No Vozes pela Democracia, o roteirista e produtor audiovisual e o jornalista Lucas Galdino discutem os desafios da comunicação progressista no segundo turno, a concentração das plataformas digitais e a necessidade de combinar mobilização nas redes sociais com organização nos territórios
A comunicação digital ocupa um lugar central na disputa política brasileira, especialmente durante as eleições presidenciais. Como ampliar o alcance das propostas, dialogar com públicos que não acompanham cotidianamente o debate político e enfrentar a desinformação em ambientes controlados por grandes empresas de tecnologia? Essas questões foram discutidas no programa Vozes pela Democracia, do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), apresentado por Souza Júnior, com a participação de Thiago Guimarães, roteirista, produtor audiovisual e criador de conteúdo, e Lucas Galdino, jornalista, produtor executivo e cofundador do projeto Histórias de ter.a.pia.
A edição, intitulada “Vencer nas redes: os desafios da comunicação progressista”, abordou as estratégias de comunicação digital no segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro no contexto eleitoral discutido pelos participantes. A conversa tratou da disputa por atenção nas redes, da atuação de criadores de conteúdo, dos limites das métricas de audiência e da influência das plataformas sobre a circulação de informações políticas. O debate também destacou a importância de integrar a comunicação digital às mobilizações presenciais e às iniciativas de comunicação popular.
Comunicação progressista precisa ocupar as redes durante todo o ano
Para Lucas Galdino, o campo progressista precisa reconhecer as redes sociais como espaços fundamentais de comunicação política e desenvolver uma atuação permanente nesses ambientes. Ele ressaltou, porém, que a organização não pode se limitar aos períodos eleitorais, quando a necessidade de alcançar novos públicos se torna mais urgente.
“É fundamental assim, mas a gente não pode esquecer que a gente não pode agir só no desespero do segundo turno ou só no desespero das eleições. A gente tem que criar realmente uma rede”, afirmou.
Na avaliação do jornalista, a articulação entre criadores de conteúdo, representantes políticos e organizações progressistas precisa fazer parte de uma estratégia contínua. A mobilização concentrada nas semanas que antecedem a votação pode ampliar a circulação de determinadas mensagens, mas não substitui o trabalho de construção de comunidades e de relacionamento com os públicos ao longo do tempo.
Galdino também chamou a atenção para o desempenho de candidaturas que conseguiram mobilizar eleitores por meio das redes sociais no primeiro turno. Para ele, essas experiências demonstram a importância de compreender como a comunicação digital se conecta à atuação política e à organização fora da internet.
O desafio, portanto, envolve consolidar redes capazes de manter o diálogo com a sociedade para além das campanhas eleitorais. Isso exige planejamento editorial, produção regular de conteúdo e articulação entre diferentes iniciativas de comunicação.
Thiago Guimarães questiona a confiabilidade das métricas das plataformas
Thiago Guimarães concordou que a aproximação entre a campanha do Presidente Lula e lideranças com forte presença digital representa um movimento relevante. Ao mesmo tempo, advertiu que os números divulgados pelas plataformas precisam ser analisados criticamente, especialmente quando são utilizados para orientar decisões estratégicas.
“Um detalhe contraditório nessa nossa relação com as redes sociais é que essas plataformas não são auditáveis. Então, os números que elas informam pra gente, a gente não tem como verificar o lastro que eles têm na realidade”, declarou.
A observação se relaciona à dificuldade de comparar métricas digitais com indicadores de audiência de outros meios de comunicação. Visualizações, alcance e número de seguidores são medidas que podem ter definições e métodos de contabilização diferentes. Sem informações suficientes sobre os critérios utilizados, os números não permitem, por si sós, estabelecer comparações rigorosas entre plataformas, televisão e outros canais.
Guimarães questionou, nesse sentido, a utilização de resultados de audiência como evidência direta da eficácia de uma estratégia eleitoral. Embora os indicadores possam ajudar a compreender a circulação de conteúdos, eles não demonstram isoladamente quantas pessoas foram efetivamente alcançadas de maneira significativa, como receberam as mensagens ou de que forma isso se relacionou com suas decisões políticas.
O produtor também destacou o chamado paradoxo da sobrevivência: a tendência de observar apenas os casos que tiveram êxito e ignorar aqueles que, mesmo apresentando características semelhantes, não alcançaram o resultado esperado. Segundo ele, há candidaturas com grande presença digital que conseguiram transformar essa visibilidade em votos, enquanto outras, também com muitos seguidores, não obtiveram o mesmo desempenho.
A análise sugere que o alcance nas redes precisa ser examinado em conjunto com outros fatores políticos e sociais. A presença digital pode contribuir para a mobilização, mas seus resultados dependem de condições que não se resumem à quantidade de visualizações ou seguidores.
Disputar a narrativa também significa disputar a infraestrutura
Um dos principais pontos levantados por Guimarães foi a concentração do ambiente digital nas mãos de grandes empresas de tecnologia. Para o criador de conteúdo, o debate sobre comunicação política precisa considerar não apenas as mensagens produzidas, mas também as condições em que elas circulam.
“A gente precisa disputar não só essa narrativa, porque há esse discurso de que a gente tem que disputar a narrativa, o que é verdade, mas a gente precisa disputar também a infraestrutura onde essa narrativa se constrói”, afirmou.
O argumento amplia a discussão sobre a presença progressista nas redes. Produzir conteúdos de qualidade e alcançar públicos diferentes são tarefas importantes, mas os resultados também dependem das regras de distribuição, dos critérios de recomendação e das decisões de moderação adotadas pelas empresas responsáveis pelas plataformas.
Guimarães relatou preocupação com a retirada de contas e publicações durante o período eleitoral. Segundo ele, decisões que os produtores consideram arbitrárias podem comprometer o trabalho de quem depende desses espaços para divulgar informações e manter contato com sua audiência.
Ao tratar do problema, o convidado defendeu maior transparência sobre as decisões das plataformas e a existência de mecanismos que permitam aos usuários questionar medidas de moderação. A falta de explicações claras, em sua avaliação, dificulta a compreensão dos critérios empregados e aumenta a insegurança de quem produz conteúdo político.
O produtor também mencionou a possibilidade de oferecer aos usuários maior controle sobre a organização do conteúdo exibido, incluindo opções de visualização cronológica das publicações. A discussão envolve a autonomia dos usuários diante de sistemas automatizados que selecionam o que aparece em seus perfis.
Para Guimarães, a comunicação popular, os veículos jornalísticos independentes e os criadores de conteúdo enfrentam desafios que podem ser discutidos conjuntamente. Esses setores dependem de canais de distribuição que não controlam e precisam lidar com mudanças nas regras e na visibilidade de suas publicações.
A defesa de maior transparência e de mecanismos de responsabilização das empresas aparece, assim, como parte de uma discussão mais ampla sobre o direito à comunicação na sociedade digital.
Regulação das big techs e autonomia digital
A concentração das plataformas também levou os participantes a discutir a necessidade de regulamentação das grandes empresas de tecnologia. Durante a entrevista, Guimarães observou que os interesses comerciais dessas companhias não coincidem necessariamente com as prioridades do jornalismo, da divulgação científica ou da comunicação de interesse público.
“São todas proprietárias de grandes oligopólios estrangeiros e não têm como interesse principal a difusão de informação de qualidade e de interesse público”, afirmou.
O convidado ressaltou que essas empresas operam modelos de negócios orientados pela publicidade, pelo marketing digital e pela exploração econômica de dados. Nesse cenário, a circulação de conteúdos depende de sistemas e decisões empresariais cujos critérios nem sempre são acessíveis ao público.
A discussão sobre regulação envolve questões como transparência algorítmica, proteção de dados, direito de contestação de decisões de moderação e condições de funcionamento das plataformas. O objetivo de políticas dessa natureza, na perspectiva apresentada no programa, seria estabelecer regras que ampliem a transparência e a responsabilidade das empresas sem eliminar a liberdade de expressão.
O apresentador Souza Júnior também levantou a importância de desenvolver plataformas próprias, capazes de reduzir a dependência dos grandes conglomerados tecnológicos. A proposta abriu espaço para uma reflexão sobre autonomia digital e sobre as condições necessárias para construir ambientes de comunicação orientados pelo interesse público.
A criação de alternativas, contudo, exige recursos, infraestrutura técnica, capacidade de distribuição e adesão dos usuários. Por isso, a discussão sobre autonomia digital não se restringe ao desenvolvimento de ferramentas, mas envolve a construção de condições para que elas sejam sustentáveis e utilizadas em larga escala.
Guimarães destacou ainda a importância de articular diferentes setores da comunicação independente. Para ele, criadores de conteúdo, rádios comunitárias, veículos jornalísticos e iniciativas de comunicação popular têm interesses que podem convergir na defesa de regras mais transparentes e de maior controle social sobre o ambiente digital.
A campanha eleitoral e o desafio de alcançar novos públicos
Ao abordar as estratégias de comunicação no segundo turno, Souza Júnior citou a participação do Presidente Lula em uma entrevista no Flow, realizada no mesmo horário de um debate eleitoral do qual o candidato não participou. O apresentador também mencionou a articulação com parlamentares e lideranças que conquistaram visibilidade nas redes sociais.
A discussão evidenciou a importância atribuída à presença digital durante a campanha. Para os participantes, os canais de comunicação utilizados pelos candidatos e por seus apoiadores influenciam a maneira como propostas, críticas e informações chegam aos eleitores.
Guimarães considerou positiva a aproximação da campanha com lideranças que demonstraram capacidade de comunicação nas redes, mas ponderou que não seria possível atribuir resultados eleitorais diretamente a uma única ação. Além das limitações das métricas, a mobilização política depende da interação entre diferentes estratégias e ambientes.
Lucas Galdino, por sua vez, destacou a necessidade de apresentar aos eleitores informações que permitam comparar as propostas dos candidatos. Na avaliação do jornalista, a comunicação digital pode contribuir para ampliar o acesso a essas informações em um período no qual o tempo disponível para o debate eleitoral é limitado.
Ele também chamou a atenção para a forma como os conteúdos são editados e distribuídos. Um mesmo discurso pode chegar a públicos distintos por meio de recortes que enfatizam aspectos diferentes da declaração original. Compreender essa dinâmica é importante para avaliar como as mensagens políticas circulam e como podem ser interpretadas.
A tarefa das iniciativas progressistas, segundo a discussão apresentada no programa, envolve produzir conteúdos capazes de informar e dialogar com pessoas que não acompanham diretamente os debates políticos. Isso requer linguagem acessível, contextualização dos fatos e atenção às dúvidas concretas dos públicos.
Redes sociais e mobilização nas ruas precisam caminhar juntas
Lucas Galdino alertou para o risco de concentrar todos os esforços de comunicação no ambiente digital. Embora reconheça a velocidade com que as mensagens podem circular na internet, ele defendeu a manutenção de ações presenciais e do contato direto com a sociedade.
“Não esquecer outros territórios. Então, tem que ir pra rua também”, afirmou.
A observação retoma um dos eixos centrais do debate: a comunicação digital não substitui a organização territorial. A presença nas redes pode ampliar o alcance de uma mobilização, enquanto encontros presenciais, atividades comunitárias e manifestações públicas permitem estabelecer relações que não dependem exclusivamente das plataformas.
O apresentador Souza Júnior também mencionou a participação de estudantes em mobilizações realizadas em diferentes cidades. A referência serviu para destacar a importância da atuação de movimentos sociais e de organizações que mantêm atividades fora da internet.
A integração entre esses espaços exige planejamento. Conteúdos digitais podem divulgar encontros, explicar reivindicações e documentar atividades presenciais. Ao mesmo tempo, as experiências vividas nos territórios oferecem informações e perspectivas que podem alimentar a produção de novos conteúdos.
Para Galdino, a articulação entre comunicação digital e mobilização presencial é necessária para ampliar o alcance das propostas políticas e permitir que diferentes segmentos da sociedade participem do debate público.
O coletivo Cria e a organização dos produtores de conteúdo
Na parte final do programa, Thiago Guimarães apresentou o trabalho desenvolvido com Lucas Galdino no coletivo Cria, iniciativa voltada à articulação de criadores de conteúdo. O projeto busca ampliar a participação desses profissionais nas discussões sobre as condições de produção e circulação de informações nas plataformas.
Guimarães ressaltou que os criadores de conteúdo precisam ser reconhecidos também como trabalhadores do ambiente digital. A produção envolve pesquisa, elaboração de roteiros, gravação, edição e divulgação, atividades que demandam tempo e recursos e que podem ser afetadas por decisões tomadas pelas empresas responsáveis pelas redes.
A organização coletiva, nessa perspectiva, pode contribuir para tornar os problemas mais visíveis e ampliar a capacidade de diálogo com outros setores da comunicação. O convidado defendeu a aproximação entre produtores independentes, veículos jornalísticos e rádios comunitárias, considerando que esses segmentos compartilham preocupações relacionadas à distribuição de conteúdo e à dependência das plataformas.
O coletivo divulga seu trabalho no Instagram e no endereço criacoletivo.cc, conforme informado durante a entrevista.
Lucas Galdino concordou com a necessidade de ampliar a articulação entre os profissionais e defendeu a construção de condições para que as redes sociais funcionem como espaços de debate mais transparentes.
O direito à comunicação no ambiente digital
Ao encerrar a edição, Souza Júnior retomou a discussão sobre desinformação e disputa política. O apresentador defendeu a necessidade de ampliar a circulação de informações verificáveis e de incentivar o público a compartilhar o conteúdo do programa.
A conversa deixou em evidência questões que ultrapassam o calendário eleitoral. A dependência de plataformas privadas, a falta de transparência sobre os sistemas de recomendação e as dificuldades enfrentadas por produtores independentes afetam as condições de acesso à informação e de participação no debate público.
A comunicação progressista, conforme os argumentos apresentados pelos convidados, precisa considerar as possibilidades de alcance das redes sem deixar de examinar as regras que organizam esses ambientes. A produção de conteúdo é parte do trabalho, mas a capacidade de distribuí-lo, mantê-lo disponível e alcançar públicos diversos também depende das condições técnicas e políticas em que a comunicação acontece.
O debate promovido pelo Vozes pela Democracia integra a atuação do FNDC em defesa da cidadania e do direito à comunicação. Ao reunir profissionais que trabalham diretamente com produção audiovisual e conteúdo digital, o programa contribui para discutir como as transformações tecnológicas afetam o jornalismo, a comunicação popular e a participação política.
A íntegra da entrevista está disponível no YouTube da Atitude Popular. O público pode assistir ao programa e compartilhar o conteúdo em suas redes para ampliar o acesso à discussão sobre comunicação digital, democracia e participação cidadã.
Assista à íntegra:
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Vozes pela Democracia é um programa do FNDC sobre cidadania e direito à comunicação, com apoio de CUT, FENAJ, CTB, CNTE, InterVozes, Abraço Brasil e Barão de Itararé. Produção Atitude Popular. Apresentação de Souza Júnior.