O grande golpe da mídia, por Luís Nassif

Um dos indícios mais graves de possível manipulação do inquérito do Banco Master surgiu com a constatação de que os HDs contendo os arquivos apreendidos ficaram guardados no gabinete do ministro André Mendonça. Delegados da Polícia Federal destacados para auxiliá-lo admitiram a quebra da cadeia de custódia. Segundo a explicação apresentada à UOL, os equipamentos teriam sido levados à sala do ministro por receio de pressões de Alexandre de Moraes.

A justificativa agrava, em vez de atenuar, o problema. Por maiores que fossem as supostas pressões, elas não autorizariam o atropelo dos procedimentos destinados a preservar a integridade das provas. Moraes poderia questionar a legalidade dos atos praticados, mas não alterar o material submetido à perícia. A cadeia de custódia existe justamente para impedir dúvidas sobre o acesso, o manuseio ou a seleção do conteúdo apreendido.

A pergunta inevitável é outra: que irregularidades os responsáveis pela investigação temiam ver expostas? A hipótese mais evidente é a dos vazamentos seletivos para o setor lavajatista da mídia — mecanismo já conhecido, no qual informações escolhidas chegam a redações alinhadas e passam a orientar a agenda política. Se confirmada essa engrenagem, não se trata apenas de desvio funcional, mas de uma operação com potencial para interferir diretamente na eleição presidencial.

Completa-se, assim, o golpe mais escancarado contra a democracia desde as Marchas da Família com Deus pela Liberdade. O primeiro movimento foi a campanha contra Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, alimentada pelos vazamentos. Os malfeitos atribuídos aos dois merecem investigação rigorosa. Mas o objetivo imediato da ofensiva parecia ser outro: retirar de Toffoli o controle do inquérito do Banco Master e preparar o terreno para diluir a presença recorrente de Flávio Bolsonaro no caso.

O passo seguinte foi a exploração do episódio envolvendo Fábio Luís Lula da Silva. No futuro, talvez se erga um Museu do Golpe, à maneira do Museu da Lava Jato, com um painel dedicado a todas as pessoas — delegados, jornalistas e editores — que participaram da patranha. Não cabe tratar os jornalistas como receptores passivos de informações fornecidas pelos delegados ligados a Mendonça. Houve cumplicidade editorial: a fragilidade e a irrelevância do material eram evidentes, mas ainda assim ele foi transformado em manchete durante semanas.

Há dois pontos centrais. O primeiro é o contraste entre o detalhamento do roteiro golpista e a inação do governo e das forças democráticas. Desde o início da campanha contra Toffoli, alertamos que se tratava de mais um passo da Lava Jato 2, destinado a alterar o comando do inquérito.

O primeiro ato de Mendonça foi determinar a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís, extrapolando suas atribuições sem que houvesse indício concreto de participação dele na trama. Em um país com imprensa responsável, a arbitrariedade seria examinada com rigor. Aqui, prevaleceu o jornalismo-sela: quase trinta dias de matérias frágeis, repetitivas e jornalisticamente imprestáveis.

Quando a apuração finalmente se aproximava dos fatos objetivos do caso Master, Mendonça lançou acusações contra Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, numa clara manobra diversionista. Moraes respondeu. Ainda assim, os grandes jornais concentraram seus ataques em Moraes e pouparam Mendonça. O foco nacional deslocou-se novamente para a crise do STF, encobrindo Flávio — a mesma manobra usada no início do caso Master, quando a cobertura privilegiou as relações com integrantes do Supremo e deixou em segundo plano as informações sobre o golpe financeiro e suas conexões políticas.

O segundo ponto é a responsabilidade direta das empresas jornalísticas. Não se trata de exigir silêncio sobre abusos cometidos por ministros do STF, mas de cobrar critérios iguais, apuração independente e respeito à relevância dos fatos. Uma imprensa que seleciona vazamentos, omite contradições e amplifica acusações frágeis deixa de fiscalizar o poder e passa a integrar a disputa pelo poder. Não sei qual será o desfecho dessa mixórdia. Mas, se a eventual eleição de Flávio Bolsonaro resultar de uma campanha sustentada por vazamentos seletivos e por semanas de cobertura manipulada, os grandes jornais terão cometido um dos mais graves atos de irresponsabilidade política de sua história. E não será necessário esperar muito para medir as consequências.

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