Globo admite conluio na Lava Jato, mas diz que não tem do que se desculpar

O juiz Sérgio Moro recebe o Prêmio Faz Diferença como Personalidade do Ano e 2017 do vice-presidente do Grupo Globo, João Roberto Marinho, e do então Diretor de Redação do Globo Ascânio Seleme. Reprodução

O jornal O Globo publicou neste domingo (30) o editorial intitulado “Lula ainda não entendeu o trabalho da imprensa”, em resposta às críticas feitas pelo presidente Lula durante a sabatina do Jornal Nacional na última quinta-feira (27). Na entrevista, Lula afirmou que a imprensa brasileira “comprou” e “vendeu” as acusações da Lava Jato contra ele e nunca reconheceu os erros cometidos na cobertura. O texto do jornal sustenta que a Globo cumpriu sua obrigação de noticiar as investigações, reconhece que as mensagens obtidas pela chamada Vaza Jato revelaram falta de imparcialidade e conluio entre Sergio Moro e procuradores, mas conclui que o grupo não tem do que se desculpar.

“Há anos, quando confrontado com escândalos de corrupção, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, hoje novamente candidato à reeleição, cita a Operação Lava-Jato e diz que a imprensa brasileira nunca pediu desculpas a ele. Foi assim na entrevista ao Jornal Nacional na última quinta-feira. É certo que a jornalista Renata Vasconcellos, falando em nome do Grupo Globo, muito apropriadamente rebateu: ‘O jornalismo da Globo cumpriu sua obrigação de noticiar os fatos durante aquela cobertura’. Vale, porém, aprofundar a questão.

A Lava-Jato foi uma investigação feita por policiais federais e pelo Ministério Público, que resultou em um processo julgado por três instâncias da Justiça. Envolveu cifras bilionárias e confissões da maior parte dos agentes corruptores e daqueles que foram corrompidos. Levou à prisão empresários e pessoas que detiveram cargos públicos, inclusive o próprio presidente Lula, que sempre clamou por sua inocência.

Em qualquer parte do mundo, uma investigação desse porte ganharia uma cobertura extensa e intensa ao longo de toda a duração dos procedimentos. Os agentes da lei tinham fé pública, e os réus jamais deixaram de ser ouvidos pela imprensa. O jornalismo profissional não é adivinho — e a ele é vedado grampear ilegalmente juízes ou promotores, como acabou sendo feito por um hacker.

Reprodução do título do Editorial do Globo

Esses grampos ilegais de fato revelaram que juiz e promotores não agiram de forma isenta e que havia conluio entre eles. A imprensa, inclusive a Globo e os demais veículos do Grupo Globo, deu ampla cobertura a essas revelações, como podem demonstrar os arquivos. O Supremo Tribunal Federal acabou por declarar a suspeição do juiz Sergio Moro, depois anulou todos os processos que pesavam contra Lula e outros ex-agentes públicos (e, novamente, tais fatos foram objeto de coberturas extensas). Não à toa, na entrevista ao Jornal Nacional na eleição de 2022, o jornalista William Bonner, então apresentador do telejornal, relatou tais fatos e disse a Lula: ‘Portanto o senhor não deve nada à Justiça’. (…)

Não há do que se desculpar.”

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