Os algoritmos de guerra: como hackear uma eleição por dentro
O guia estratégico das plataformas para interferir nas eleições e os mecanismos invisíveis de recomendação, busca, publicidade, moderação e infraestrutura capazes de alterar alcance, visibilidade e circulação política sem jamais tocar na urna.
Por Reynaldo Aragon
Da recomendação invisível ao bloqueio de anúncios, da busca à inteligência artificial, das redes de influência às ordens judiciais, esta investigação percorre a arquitetura técnica capaz de decidir quem aparece, quem circula e quem desaparece da esfera pública. Um mapa do poder algorítmico que hoje atravessa uma eleição por dentro e coloca a própria democracia diante de um problema que ela ainda não aprendeu a enxergar.
Por que escrevo este texto agora
Há anos estudo plataformas digitais, inteligência artificial, algoritmos e guerra informacional. Quanto mais avancei nesse campo, menos sentido fez olhar uma eleição apenas pelos debates, pesquisas, programas de governo ou pelo momento em que o eleitor aperta uma tecla na urna. Existe uma disputa anterior, cotidiana, quase sempre invisível, que passa pelas telas, pelos sistemas que organizam aquilo que vemos e pelo que deixam de mostrar. Foi essa preocupação que me levou a escrever este texto agora, na semana decisiva da eleição brasileira.
Não parto da ideia de que exista uma conspiração escondida dentro de cada algoritmo. Também não trato queda de alcance, remoção de conteúdo ou decisão de plataforma como prova automática de manipulação. O problema é mais sério. Empresas privadas passaram a organizar uma parcela enorme da circulação política e dispõem de sistemas capazes de recomendar, ordenar, reduzir distribuição, aprovar anúncios, restringir contas, retirar monetização e responder diretamente a perguntas eleitorais. A questão é saber onde esse poder está, como funciona, que riscos produz, como detectar uma anomalia e o que fazer antes que suspeita, propaganda e desinformação ocupem o lugar da prova.
A eleição já não acontece apenas na urna
A urna continua sendo o lugar onde a escolha se transforma em voto. A formação dessa escolha, porém, atravessa uma infraestrutura que nenhum eleitor controla. Um conteúdo pode permanecer publicado e quase não circular. Outro pode alcançar milhões de pessoas que nunca o procuraram. A busca escolhe uma ordem. O feed estabelece prioridades. A recomendação decide quem rompe a própria bolha. A publicidade compra alcance. A inteligência artificial já responde a perguntas sobre candidatos e pode selecionar o que mencionar, omitir ou colocar em primeiro plano. Nada disso altera um voto já depositado. Altera o ambiente em que ele é formado.
A própria Justiça Eleitoral reconheceu essa mudança. Em 2026, o TSE obrigou grandes provedores a apresentar planos de conformidade e a explicar mecanismos de ordenação, recomendação, redução de distribuição, moderação e tratamento de conteúdo político. A regulamentação também determinou que plataformas com sistemas de recomendação retirem dos resultados recomendados os canais e perfis oficiais informados à Justiça Eleitoral, salvo as hipóteses permitidas de impulsionamento. Isso significa que uma candidatura pode continuar publicando normalmente e, ainda assim, perder parte da capacidade de chegar algoritmicamente a quem não a segue.
Essa regra complica qualquer diagnóstico. Uma queda de descoberta pode vir da própria norma eleitoral, de cadastro errado, falha técnica, penalização prevista nas políticas da empresa ou tratamento desigual. O que interessa é comparar situações equivalentes e medir quem perdeu alcance, por quanto tempo, em qual superfície e com qual efeito. Sem comparação, sobra impressão. Para investigar de verdade, é preciso reconstruir o que aconteceu.
A palavra interferência exige precisão. A própria lei interfere na circulação quando retira contas oficiais da recomendação, manda remover conteúdo ilícito ou determina o cumprimento de uma ordem judicial. Empresas também tomam decisões de produto e segurança que afetam visibilidade sem objetivo eleitoral. O problema democrático surge quando efeitos assimétricos aparecem e não há informação suficiente para reconstruir a causa. É nesse ponto que uma escolha técnica ganha peso político e precisa poder ser verificada.
Onde a visibilidade é decidida
Uma plataforma não precisa apagar uma candidatura para reduzir sua presença pública. Pode retirar elegibilidade para recomendação, reduzir descoberta na busca, limitar compartilhamento, suspender monetização, bloquear impulsionamento ou interromper a conta de anúncios. É uma escala de intervenções entre deixar circular e remover. O conteúdo continua tecnicamente vivo enquanto sua capacidade de encontrar público muda. Esse é o ponto que torna o poder algorítmico tão difícil de enxergar e tão importante numa eleição.
No X, o mecanismo ficou exposto. A empresa criou o Brazil2026ElectionFilter para retirar contas oficiais das recomendações do Para Você a usuários que ainda não as seguiam. A primeira lista pública continha centenas de identificadores e depois cresceu para mais de dois mil. A própria discussão judicial sobre o filtro revelou atraso de atualização, inconsistências cadastrais e ausência de sincronização em tempo real entre a base eleitoral e o sistema da plataforma. Houve assimetria de implementação sem que a decisão examinada encontrasse prova de favorecimento deliberado. O caso é decisivo porque mostra que um erro técnico pode produzir efeito político antes de qualquer intenção política ser demonstrada.
O TikTok informou ao TSE que contas oficiais de candidaturas ficam fora do Feed Para Você e podem ter menor descoberta na busca. O Kwai declarou poder reduzir alcance, restringir compartilhamento, suspender monetização e limitar funcionalidades. Meta combina recomendação, moderação, publicidade, sistemas automáticos e revisão humana. Google reúne Busca, YouTube e Gemini, três formas distintas de mediação dentro do mesmo conglomerado. Em cada uma delas, o problema democrático não é a existência de regras. É a dificuldade de saber por que uma medida foi aplicada, quais sinais pesaram, se casos equivalentes receberam tratamento equivalente e quanto alcance desapareceu enquanto a explicação ainda não existia.
A Meta costuma descrever sua lógica de integridade como uma combinação entre remover, reduzir e informar. A diferença é politicamente relevante. Remover elimina o conteúdo. Reduzir altera a distribuição sem fazê-lo desaparecer. Informar acrescenta contexto ou fricção. Para o usuário comum, as duas últimas medidas podem ser quase invisíveis. Para uma campanha, podem alterar aquisição de audiência, custo, velocidade de circulação e capacidade de atravessar comunidades. O poder não está apenas em decidir o que pode existir. Está também em calibrar quanto daquela existência será encontrável.
A conta de anúncios de Lula no Facebook tornou o problema concreto nesta reta final. Ela foi desabilitada temporariamente, a campanha recorreu, o serviço voltou no mesmo dia e, quando o episódio se tornou público, a Meta ainda não havia explicado a causa. Durante algumas horas, uma campanha presidencial perdeu uma ferramenta de distribuição paga sem que houvesse uma razão pública para a interrupção. Em eleição, esse tempo não volta como um arquivo restaurado depois de um erro.
Há ainda um problema de escala. Sistemas de recomendação não tomam uma única decisão sobre uma candidatura. Fazem milhões de classificações ao longo do dia, combinando sinais de usuário, conteúdo, contexto, integridade e produto. Uma mudança pequena repetida em grande escala pode produzir efeito material sem um ato único fácil de fotografar ou recorrer. Por isso, auditoria eleitoral precisa observar séries, não episódios isolados. A pergunta séria é se existe desvio persistente, comparável e explicável.
Olhar apenas para post removido já não basta. Uma auditoria precisa acompanhar alcance, impressões, descoberta por não seguidores, posição na busca, elegibilidade para recomendação, custo de publicidade, aprovação e rejeição de anúncios, mudanças de funcionalidade e tempo de resposta. Quando poucas corporações concentram tantas decisões, transparência e auditabilidade deixam de ser exigências técnicas e passam a ser exigências democráticas.
A eleição que acontece fora das contas dos candidatos
Quanto mais as contas oficiais ficam submetidas a restrições específicas, mais importante se torna o ecossistema ao redor delas. Influenciadores, páginas de apoio, collabs, canais, grupos, perfis comerciais, afiliados, automação e inteligência artificial podem ampliar uma narrativa sem passar pelo perfil formal da campanha. A conta do candidato é a parte mais fácil de observar. A periferia é onde a fiscalização começa a perder visibilidade.
A investigação aberta no TSE sobre uma suposta rede de collabs no Instagram associada à candidatura de Flávio Bolsonaro mostrou essa dificuldade. A Corregedoria determinou que Facebook e Shopee preservassem e fornecessem dados sobre contas e links comerciais. A acusação de coordenação ilícita ainda depende de julgamento, mas o desenho da investigação já revela o que precisa ser seguido. Quem administra as contas, quais perfis publicam juntos, em que horários, quais links se repetem, onde há monetização e se existe estrutura comum atrás de uma aparência de espontaneidade. Cem perfis publicando a mesma peça não provam comando central. Sincronização, infraestrutura, administradores, pagamentos e vínculos recorrentes começam a produzir evidência.
Telegram e WhatsApp acrescentam uma zona de baixa observabilidade. Canais e grupos públicos podem ser monitorados, mas conversas privadas não oferecem a mesma visibilidade. No WhatsApp, a criptografia ponta a ponta impede que a empresa leia normalmente o conteúdo das conversas pessoais. Isso não elimina controles contra abuso, mas limita brutalmente a capacidade externa de reconstruir origem e cadeia de difusão. O primeiro registro público de um áudio ou vídeo não deve ser confundido com sua origem.
O sinal mais útil em redes distribuídas raramente é uma mensagem isolada. É a combinação entre repetição, velocidade, sincronização, passagem de uma plataforma para outra e adaptação da mesma narrativa a formatos diferentes. Um vídeo aparece, vira card, recebe legenda, migra para canal, chega a grupo fechado e volta à rede aberta com aparência espontânea. Isso pode acontecer organicamente. Quando há pré-posicionamento, materiais idênticos e infraestrutura recorrente, o padrão merece investigação mais profunda.
A inteligência artificial aprofunda o problema por outro caminho. Na quinta rodada do projeto Boca de IA, do ITS Rio com o Ministério Público Federal, 20% das respostas analisadas trouxeram recomendação direta de candidatos. Perplexity concentrou a maior incidência naquela amostra, seguida por Meta AI, Grok e DeepSeek, enquanto ChatGPT, Claude e Gemini não apresentaram recomendação direta na rodada. O levantamento não autoriza uma sentença sobre nenhuma empresa, mas mostra que a mediação política já chegou ao diálogo individual com a máquina e precisa ser auditada com repetição, controle e comparação.
Quando uma ordem judicial vira código
Uma decisão judicial sobre conteúdo digital não termina quando o ministro assina o documento. Alguém precisa converter linguagem jurídica em ação técnica. Localizar URLs, identificar cópias, definir o alcance da ordem, remover, preservar dados, suspender impulsionamento ou restaurar aquilo que outra decisão mandou devolver. Quando a ordem alcança conteúdos semelhantes ou equivalentes, parte da interpretação pode acabar nas mãos da própria plataforma, que precisa decidir o que cabe dentro daquela categoria.
Nesta eleição, seria falso tratar o Judiciário como uma variável neutra que apenas observa a disputa de fora. O TSE é presidido por Kassio Nunes Marques e tem André Mendonça na vice-presidência, os dois indicados ao Supremo por Jair Bolsonaro. A origem da nomeação, sozinha, não prova parcialidade. O problema é que decisões tomadas por ambos ao longo de 2026 transformaram a imparcialidade da cúpula eleitoral em tema público concreto. Em agosto, a Folha ouviu cinco ministros e técnicos do TSE e do STF que identificavam em decisões e declarações de Nunes Marques alinhamento com teses da defesa de Flávio Bolsonaro. Em setembro, um pedido de afastamento dos dois ministros foi protocolado no STF sob alegação de conflito de interesse e comprometimento da imparcialidade. São acusações que precisam ser provadas, mas apagá-las do quadro seria falsear a eleição que está acontecendo diante de nós.
O histórico decisório explica por que o debate ganhou peso. Nunes Marques suspendeu a divulgação de uma pesquisa AtlasIntel que registrava queda de Flávio Bolsonaro, manteve inicialmente no ar um vídeo que associava Lula ao PCC e ao Comando Vermelho e foi derrotado nesse caso por 5 votos a 2 no plenário do TSE, com André Mendonça formando a única divergência ao seu lado. Já na reta final, Nunes Marques suspendeu um jingle da campanha de Lula que ligava Flávio a episódios como rachadinha, Banco Master e compra de imóveis em dinheiro vivo. O registro também contém decisões que contrariaram interesses do PL, o que impede reduzir a atuação dos dois ministros a uma sequência uniforme. Ainda assim, há decisões de enorme efeito eleitoral concentradas num período curto, razão suficiente para um escrutínio muito mais duro do que a deferência automática normalmente concedida a uma toga.
André Mendonça também deixou de ser apenas um ministro com trajetória conservadora. A Reuters registrou em setembro que ele se tornou uma figura central para a direita brasileira, celebrado em atos bolsonaristas e apresentado por apoiadores como símbolo político em plena campanha. Suas decisões passaram a ser acompanhadas pelo impacto potencial sobre a disputa entre Lula e Flávio. Isoladamente, isso não demonstra uma operação eleitoral. Demonstra que a dimensão política não desaparece quando começa a decisão judicial. Magistrados também exercem poder sobre alcance, tempo e circulação, e precisam ser observados com a mesma frieza aplicada às plataformas.
A controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida mostrou como esse poder opera em horas. André Mendonça determinou a retirada de conteúdo e estendeu a ordem a publicações semelhantes numa disputa que atingia diretamente Flávio Bolsonaro. Dois dias depois, Flávio Dino, no STF, restabeleceu parte do material ao entender que não havia base suficiente para a restrição aplicada. Nesse intervalo, publicações saíram de circulação no momento mais sensível da campanha. A restauração posterior não devolve o alcance perdido, não recompõe compartilhamentos e não recria a janela política que passou.
Decisões judiciais podem se tornar vetores de desestabilização mesmo sem qualquer coordenação secreta com uma plataforma. Uma liminar mal calibrada, seletiva ou excessivamente ampla corta circulação em minutos. Quando alcança conteúdos semelhantes, a empresa precisa criar uma regra operacional para decidir o que mais deve cair, usando termos, hashes, classificadores ou revisão humana. O poder sai do gabinete e entra no código. Quanto maior a margem interpretativa, maior o risco de falsos positivos, tratamento desigual e dano eleitoral difícil de reparar.
A tensão chegou ao ponto de Nunes Marques pedir ao presidente do STF mecanismos para barrar o que chamou de sobreposição de competências em pedidos urgentes ligados à eleição. O movimento também precisa ser lido à luz do histórico recente, não como uma abstração institucional. Quem monitora o pleito deve reconstruir cada linha do tempo sem reverência a cargo ou nome. Pedido, relator, decisão, conteúdo atingido, notificação, cumprimento, abrangência, recurso, reversão e restauração. Se o mesmo padrão de urgência, interpretação ou amplitude aparece repetidamente em benefício de um lado, isso deixa de ser ruído e passa a exigir investigação pública.
Uma ordem judicial precisa deixar rastros suficientes para responder depois quantos conteúdos foram removidos, quantos voltaram, qual critério atingiu similares, quanto tempo durou a restrição e se a plataforma extrapolou ou ficou aquém do comando recebido. A democracia não pode fiscalizar apenas Meta, Google, X ou TikTok e tratar magistrados como caixas-pretas imunes a auditoria pública. Na reta final, uma ordem de poucas linhas pode produzir sobre a circulação política um efeito tão imediato quanto qualquer decisão algorítmica.
O poder que existe abaixo da tela
A camada mais profunda quase nunca aparece no debate eleitoral. Redes sociais dependem de nuvem, servidores, CDNs, resolução de nomes, telecomunicações, lojas de aplicativos, meios de pagamento e sistemas de autenticação. Quando tudo funciona, essa infraestrutura desaparece. Quando uma peça é retirada, descobrimos quanto poder havia concentrado ali.
O Brasil já viu esse poder em operação no bloqueio do X em 2024, quando a execução passou por Anatel, operadoras e, em determinado momento, pela infraestrutura de distribuição usada pela plataforma. O precedente internacional do Parler foi ainda mais explícito. Apple e Google retiraram o aplicativo de suas lojas e a Amazon deixou de fornecer a nuvem que sustentava o serviço depois do ataque ao Capitólio dos Estados Unidos. Não encontrei evidência pública de uso equivalente dessa camada contra uma candidatura presidencial brasileira em 2026. A capacidade, no entanto, é real e documentada.
Neste ano, infraestrutura digital também entrou formalmente na disputa entre Brasil e Estados Unidos. O USTR criticou decisões brasileiras contra empresas americanas, políticas de serviços digitais e elementos ligados a pagamentos, incluindo o Pix, e o conflito comercial avançou para medidas tarifárias. Não há evidência pública de que essa disputa tenha sido convertida em operação eleitoral. O dado estratégico é que tecnologia, comércio, soberania e poder estatal já estão no mesmo tabuleiro.
Esse mapa de dependências precisa ser conhecido antes da emergência. Qual provedor hospeda o site, qual CDN entrega o conteúdo, quem administra o domínio, onde estão os backups, quais serviços autenticam usuários, que empresas processam pagamentos e quais lojas controlam a distribuição do aplicativo. O objetivo é localizar pontos únicos de falha e saber quais alternativas existem se um deles for atingido por decisão judicial, sanção, incidente técnico ou ataque.
Até a divulgação oficial dos resultados depende de infraestrutura própria do TSE, com CDN, limites de requisição e bloqueios temporários previstos para determinadas condições técnicas. Uma falha de acesso no domingo da eleição pode ser ataque, sobrecarga, erro, bloqueio ou proteção automática. Atribuir antes de verificar é fabricar vulnerabilidade política em cima de um evento técnico.
Como perceber que alguma coisa está acontecendo
A defesa começa antes do incidente. Campanhas, redações, universidades e organizações que pretendam acompanhar o ambiente eleitoral precisam conhecer o comportamento normal das contas e serviços que observam. Alcance habitual, parcela de não seguidores, custo de publicidade, tempo de aprovação, frequência de rejeições, posição em buscas e origem do tráfego formam uma linha de base. É ela que permite separar uma oscilação comum de uma ruptura que merece investigação.
Essa linha de base não precisa ser sofisticada. Um painel diário com alcance, impressões, novos seguidores, tráfego de busca, custo por mil impressões, taxa de rejeição de anúncios, tempo de aprovação e principais fontes de referência já permite enxergar rupturas. O importante é manter método e horário comparáveis. Medir apenas depois do problema é instalar câmera de segurança depois do arrombamento.
Quando a anomalia aparece, a ordem correta é preservar, comparar e só depois concluir. Guardar URL, horário, identificador da publicação, mensagem da plataforma, métricas anteriores e posteriores, notificações, biblioteca de anúncios, arquivo original quando houver vídeo ou imagem, versão do aplicativo e qualquer justificativa recebida. Captura de tela ajuda, mas sozinha é fraca. Ela congela um instante e apaga quase toda a história do evento.
Tempo precisa ser tratado como dado. Quando o conteúdo apareceu, quando começou a crescer, quando foi detectado, quando a plataforma agiu, quando uma ordem judicial chegou, quando foi cumprida e quando eventual recurso teve efeito. Narrativas de fraude prosperam nos vazios entre o acontecimento e a explicação. Uma cronologia bem preservada reduz esse espaço e permite medir dano que uma restauração tardia não recupera.
A comparação é o teste mais importante. Se uma conta perdeu recomendação, é preciso verificar o que ocorreu com outras candidaturas submetidas à mesma regra. Se um anúncio foi rejeitado, peças equivalentes precisam entrar na comparação. Se uma IA responde de uma forma sobre um candidato, o mesmo prompt deve ser repetido trocando apenas o nome. Se uma busca muda, o teste precisa ser feito em contas, dispositivos e sessões sem login diferentes. O contrafactual é o que transforma uma impressão em evidência examinável.
Também é preciso trabalhar com hipóteses concorrentes. Se o alcance despencou, verificar mudança de regra, erro de cadastro, penalização informada, alteração de conteúdo, sazonalidade, falha de medição e instabilidade técnica antes de avançar para tratamento seletivo. Se várias explicações continuarem possíveis, o diagnóstico precisa admitir isso. Investigar bem é ir eliminando, uma a uma, as explicações que os dados não sustentam.
Coordenação exige uma barra ainda mais alta. Muitas contas repetindo a mesma mensagem podem indicar organização, mas também podem refletir viralização ou mobilização legítima. Horário, sequência, material idêntico, URLs, collabs, administradores, vínculos comerciais, infraestrutura e pagamentos ajudam a separar uma coisa da outra. Nas redes fechadas, a cautela precisa ser maior. O primeiro canal público em que um áudio apareceu pode não ser a origem. A primeira conta que publicou uma peça pode apenas ter recebido material produzido em outro lugar. Inventar o elo que falta é a maneira mais rápida de destruir uma investigação séria.
Com inteligência artificial, o teste precisa ser repetível. Uma resposta isolada de chatbot não prova padrão. É preciso registrar data, modelo e versão, repetir a mesma pergunta em número suficiente de execuções e alterar apenas a variável que se pretende comparar. Na infraestrutura, a pergunta muda. O domínio resolve. O servidor responde. Há erro HTTP. A indisponibilidade ocorre em todas as redes. Existe comunicado oficial. Algum bloqueio foi anunciado. Há alteração de rota. Antes de chamar uma queda de ataque, as causas triviais precisam ser eliminadas.
Quando houver evidência de incidente real, a reação precisa acompanhar o que foi demonstrado. Acionar a plataforma com documentação suficiente para deixar rastro, procurar a Justiça Eleitoral quando houver matéria eleitoral concreta, envolver especialistas independentes quando a questão for técnica e comunicar publicamente apenas o que já foi confirmado. Se os fatos mudarem, a comunicação precisa mudar junto. Defender a democracia não autoriza manter uma acusação depois que a própria evidência a derrubou.
Um protocolo de resposta precisa ter responsáveis definidos antes da crise. Quem coleta os dados, quem fala com a plataforma, quem preserva os arquivos, quem aciona advogado ou Justiça Eleitoral, quem conversa com especialistas e quem comunica ao público. Misturar investigação, decisão política e comunicação numa única pessoa aumenta erro e ansiedade. Separar funções ajuda a impedir que a necessidade de responder rápido empurre uma hipótese ainda fraca para a manchete.
Há também uma defesa elementar que não depende de descobrir quem atacou. Nenhuma campanha, redação ou instituição deveria concentrar toda a capacidade de comunicação numa única plataforma. Site próprio, listas autorizadas, canais em serviços diferentes, arquivos locais, preservação de métricas e meios alternativos de publicação reduzem o impacto de um bloqueio, falha ou decisão inesperada. Quem terceiriza toda a sua capacidade de chegar ao público também terceiriza sua vulnerabilidade.
Se o incidente atingir infraestrutura ou comunicação, os canais alternativos precisam estar prontos, não apenas cadastrados. Domínio secundário, cópias atualizadas do site, contatos de imprensa, arquivos locais e procedimentos para confirmar a autenticidade de comunicados reduzem a possibilidade de alguém ocupar o silêncio com material falso. Essa resiliência compra tempo para investigar sem desaparecer do espaço público.
A democracia precisa enxergar a máquina
A investigação não encontrou uma máquina secreta capaz de escolher sozinha o presidente do Brasil. Encontrou algo mais concreto. Empresas, algoritmos, tribunais, regras e infraestruturas participam todos os dias das condições em que a política chega ao eleitor. Há regras públicas e algum espaço para auditoria, mas uma parcela decisiva continua protegida por modelos proprietários, segredos comerciais e dados que apenas as plataformas possuem.
Integridade eleitoral não pode significar apenas segurança da urna. Precisa incluir capacidade pública de observar a infraestrutura que organiza atenção, descoberta e circulação antes do voto. Para isso são necessários transparência, acesso independente para auditoria, preservação de dados, resposta rápida, instituições que entendam tecnologia antes da crise e jornalismo capaz de desconfiar sem inventar, provar antes de acusar e corrigir quando a evidência muda.
A urna pode funcionar perfeitamente enquanto outra disputa acontece alguns centímetros antes dela, na tela onde o eleitor passa horas todos os dias. É essa parte da eleição que a democracia brasileira precisa aprender a enxergar.
Artigo publicado originalmente em <código aberto>
Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. Editor do codigoaberto.net É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.
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