Ondas de calor cada vez mais intensas e incêndios florestais estão dificultando os avanços obtidos na melhoria da qualidade do ar em diferentes regiões do mundo, alerta a Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência das Nações Unidas. O diagnóstico consta do relatório anual sobre qualidade do ar e clima divulgado nesta segunda-feira (7).
Segundo reportagem de The Guardian, a redução das emissões de poluentes provenientes de veículos e atividades industriais em regiões como Europa e América do Norte vem sendo parcialmente anulada pelo aumento da poluição provocada por incêndios florestais. O fenômeno é agravado pelo aquecimento do planeta, que favorece condições mais quentes e secas para a propagação do fogo.
O relatório destaca ainda o aumento da concentração de ozônio ao nível do solo durante períodos prolongados de calor extremo. Diferentemente do ozônio presente na alta atmosfera, que protege a Terra da radiação ultravioleta, o ozônio próximo à superfície é um poluente que pode provocar inflamações pulmonares e problemas cardiovasculares.
“Qualidade do ar e clima não podem ser tratados como assuntos separados; eles estão profundamente interligados e precisam ser enfrentados conjuntamente”, afirmou Lorenzo Labrador, cientista da OMM, segundo o The Guardian.
Incêndios provocam aumento da poluição
Um dos principais alertas da OMM diz respeito às partículas finas conhecidas como PM2,5. Com diâmetro inferior a 2,5 micrômetros, elas conseguem penetrar profundamente nos pulmões e alcançar a corrente sanguínea, representando um risco significativo à saúde.
Os incêndios florestais são uma importante fonte dessas partículas. De acordo com estudo citado no relatório, a ocorrência de eventos extremos de fumaça provocada por incêndios triplicou desde a década de 1990 e pode ter contribuído para aproximadamente 100 mil mortes adicionais por ano entre 2010 e 2018.
A exposição à fumaça está associada ao aumento de crises de asma, hospitalizações por doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), maior utilização de medicamentos respiratórios e impactos sobre a saúde mental e a gestação.
A fumaça dos incêndios também pode percorrer grandes distâncias. Assim, mesmo regiões que conseguiram reduzir significativamente suas emissões industriais e do transporte podem sofrer deterioração da qualidade do ar quando atingidas por partículas provenientes de queimadas em outras áreas.
Calor extremo favorece formação de ozônio
As ondas de calor representam outro componente do problema. Temperaturas elevadas e períodos prolongados de forte insolação favorecem reações químicas que aumentam a concentração de ozônio próximo ao solo.
Segundo a OMM, em regiões altamente poluídas, aproximadamente uma em cada cinco mortes por DPOC já está associada à exposição prolongada ao ozônio. O poluente pode provocar inflamações no tecido pulmonar, afetar a circulação sanguínea e aumentar os riscos cardiovasculares.
O fenômeno ganhou dimensão particularmente preocupante durante o verão de 2026 no hemisfério Norte, marcado por ondas de calor intensas em várias partes da Europa.
Poluição também agrava a crise climática
O relatório da ONU ressalta que a relação entre clima e qualidade do ar funciona nos dois sentidos. As mudanças climáticas favorecem ondas de calor, secas e incêndios, que aumentam a concentração de poluentes na atmosfera. Esses mesmos poluentes, por sua vez, podem contribuir para o agravamento do aquecimento global.
O material particulado também interfere na formação e nas características das nuvens. Já o carbono negro, ou fuligem, pode se depositar sobre neve e gelo, escurecendo essas superfícies e reduzindo sua capacidade de refletir a radiação solar. Isso acelera o derretimento e contribui para o aquecimento.
A OMM descreve esse processo como um ciclo de retroalimentação, no qual o aquecimento favorece incêndios e emissão de partículas, que podem acelerar o derretimento de gelo e reforçar o próprio aquecimento do planeta.
Combater poluição e mudanças climáticas simultaneamente
Para a agência da ONU, políticas de combate à poluição atmosférica e às mudanças climáticas precisam ser integradas. A redução do uso de combustíveis fósseis, apontada como uma das principais medidas, teria efeitos simultâneos sobre as emissões de gases de efeito estufa e sobre diversos poluentes prejudiciais à saúde.
“A melhor solução é uma redução geral das emissões globais de gases de efeito estufa e da queima de combustíveis fósseis”, afirmou Labrador, segundo o The Guardian.
O alerta ocorre no Dia Internacional do Ar Limpo para um Céu Azul, celebrado em 7 de setembro, e reforça que os avanços obtidos em determinadas regiões na redução da poluição podem ser comprometidos caso o aumento das temperaturas e dos eventos extremos não seja enfrentado conjuntamente com a questão da qualidade do ar.
Fonte: The Guardian, com informações da Organização Meteorológica Mundial (OMM).
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