Oposição argentina mira Peter Thiel e acusa Milei de colocar o país à venda

Peter Thiel e Javier Milei e seus assessores durante reunião na Casa Rosada, em Buenos Aires. Reprodução

Parlamentares da oposição argentina realizaram uma audiência de cinco horas no Congresso para investigar os interesses do bilionário de tecnologia Peter Thiel no país e transformar sua aproximação com o presidente Javier Milei em tema da campanha eleitoral de 2027. Peronistas acusam o governo de abrir recursos e ativos nacionais ao capital estrangeiro. Com informações de Folha de S.Paulo.

Thiel comprou uma mansão em Buenos Aires e adquiriu uma participação na maior exportadora de petróleo da Argentina. Ele também se reuniu com Milei e integrantes do gabinete no início deste ano, quando o governo passou a defender mudanças nas regras para a aquisição de terras por estrangeiros e uma proposta para permitir que empresas sejam administradas integralmente por inteligência artificial.

A audiência no Congresso girou em torno da pergunta “por que Thiel está aqui?”, exibida em telas na sala de reuniões. Milei, Thiel e outros integrantes do governo foram convidados, mas não compareceram. Um representante do empresário não respondeu ao pedido de comentário.

Juan Marino, deputado peronista que organizou o encontro, comparou o debate sobre o empresário a uma distopia tecnológica. “Para entender Peter Thiel, talvez precisemos ler menos ‘O Senhor dos Anéis’ e assistir mais a ‘O Exterminador do Futuro 2’”, disse. Ele afirmou que o filme ajuda a enxergar “que tipo de futuro e de presente estão propondo aqui”.

Javier Milei

Projetos de Milei ampliam reação da oposição

O governo Milei apresenta as propostas como parte de uma estratégia para atrair investimentos estrangeiros. A iniciativa sobre direitos de propriedade, porém, provocou reação pública neste mês e levou parlamentares a retirar os trechos que reduziriam com maior intensidade as restrições à posse de terras argentinas por estrangeiros antes da aprovação.

Os opositores também passaram a questionar um projeto voltado à inteligência artificial e outra proposta que prevê benefícios tributários, aduaneiros e cambiais para novos setores econômicos, entre eles centros de dados. Milei ainda pretende criar um programa de concessão de passaportes em troca de investimentos.

O debate ocorre enquanto a popularidade de Milei se aproxima de um dos níveis mais baixos de seu mandato. A oposição tenta usar a presença de Thiel, conhecido por investimentos em tecnologia e análise de dados, para mobilizar o discurso nacionalista antes da eleição presidencial do próximo ano.

Antes da audiência, manifestantes protestaram diante da propriedade de Thiel em Buenos Aires. Vestidos como Gandalf, personagem de “O Senhor dos Anéis”, eles carregaram uma faixa com a frase “Você não passará” e adaptaram cânticos de futebol para atacar o empresário e sua empresa de análise de dados.

Duas pessoas com conhecimento do assunto disseram que Thiel tem interesse em manter na Argentina um bunker para se proteger de possível precipitação radioativa após um ataque nuclear. Uma autoridade do governo afirmou, sob condição de anonimato, que ele apoiou a ideia de empresas administradas por inteligência artificial, mas não redigiu o projeto.

Thiel tinha uma palestra prevista para uma conferência empresarial em Buenos Aires na semana seguinte, mas cancelou sua participação sem apresentar explicações.

Peter Thiel entra em carro após encontro na Casa Rosada
Peter Thiel deixa a Casa Rosada após encontro com Javier Milei. Foto: Reprodução

Quem é Peter Thiel?

Peter Thiel é apontado por críticos como um dos principais articuladores intelectuais e financeiros do chamado “tecnofascismo” ou “tecnoautoritarismo”, corrente associada à ideia de que empresários de tecnologia e grandes plataformas devem exercer poder político com menos controles democráticos e regulatórios. Cofundador do PayPal e da Palantir e criador do fundo Founders Fund, Thiel financia há anos políticos e organizações da direita americana e ajudou a projetar nomes como J.D. Vance.

Sua visão sobre democracia ganhou notoriedade em 2009, quando escreveu que já não acreditava que “liberdade e democracia” fossem compatíveis. A combinação entre essa concepção política, o financiamento de lideranças da direita e o crescimento da Palantir — empresa de análise de dados que mantém contratos com órgãos militares, de inteligência e segurança dos Estados Unidos — tornou Thiel uma das figuras centrais do debate sobre a aproximação entre poder tecnológico, vigilância estatal e projetos autoritários.

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