforma autoridade religiosa em orientação eleitoral?

Pesquisa de Matheus Ferreira e Mario Fuks sobre a eleição de 2022 encontrou associação relevante entre exposição ao apoio de lideranças religiosas a Bolsonaro e declaração de voto nele, tanto entre evangélicos quanto entre católicos.

Portanto, seria errado concluir que padres não possuem capacidade de influência. Mas capacidade de persuasão e institucionalização da indicação eleitoral são fenômenos diferentes.

A Igreja Católica influencia debates políticos e contém movimentos conservadores e progressistas, mas não funciona como uma máquina nacional uniforme de seleção e indicação de candidatos.

“Evangélico”, por sua vez, também é categoria ampla demais. Protestantes históricos, pentecostais, neopentecostais e denominações independentes apresentam organizações muito distintas.

Determinados segmentos, entretanto, desenvolveram estruturas particularmente organizadas de atuação eleitoral.

Em algumas grandes organizações neopentecostais podem coexistir liderança verticalizada, contato frequente com os fiéis, forte identidade comunitária, meios próprios de comunicação, presença digital e apoio organizado a candidaturas.

A Igreja Universal do Reino de Deus constitui provavelmente o exemplo brasileiro mais conhecido. Estudos sobre sua organização política mostram que a instituição desenvolveu, ainda na década de 1990, um sistema de candidaturas oficiais e organização eleitoral.

Sua atuação político-eleitoral organizada, portanto, antecede amplamente o bolsonarismo. Edir Macedo, por exemplo, apoiou Dilma Rousseff em 2010.

Isso demonstra algo importante: a estrutura política pode preceder o candidato — e até mudar de candidato.

Já as Assembleias de Deus constituem um universo enorme e institucionalmente fragmentado em diferentes convenções e ministérios. Não seria correto atribuir uma única orientação política ou uma estrutura nacional uniforme de comando eleitoral ao conjunto das Assembleias de Deus.

6. Indicação direta, socialização política e atalhos eleitorais

Dados do Datafolha entre evangélicos paulistanos em 2024 ajudam a dimensionar a indicação direta.

Dezenove por cento disseram já ter votado em candidato indicado por pastor ou líder religioso; entre frequentadores de grandes igrejas, o percentual alcançava 27%.

A aceitação de pastores indicarem candidatos era de 19% entre protestantes históricos, 25% entre pentecostais e 32% entre neopentecostais.

Quando perguntados sobre a eleição presidencial de 2022, 24% dos neopentecostais disseram ter recebido recomendação para votar em Bolsonaro, contra 16% dos pentecostais e 15% dos protestantes históricos.

Mas há um dado igualmente importante: 70% dos evangélicos entrevistados eram contrários à indicação de candidatos por pastores.

Não existe, portanto, um eleitorado automaticamente obediente às lideranças.

Além disso, a influência pode ocorrer sem que o pastor diga “vote em X”. Uma comunidade pode construir durante meses ou anos categorias como “defesa da família”, “candidato cristão”, “comunismo”, “ideologia de gênero” ou “perseguição aos cristãos”. Ela fornece um mapa moral da política.

Quando chega a eleição, o eleitor pode reconhecer sozinho quem representa o “nosso lado”. É a socialização política.

Esse mecanismo pode adquirir importância adicional nas eleições proporcionais. Para deputado federal ou estadual, o eleitor enfrenta dezenas ou centenas de nomes sobre os quais possui pouca informação. A indicação religiosa pode funcionar como aquilo que a literatura chama de cue — pista ou atalho informacional.

O eleitor talvez desconheça a trajetória política daquele candidato. Mas sabe: “é o candidato da igreja.”

A literatura sobre religião e política no Brasil encontra maior êxito do corporativismo eleitoral denominacional nas eleições proporcionais do que nas majoritárias.

Esse resultado é compatível com a hipótese de que a indicação religiosa ganha importância quando o eleitor precisa escolher entre grande número de candidatos pouco conhecidos.

7. Por que a indignação circula tão bem?

Até aqui tratamos principalmente da confiança. Mas confiança não explica tudo.

A confiança ajuda a explicar por que acreditamos. A emoção ajuda a explicar por que sentimos urgência em compartilhar.

Existe ampla literatura sobre o chamado viés de negatividade: estímulos negativos tendem a receber atenção desproporcional.

Claire Robertson e colaboradores analisaram aproximadamente 105 mil versões de manchetes submetidas a experimentos aleatórios, responsáveis por 5,7 milhões de cliques e mais de 370 milhões de impressões.

Para uma manchete de tamanho médio, cada palavra negativa adicional aumentava em aproximadamente 2,3% a taxa de cliques.

William Brady e colaboradores analisaram mais de 560 mil mensagens sobre temas políticos polarizados e encontraram que palavras simultaneamente morais e emocionais aumentavam substancialmente a difusão das mensagens. Chamaram esse processo de contágio moral.

Steve Rathje, Jay Van Bavel e Sander van der Linden analisaram aproximadamente 2,7 milhões de publicações no Facebook e Twitter. Mensagens sobre o grupo político adversário eram compartilhadas aproximadamente duas vezes mais que mensagens sobre o próprio grupo.

Cada termo referente ao out-group — o grupo adversário — aumentava em 67% as chances de compartilhamento. O efeito era muito maior que o da negatividade genérica e maior que o da própria linguagem moral-emocional.

Isso sugere que uma mensagem politicamente poderosa não precisa apenas dizer “algo ruim está acontecendo”. Pode ser muito mais mobilizadora quando diz: “eles estão fazendo isso conosco.”

A fórmula passa a combinar: ameaça + identidade + adversário + emoção + urgência.

“Eles vão fechar as igrejas.” “As urnas foram fraudadas.” “O comunismo está chegando.”

A frase deixa de comunicar somente uma informação. Ela identifica uma vítima, um culpado e uma obrigação implícita: “avise os outros.”

Há uma cautela essencial: Rathje e seus coautores não encontraram que esse mecanismo psicológico fosse exclusivo de direita ou esquerda. A hostilidade ao grupo adversário gerava engajamento nos dois campos.

Portanto, seria cientificamente inadequado concluir que eleitores da direita sejam intrinsecamente mais suscetíveis ao medo, à raiva ou ao ódio.

A questão relevante é diferente: quais movimentos políticos utilizam esses mecanismos com maior frequência, intensidade, coordenação e finalidade?

8. Quando emoção, antagonismo e autoritarismo se encontram

É aqui que as duas literaturas se encontram.

Se conteúdos negativos chamam atenção, mensagens moral-emocionais circulam mais e a hostilidade ao grupo adversário produz engajamento particularmente elevado, movimentos políticos têm incentivos para organizar sua comunicação em torno desses elementos. Isso vale potencialmente para diferentes ideologias.

Mas um movimento com tendências autoritárias pode possuir um incentivo adicional.

Para ele, o adversário não precisa ser apresentado simplesmente como alguém que possui uma política econômica equivocada. Pode ser transformado em ameaça existencial.

O opositor deixa de ser adversário legítimo e passa a ser “inimigo da pátria”, “inimigo da família”, “inimigo dos cristãos”, “comunista”, “integrante do sistema”.

E as instituições que poderiam limitar o poder do movimento podem ser incorporadas ao mesmo campo inimigo.

Temos então uma cadeia: instituição limita o poder → instituição é convertida em adversário → adversário é apresentado como ameaça → ameaça provoca medo ou indignação → emoção estimula engajamento → engajamento amplia a narrativa → repetição enfraquece ainda mais a confiança na instituição.

Forma-se um circuito de retroalimentação.

A desinformação deixa de ser apenas uma ferramenta para ganhar uma eleição. Pode tornar-se instrumento de deslegitimação das instituições que limitam a conquista, o exercício e a permanência no poder.

Essa é uma hipótese analítica, não uma característica automática de qualquer partido situado à direita. Mas ajuda a explicar por que a associação entre populismo de direita radical e desinformação encontrada na pesquisa comparativa internacional merece atenção particular.

A hipótese proposta aqui não é que a literatura tenha demonstrado uma cadeia causal única entre autoritarismo, emoção, desinformação e erosão institucional. O argumento é que resultados produzidos separadamente por diferentes linhas de pesquisa permitem formular e testar a hipótese de um circuito de retroalimentação entre esses mecanismos.

Uma parte dos elos possui evidência experimental ou observacional própria. A articulação deles num único circuito constitui uma hipótese teórica que exige investigação empírica adicional.

9. O multiplicador político da confiança — agora com duas faces

Podemos agora completar o conceito.

Uma estrutura inicialmente opera verticalmente: liderança → fiel ou seguidor. Depois horizontalmente: seguidor → família → amigos → colegas → outros grupos digitais.

Em ciências sociais, spillover significa efeito de transbordamento: consequências que alcançam pessoas não diretamente expostas à intervenção original.

Imagine uma mensagem recebida no grupo religioso. O fiel encaminha ao irmão. O irmão não pertence àquela igreja, mas confia no familiar. Ele envia aos amigos. Um deles encaminha ao condomínio.

Quando chega ao último receptor, a origem religiosa pode ter desaparecido. “Meu pastor disse” transformou-se em: “um amigo meu mandou”.

A autoridade vertical converteu-se em confiança horizontal.

Mas agora podemos acrescentar uma segunda dimensão. O multiplicador pode simultaneamente produzir mais confiança nas fontes internas e menos confiança nas fontes externas.

Quadro 1 — Como funciona o multiplicador político da confiança

Mecanismo Funcionamento Possível efeito
Indicação direta Liderança recomenda explicitamente um candidato. Transfere parte de sua autoridade ao candidato.
Socialização política Comunidade constrói valores, identidades e adversários. O eleitor reconhece o “nosso lado”.
Ativação emocional Medo, raiva, indignação, ameaça ou entusiasmo aumentam a urgência. Estimula reação e retransmissão.
Construção do adversário Um grupo externo é apresentado como ameaça. Transforma divergência em antagonismo.
Reforço identitário Religião, ideologia, identidade militar ou outras pertenças convergem. A narrativa recebe diferentes camadas de validação.
Multiplicação horizontal O receptor retransmite a mensagem. Amplia o alcance além do público original.
Transbordamento Pessoas externas recebem a mensagem de alguém em quem confiam. A influência ultrapassa a comunidade inicial.
Repetição cruzada A narrativa chega por diferentes grupos. Uma origem comum pode parecer confirmação independente.
Deslegitimação externa Instituições que contradizem a narrativa são apresentadas como inimigas ou não confiáveis. Reduz a capacidade da informação externa de corrigir a narrativa.
Validação recíproca Repetição reforça crença, identidade e confiança nas fontes internas. Forma um circuito autorreforçado.

Elaboração própria.

O processo pode ser resumido: autoridade/identidade → confiança → mensagem emocional → ameaça/adversário → compartilhamento → repetição → aparência de consenso → reforço identitário → desconfiança das fontes externas → nova retransmissão.

Essa talvez seja a principal ampliação do conceito.

O multiplicador político da confiança pode possuir uma face dupla: multiplica a confiança dentro da comunidade e, simultaneamente, a desconfiança em relação às instituições externas que poderiam contradizer suas narrativas.

10. O que os dados brasileiros permitem afirmar

Quadro 2 — Religião, redes e influência política no Brasil

Ano Evidência Resultado principal Limite da conclusão
2018 Datafolha 65% dos eleitores utilizavam WhatsApp; 46% liam notícias políticas ou eleitorais pelo aplicativo e 24% compartilhavam conteúdo político. Uso não demonstra causalidade eleitoral.
2021/2022 InternetLab Cerca de dois em cada três entrevistados haviam recebido mensagens relacionadas à eleição presidencial; 14% dos usuários de WhatsApp e 19% dos de Telegram participavam de grupos eleitorais. Pesquisa realizada em dezembro de 2021; receber mensagem não significa acreditar nela ou mudar o voto.
2022 Ferreira e Fuks Exposição ao apoio de lideranças religiosas a Bolsonaro esteve associada a maior propensão ao voto nele entre evangélicos e católicos. Associação não significa obediência automática nem causalidade demonstrada.
2024 Datafolha 19% dos evangélicos paulistanos disseram já ter votado em candidato indicado pelo líder; 27% entre frequentadores de grandes igrejas. São Paulo não representa automaticamente todo o país.
2024 Datafolha Aceitação da indicação: 19% entre protestantes históricos, 25% entre pentecostais e 32% entre neopentecostais. Existem diferenças importantes dentro do universo evangélico.
2024 Datafolha 70% eram contrários à indicação de candidatos por pastores. A maioria rejeita comando eleitoral direto.
2024 DataSenado 72% dos usuários de redes ou aplicativos de mensagens haviam encontrado notícias que suspeitavam ser falsas; 50% consideravam difícil distinguir verdadeiro de falso. Vulnerabilidade informacional não pertence a um único campo político.
2026 Datafolha 43% declaravam muita ou um pouco de influência de amigos próximos sobre o voto, 39% de perfis seguidos nas redes e 30% de líderes religiosos; entre católicos, líderes religiosos chegavam a 31% e, entre evangélicos, a 39%. As categorias se sobrepõem; influência declarada não equivale a mudança efetiva do voto.
2026 TSE Regras específicas disciplinam conteúdos sintéticos ou significativamente alterados por inteligência artificial na propaganda eleitoral. Regulação não elimina a diferença de velocidade entre produção, disseminação e correção.

Elaboração própria, com base em Datafolha, DataSenado, InternetLab, Ferreira e Fuks e Tribunal Superior Eleitoral.

É particularmente sugestivo que amigos próximos apareçam acima das lideranças religiosas como fonte reconhecida de influência sobre o voto.

O dado não demonstra a existência do multiplicador político da confiança, mas é compatível com uma de suas hipóteses centrais: parte da influência política pode ganhar alcance quando deixa de chegar ao eleitor pela autoridade original e passa a circular horizontalmente por relações pessoais de confiança.

O que ainda não sabemos medir adequadamente é justamente o transbordamento. Qual parcela da influência originalmente produzida dentro de uma comunidade religiosa, militar ou ideológica chega a pessoas externas por intermédio de familiares e amigos?

Essa permanece uma importante agenda de pesquisa.

11. Da farda ao WhatsApp

Há outra rede brasileira de confiança que merece atenção: a identidade militar.

Jair Bolsonaro construiu grande parte de sua persona política em torno da condição de capitão do Exército, embora tenha desenvolvido praticamente toda sua carreira posterior como político profissional.

A patente converteu-se em marca. O “capitão” evocava um imaginário: militar → disciplina → ordem → autoridade → patriotismo → capacidade de colocar ordem no país.

São associações simbólicas, não propriedades automaticamente atribuíveis a todos os militares.

Durante seu governo, a presença militar na administração civil também aumentou. Levantamento do Tribunal de Contas da União contabilizou 6.157 militares ocupando cargos civis no Executivo em 2020, ante 2.765 em 2018.

Isso contribuiu para reforçar simbolicamente a associação entre o governo e a identidade militar.

Conheço esse fenômeno também por experiência própria. Servi ao Exército e participei de um grupo de WhatsApp de ex-militares.

Antes e depois da eleição de 2022, observei intensa circulação de mensagens favoráveis a Bolsonaro, ataques a Lula, informações que me pareciam falsas ou distorcidas e expectativas de atuação das Forças Armadas.

Uma frase repetida naquele ambiente ficou particularmente marcada: “Lula não subirá a rampa.”

Minha experiência individual evidentemente não permite generalizar o comportamento de militares ou ex-militares. Mas discursos semelhantes foram documentados independentemente.

Entre a noite do primeiro turno de 2022 e a tarde seguinte, monitoramento do Observador Folha/Quaest em 1.346 grupos de WhatsApp e 465 grupos de Telegram registrou milhares de menções a fraude eleitoral e às Forças Armadas. As palavras “fraude” e “fraudadas” apareceram 6.232 vezes no WhatsApp e 9.321 vezes no Telegram; referências a “militares”, “FFAA”, “Forças Armadas” e “Exército” apareceram 2.350 vezes no WhatsApp e 4.428 no Telegram.

Depois da derrota de Bolsonaro no segundo turno, outros monitoramentos encontraram novamente correntes que contestavam o resultado e especulavam sobre intervenção militar.

Isso não permite atribuir esse comportamento ao conjunto dos militares ou dos eleitores de Bolsonaro. Permite demonstrar que a associação entre contestação eleitoral e expectativa de atuação militar circulou efetivamente em determinados ecossistemas digitais.

Um indivíduo pode ser simultaneamente ex-militar, evangélico, conservador e bolsonarista e participar de grupos militares, religiosos, familiares e profissionais.

Surge um reforço identitário cumulativo. A bolha deixa de ser um espaço isolado. Torna-se uma rede de bolhas interligadas.

12. Patriotismo simbólico e nacionalismo subordinado

Existe ainda uma aparente contradição.

O bolsonarismo mobilizou intensamente bandeira, hino, cores nacionais, Forças Armadas e “Brasil acima de tudo”. Ao mesmo tempo, desenvolveu forte identificação com os Estados Unidos, especialmente com Donald Trump.

Jair Bolsonaro chegou a prestar continência à bandeira norte-americana em Dallas, em maio de 2019.

Em 2026, Flávio Bolsonaro declarou nos Estados Unidos que o Brasil poderia ser a “solução” para reduzir a dependência norte-americana da China em minerais críticos, especialmente terras raras. Posteriormente, afirmou que, se eleito, buscaria uma parceria estratégica de longo prazo com os Estados Unidos nesse setor.

Flávio não afirmou literalmente que “entregaria” as terras raras brasileiras.

Mas é legítimo perguntar em quais condições esses recursos seriam explorados, quem dominaria a tecnologia, onde ocorreria o processamento, quem capturaria o valor agregado e quanto de autonomia o Brasil preservaria.

Isso exige distinguir: patriotismo simbólico — bandeira, hino e retórica da pátria; nacionalismo soberano — autonomia decisória, domínio sobre recursos estratégicos e capacidade tecnológica; alinhamento civilizacional — identificação com uma potência estrangeira percebida como integrante do mesmo campo ideológico e cultural.

Surge aquilo que poderíamos chamar de nacionalismo subordinado: nacionalismo intenso nos símbolos e no combate aos adversários internos, combinado com disposição ao alinhamento externo quando a potência estrangeira é percebida como integrante do mesmo “nós”.

A comunidade informacional, portanto, não compartilha apenas fatos. Compartilha significados.

A disputa alcança o próprio significado de “patriotismo”, “soberania” e “democracia”.

13. A economia política da indignação

Existe também uma dimensão econômica.

Redes sociais disputam uma mercadoria escassa: a atenção humana.

Conteúdo capaz de provocar reação tende a produzir cliques, comentários, compartilhamentos e tempo de permanência.

Isso não significa que algoritmos conscientemente “escolham o extremismo”. Significa que sistemas orientados por métricas de engajamento podem acabar premiando conteúdos capazes de provocar reações intensas.

Se palavras negativas aumentam a probabilidade de clique, mensagens moral-emocionais aumentam a difusão e referências ao adversário político estão entre os mais fortes preditores de compartilhamento, surge um incentivo econômico e político para produzir justamente esse tipo de comunicação.

Há então uma economia política da indignação.

A desinformação pode gerar audiência, seguidores, monetização, influência, acesso a políticos e capacidade de pautar o debate.

Forma-se uma cadeia: produtor → influenciador → liderança → grupo → cidadão → retransmissão gratuita.

O cidadão torna-se parte da infraestrutura de distribuição.

E existe uma importante assimetria do custo da verdade.

É fácil escrever: “as urnas foram fraudadas”. Demonstrar por que a afirmação é falsa exige explicar procedimentos, auditorias, fiscalização e funcionamento do sistema eleitoral.

A desinformação possui uma vantagem competitiva: pode ser simples, emocional e instantânea; a verdade frequentemente precisa ser contextualizada, demonstrada e explicada.

14. Inteligência artificial: industrializando emoção e verossimilhança

Em 2026 surge uma diferença qualitativa.

A inteligência artificial generativa tornou barato produzir textos, imagens, vozes e vídeos convincentes.

Deepfake é conteúdo sintético ou significativamente manipulado que representa realisticamente alguém fazendo ou dizendo algo que não fez ou disse.

Mas o problema ultrapassa os deepfakes.

A IA permite gerar numerosas versões de uma narrativa, adaptar linguagem para públicos diferentes e testar quais formulações provocam maior reação.

Ela pode, portanto, reduzir não apenas o custo da falsificação. Pode reduzir o custo da personalização emocional da propaganda.

Uma mesma narrativa pode ser apresentada como ameaça religiosa para um grupo, ameaça econômica para outro, ameaça à segurança para um terceiro e ameaça à soberania para um quarto.

O custo da produção cai. A capacidade de segmentação aumenta. A verossimilhança cresce.

A Justiça Eleitoral exige identificação explícita, destacada e acessível de conteúdo sintético multimídia produzido ou manipulado por inteligência artificial na propaganda eleitoral.

Para as eleições de 2026, a Resolução nº 23.755 do Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu ainda uma restrição temporal específica: ficam vedadas a publicação e republicação, mesmo gratuitas, assim como o impulsionamento pago de novos conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por inteligência artificial ou tecnologias equivalentes que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidato ou pessoa pública, mesmo quando rotulados, entre as 72 horas que antecedem e as 24 horas que sucedem o término do pleito.

A preocupação institucional é compreensível porque existe uma assimetria temporal: produzir e distribuir uma falsidade pode levar minutos; investigá-la, contextualizá-la e fazer a correção chegar às mesmas pessoas pode levar horas ou dias.

Em uma eleição, esse intervalo pode ser decisivo.

15. Como furar a bolha hoje — e como formar o cidadão de amanhã?

Fact-checking, ou checagem de fatos, é indispensável, mas possui limites.

Experimento realizado durante as eleições de 2018 por Frederico Batista Pereira, Natália Bueno, Felipe Nunes e Nara Pavão encontrou que, naquele estudo, correções realizadas por checagem não reduziram significativamente a crença na desinformação.

Isso não significa que checar seja inútil. Significa que corrigir uma informação e recuperar confiança são problemas diferentes.

Agora podemos acrescentar: corrigir o fato e desativar a emoção também são problemas diferentes.

Se uma mensagem produziu medo, indignação e identidade, apresentar uma tabela correta talvez não seja suficiente.

Humilhar o interlocutor pode ainda reforçar a identidade ameaçada. Uma alternativa seria: “Eu também recebi isso. Você sabe de onde surgiu? Vamos procurar a declaração completa?”

A conversa deixa de ser sobre quem você é e passa a ser sobre como sabemos se isso aconteceu.

Accuracy prompts, ou estímulos de precisão, introduzem uma pequena pausa antes do compartilhamento: “Antes de encaminhar: você verificou se isso é verdadeiro?”

Já o prebunking, ou inoculação preventiva, procura preparar o cidadão antes de a falsidade chegar, ensinando técnicas recorrentes de manipulação.

Experimentos realizados no Brasil por Pereira, Bueno, Nunes e Pavão encontraram que intervenções preventivas multidimensionais podem reduzir a aceitação de rumores.

Pode-se ensinar o cidadão a reconhecer retirada de contexto, falso especialista, imagem manipulada, falsa dicotomia, apelo ao medo, construção conspiratória e fabricação de inimigos.

Não se ensina em quem votar. Ensina-se a perguntar: “Como eu sei que isso é verdade?” E: “Por que essa mensagem está tentando me deixar com medo ou com raiva antes que eu tenha tempo de verificá-la?”

15.1. O problema da iniciativa individual

Existe, entretanto, uma dificuldade. Todas essas recomendações podem pressupor que o próprio cidadão terá a iniciativa de procurar uma agência de checagem, consultar uma fonte primária ou interromper voluntariamente o compartilhamento de uma mensagem que confirma suas crenças.

Mas justamente quem está mais imerso em uma câmara de eco pode ter menos incentivos para fazer isso.

Não basta disponibilizar a informação correta. É preciso criar caminhos pelos quais ela chegue ao cidadão.

Uma estratégia imediata poderia começar com uma rotina extremamente simples: Antes de compartilhar, pare.

Quem é a fonte original? Há outra fonte independente confirmando? A imagem, o áudio ou a declaração estão no contexto correto? Estou compartilhando porque verifiquei ou porque a mensagem confirma aquilo em que já acredito e me provocou medo ou indignação?

Transformar essas perguntas em hábito social talvez seja tão importante quanto produzir novas agências de checagem.

15.2. A checagem como política pública de cidadania

Não é razoável, entretanto, esperar que milhões de cidadãos desenvolvam espontaneamente esses hábitos.

Há espaço para políticas públicas de alfabetização midiática e informacional voltadas também à população adulta.

Campanhas de utilidade pública poderiam ensinar procedimentos simples de verificação sem dizer ao cidadão em que opinião política deve acreditar.

No período eleitoral, a Justiça Eleitoral possui condições particularmente favoráveis para desempenhar esse papel.

O Tribunal Superior Eleitoral já mantém o Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação, criado em 2021. Entre seus eixos estão disseminação de informação de qualidade, alfabetização midiática e capacitação e identificação e contenção da desinformação.

Existem também iniciativas como o Fato ou Boato, que reúne checagens, informações verificadas e conteúdos educativos, e o Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral — Siade, pelo qual cidadãos podem apontar conteúdos potencialmente falsos ou descontextualizados.

O desafio é transformar iniciativas desse tipo em comunicação ainda mais capilar, preventiva e cotidiana.

O cidadão não deveria precisar conhecer previamente o nome de uma plataforma de checagem e decidir procurá-la depois de receber uma mensagem. A orientação deveria também chegar até ele.

15.3. Uma campanha nacional: “Antes de compartilhar, verifique”

A Justiça Eleitoral tradicionalmente realiza campanhas para ensinar o eleitor como votar.

No ambiente informacional contemporâneo, poderia ampliar esse esforço e ensinar também como verificar antes de compartilhar.

Uma campanha nacional de alfabetização informacional poderia ser veiculada durante os meses que antecedem as eleições em televisão, rádio, redes sociais, plataformas digitais e aplicativos de mensagens.

A mensagem central poderia ser extremamente simples: “Recebeu uma informação sobre a eleição? Antes de compartilhar, verifique.”

A partir dela, peças curtas poderiam ensinar diferentes procedimentos: “Procure a fonte original.” “Leia além do título.” “Verifique a data.” “Confira se a imagem corresponde ao acontecimento.” “Áudio sem autoria não é prova.” “Veja se outras fontes independentes confirmam.” “Conteúdo que provoca medo ou indignação merece atenção adicional antes de ser compartilhado.” “Imagens, vídeos e vozes podem ser produzidos por inteligência artificial.”

O objetivo não seria estabelecer qual opinião política é correta. O Estado não ensinaria a conclusão. Ensinaria o método.

Esse limite é fundamental. Uma política democrática de alfabetização informacional precisa possuir critérios transparentes, públicos e politicamente neutros, aplicáveis igualmente a informações favoráveis ou desfavoráveis ao governo, à oposição ou a qualquer candidato.

Também não deveria existir monopólio estatal da verificação. Universidades, organizações da sociedade civil, imprensa, agências de checagem e plataformas poderiam participar de uma rede plural de educação e verificação, com metodologias públicas e possibilidade de contestação.

Em 2026, o próprio TSE ampliou acordos com plataformas digitais para ações relacionadas à integridade informacional das eleições. Esse caminho poderia avançar ainda mais na direção da educação do usuário, e não apenas da identificação ou retirada de conteúdos problemáticos.

15.4. Fazer a informação verificada entrar nas redes de confiança

Existe ainda uma consequência direta do argumento central deste artigo.

Se informações falsas adquirem credibilidade quando são retransmitidas por pessoas em quem confiamos, informações verificadas também podem utilizar relações sociais de confiança.

Materiais educativos precisam ser curtos, compreensíveis e compartilháveis.

Se uma falsidade cabe em quatro linhas e sua correção exige quinze páginas, reaparece a assimetria do custo da verdade. A explicação completa pode continuar disponível. Mas precisa existir também uma versão que possa circular no WhatsApp.

E intermediários confiáveis podem desempenhar papel importante: familiares, professores, profissionais, lideranças comunitárias, religiosas e outras pessoas que possuam credibilidade em suas redes.

Estaríamos tentando fazer o próprio multiplicador descrito neste artigo operar em sentido contrário.

A desinformação pode seguir: confiança → emoção → compartilhamento → transbordamento.

A verificação poderia construir: confiança → dúvida → verificação → compartilhamento responsável → transbordamento.

Surge assim uma conclusão importante: não basta produzir a verdade. É preciso construir caminhos sociais pelos quais informações verificáveis consigam circular.

15.5. Educação para a democracia: começar no ensino fundamental

Tudo isso enfrenta o problema imediato. Mas existe também uma solução estrutural.

Ensinar crianças e adolescentes a reconhecer mecanismos de manipulação da informação deveria fazer parte da formação para a cidadania nas sociedades democráticas.

Isso pode começar ainda no ensino fundamental, com conteúdos adequados a cada faixa etária.

Não se trata de ensinar à criança em quem acreditar, muito menos em quem votar. Trata-se de ensinar como avaliar aquilo que recebe como informação.

Quem produziu esta mensagem? Qual é a fonte original? A imagem corresponde realmente ao acontecimento descrito? Uma frase foi retirada de contexto? Existem fontes independentes confirmando a informação? Como distinguir fato, opinião e interpretação?

E: “Eu acreditaria nisso com a mesma facilidade se a mensagem atacasse o meu próprio grupo político, religioso ou ideológico?”

Essa pergunta introduz de maneira simples o problema do raciocínio motivado.

À medida que o estudante avança, essa formação pode incorporar funcionamento de algoritmos, publicidade e segmentação digital, bolhas informacionais, câmaras de eco, descontextualização, manipulação de imagens, deepfakes, inteligência artificial, fontes primárias, estatística básica, checagem de fatos e diferença entre correlação e causalidade.

Deveria incluir também aquilo que poderíamos chamar de alfabetização emocional da informação.

O estudante precisa aprender não apenas a perguntar “Isso é verdadeiro?”, mas “O que esta mensagem está tentando fazer comigo?” Está tentando informar? Convencer? Vender? Assustar? Indignar? Fazer com que eu odeie alguém? Fazer com que eu compartilhe imediatamente?

A emoção não torna uma informação falsa. Uma notícia verdadeira também pode provocar indignação, medo ou alegria. O ponto é outro: uma reação emocional intensa pode ser justamente o momento em que mais precisamos desacelerar antes de compartilhar.

Essa educação não pode converter-se em instrumento de doutrinação estatal. Seu objetivo não seria estabelecer uma lista oficial de opiniões corretas.

Ao contrário. O estudante deveria aprender a aplicar os mesmos critérios de verificação a governos e oposições, esquerda e direita, imprensa tradicional e influenciadores, autoridades religiosas e políticas — inclusive às fontes nas quais ele próprio mais confia.

O objetivo seria desenvolver aquilo que poderíamos chamar de autonomia epistemológica do cidadão: capacidade de avaliar evidências, reconhecer técnicas de manipulação e revisar crenças sem delegar integralmente a terceiros a decisão sobre aquilo que é verdadeiro.

Alfabetização midiática, informacional e digital não seria apenas uma competência tecnológica. Seria uma infraestrutura da democracia.

Sociedades democráticas investem durante anos para ensinar seus cidadãos a ler, escrever e calcular porque essas capacidades são necessárias à participação na vida social.

No século XXI, talvez precisem também ensinar sistematicamente seus cidadãos a verificar, contextualizar, comparar fontes, reconhecer manipulações e compreender as próprias reações emocionais diante da informação.

A estratégia democrática teria, portanto, dois horizontes complementares: hoje: levar instrumentos simples de verificação ao cidadão; amanhã: formar cidadãos que já tenham incorporado esses instrumentos à maneira como consomem informação.

Furar bolhas não pode depender apenas da iniciativa individual de quem está dentro delas. Precisa também ser uma política de fortalecimento da cidadania democrática.

16. Democracia necessita de instituições — e de um chão factual comum

Não existe uma única “verdade política” que deva ser estabelecida pelo Estado, pela imprensa ou pelas universidades.

Existem fatos, interpretações, valores e interesses.

Podemos discordar sobre privatizações, tributação, política monetária, segurança pública, aborto, meio ambiente ou política externa. Essa disputa é democracia.

Instituições também podem errar. Jornais erram. Universidades erram. Juízes erram. Institutos de pesquisa erram. Governos erram.

Criticá-los não é ameaça à democracia. Ao contrário: a possibilidade de criticá-los é parte da democracia.

O problema surge quando a crítica deixa de ser dirigida a uma decisão ou erro concreto e se transforma na tese de que nenhuma informação produzida por determinada instituição pode ser aceita sempre que contrariar a narrativa do grupo.

Podemos discutir as causas da inflação. Não podemos fabricar seu índice. Podemos criticar uma decisão judicial. Não podemos inventar uma decisão inexistente. Podemos questionar pesquisas eleitorais. Mas o fato de uma pesquisa apresentar resultado indesejado não constitui evidência de fraude.

Podemos defender relações próximas com os Estados Unidos. Mas devemos discutir abertamente se determinada política aumenta ou diminui a soberania brasileira.

E podemos discordar radicalmente de um adversário político sem negar-lhe o direito de disputar eleições, governar quando eleito e ser substituído pelas regras constitucionais.

É nesse ponto que desinformação, emoção e autoritarismo podem se encontrar de maneira particularmente perigosa.

Quando um projeto político transforma adversários em inimigos, instituições em obstáculos e qualquer informação contraditória em prova de conspiração, a disputa deixa de ocorrer apenas dentro das regras democráticas e passa a atingir a legitimidade das próprias regras.

Furar bolhas não significa dizer ao eleitor o que deve pensar. Significa devolver-lhe condições para distinguir fato de interpretação, evidência de manipulação, adversário de inimigo e crítica institucional de destruição da legitimidade institucional.

Talvez o problema possa ser resumido em três perguntas: Isso é verdade? Por que querem que eu sinta medo ou raiva antes de verificar? Estou rejeitando essa informação porque ela é falsa ou porque veio de alguém que aprendi a considerar inimigo?

Uma democracia pode sobreviver a cidadãos que discordam radicalmente entre si.

É muito mais difícil sobreviver quando cada grupo passa a habitar sua própria realidade — e quando a destruição da realidade compartilhada se torna instrumento de disputa pelo poder.

Porque a democracia não exige que todos cheguemos às mesmas conclusões.

Exige que ainda sejamos capazes de discutir sobre uma realidade minimamente compartilhada, aceitar adversários como legítimos e preservar instituições capazes de limitar o poder de quem quer que esteja governando.

Leitura recomendada e fontes

Estudos acadêmicos

NGUYEN, C. Thi. “Echo Chambers and Epistemic Bubbles.” Episteme, v. 17, n. 2, p. 141–161, 2020.

ABIRI, Gilad; BUCHHEIM, Johannes. “Beyond True and False: Fake News and the Digital Epistemic Divide.” Michigan Technology Law Review, v. 29, p. 59–109, 2022.

TÖRNBERG, Petter; CHUERI, Juliana. “When Do Parties Lie? Misinformation and Radical-Right Populism Across 26 Countries.” The International Journal of Press/Politics, v. 31, n. 2, p. 367–386, 2026.

BRADY, William J.; WILLS, Julian A.; JOST, John T.; TUCKER, Joshua A.; VAN BAVEL, Jay J. “Emotion Shapes the Diffusion of Moralized Content in Social Networks.” Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 114, n. 28, p. 7313–7318, 2017.

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ROBERTSON, Claire E. et al. “Negativity Drives Online News Consumption.” Nature Human Behaviour, v. 7, p. 812–822, 2023.

FERREIRA, Matheus Gomes Mendonça; FUKS, Mario. “Lideranças religiosas e o voto em Bolsonaro em 2022.” Revista Brasileira de Ciência Política, v. 44, e290090, 2025.

ROSSINI, Patrícia; MONT’ALVERNE, Camila; KALOGEROPOULOS, Antonis. “Explaining Beliefs in Electoral Misinformation in the 2022 Brazilian Election: The Role of Ideology, Political Trust, Social Media, and Messaging Apps.” HKS Misinformation Review, v. 4, n. 3, 2023.

PEREIRA, Frederico Batista; BUENO, Natália S.; NUNES, Felipe; PAVÃO, Nara. “Fake News, Fact Checking, and Partisanship: The Resilience of Rumors in the 2018 Brazilian Elections.” The Journal of Politics, v. 84, n. 4, p. 2188–2201, 2022.

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MACHADO, Caio; KIRA, Beatriz; NARAYANAN, Vidya; KOLLANYI, Bence; HOWARD, Philip N. “A Study of Misinformation in WhatsApp Groups with a Focus on the Brazilian Presidential Elections.” Companion Proceedings of The 2019 World Wide Web Conference, p. 1013–1019, 2019.

RESENDE, Gustavo et al. “Analyzing Textual (Mis)Information Shared in WhatsApp Groups.” Proceedings of the 10th ACM Conference on Web Science — WebSci 2019, p. 225–234, 2019.

HALE, Scott A.; BELISARIO, Adriano; MOSTAFA, Ahmed N.; CAMARGO, Chico. “Analyzing Misinformation Claims During the 2022 Brazilian General Election on WhatsApp, Twitter, and Kwai.” International Journal of Public Opinion Research, v. 36, n. 3, edae032, 2024.

PENNYCOOK, Gordon; RAND, David G. “Accuracy Prompts Are a Replicable and Generalizable Approach for Reducing the Spread of Misinformation.” Nature Communications, v. 13, art. 2333, 2022.

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Pesquisas e levantamentos

INTERNETLAB. Os Vetores da Comunicação Política em Aplicativos de Mensagens: hábitos e percepções do brasileiro. 2ª ed., 2022.

DATASENADO. Panorama Político 2024 — Notícias falsas e Democracia. Brasília: Senado Federal, 2024.

DATAFOLHA. Pesquisa sobre uso do WhatsApp e compartilhamento de conteúdo eleitoral. Outubro de 2018.

DATAFOLHA. Pesquisa com evangélicos da cidade de São Paulo sobre igreja, política e comportamento eleitoral. São Paulo, julho de 2024.

DATAFOLHA. Pesquisas nacionais sobre influência de amigos, redes sociais, imprensa e lideranças religiosas na decisão do voto. Julho e outubro de 2026.

OBSERVADOR FOLHA/QUAEST. Monitoramento de grupos públicos de WhatsApp e Telegram durante as eleições presidenciais de 2022.

Documentos e fontes institucionais

BRASIL. TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação no Âmbito da Justiça Eleitoral: Plano Estratégico — Eleições 2022. Brasília: TSE, 2021.

BRASIL. TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação no Âmbito da Justiça Eleitoral: Relatório de Ações e Resultados — Eleições 2022. Brasília: TSE, 2023.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Resolução nº 23.755, de 2 de março de 2026. Altera as normas sobre propaganda eleitoral, inclusive quanto ao uso de inteligência artificial e conteúdo sintético.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Resolução nº 23.757, de 2 de março de 2026. Altera as normas relativas a ilícitos eleitorais, inclusive quanto à desinformação e ao uso irregular de conteúdo sintético.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Fato ou Boato. Plataforma de verificação e educação informacional da Justiça Eleitoral, versão atualizada para as Eleições 2026.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral — Siade.

TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO. Levantamento sobre a presença de militares da ativa e da reserva em cargos e funções civis da administração pública federal, 2020.

Fontes jornalísticas e documentais consultadas

Foram ainda consultadas fontes jornalísticas para a documentação de acontecimentos específicos mencionados no texto, entre eles a continência de Jair Bolsonaro à bandeira dos Estados Unidos em Dallas, em 2019; declarações de Flávio Bolsonaro sobre minerais críticos e terras raras em 2026; e o monitoramento da circulação de narrativas sobre fraude eleitoral e intervenção militar em grupos públicos de WhatsApp e Telegram em 2022.

Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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