O gargalo do submarino nuclear: por que o Brasil patina em projetos estratégicos

A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Centro Industrial Nuclear de Aramar na quarta-feira (19) reabriu o debate sobre os rumos do programa nuclear da Marinha. Prestes a completar 50 anos, o projeto do submarino nuclear Álvaro Alberto carrega o peso de um histórico marcado por descontinuidades orçamentárias e indefinições de gestão. Embora o Brasil domine com sucesso o enriquecimento de urânio, o ritmo de consolidação do reator embarcado reflete travas estruturais que vão muito além da engenharia.

Em entrevista ao programa TVGGN 20 Horas [assista abaixo], o Capitão do Mar-e-Guerra da Reserva, Eduardo Brick, professor titular aposentado da UFF e pesquisador do Núcleo de Estudos de Defesa, Inovação, Capacitação e Competitividade Industrial, avalia que o avanço tecnológico no setor esbarra na ausência de uma política industrial de defesa centralizada e de longo prazo.

Modelos ultrapassados e dispersão de recursos

Para o especialista, a estrutura brasileira de defesa é anacrônica se comparada à de outros países. Enquanto potências globais concentram a gestão de compras, ciência e inovação em agências civis especializadas, no Brasil as atribuições estão pulverizadas entre as próprias Forças Armadas.

“No mundo inteiro, a parte de logística de defesa, de ciência, tecnologia e indústria fica em outro órgão que não são as Forças Armadas. Isso é uma atividade científica e de engenharia, não militar. No Brasil, temos cerca de 15 oficiais-generais administrando a área industrial. É impossível haver cooperação real desse jeito; você precisa ter um responsável com dinheiro na mão e cobrado por resultados”, aponta Eduardo Brick.

A existência de múltiplos comandos administrando fatias orçamentárias, explica o professor, resulta em fragmentação de forças e falta de cooperação real entre institutos de pesquisa das Três Forças e universidades públicas. Sem uma autoridade única que gerencie os recursos com foco em metas e prazos rígidos, iniciativas estratégicas acabam diluídas em prazos que se estendem por décadas.

Importações em detrimento do desenvolvimento nacional

Outro ponto crítico apontado é o viés comprador das Forças Armadas, que frequentemente optam por importar equipamentos e plataformas prontas do exterior em vez de faturar e desenvolver a cadeia produtiva local.

“Toda vez que você compra o produto lá fora, está fortalecendo a indústria de defesa de outro país e enfraquecendo a nossa. Como o Brasil não está em guerra, não existe essa urgência em comprar pronto. O que falta é visão estratégica de quem está no Ministério da Defesa”, alerta o pesquisador.

Iniciativas históricas de planejamento, como o Plano Nacional de Defesa elaborado nos anos 2010, falharam na fase de execução por falta de orçamento garantido e de uma estrutura executiva dedicada. Segundo Brick, superar o patinamento em projetos de alta complexidade exigirá mais do que novos aportes: requer uma reforma organizacional profunda na gestão da Defesa, capaz de subordinar a política industrial a uma visão integrada de desenvolvimento e soberania.

Assista ao vídeo completo abaixo:

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