Da Redação
O Nordeste foi alvo de aproximadamente 27 milhões de manifestações hostis nas redes sociais nas 72 horas seguintes ao primeiro turno das eleições presidenciais de 2026. O número corresponde a 82,2% das 32,8 milhões de menções, compartilhamentos e links relacionados à região e ao seu comportamento eleitoral monitorados no período. Os dados são do estudo “O Nordeste no Banco dos Réus”, produzido pela Ativaweb DataLab e divulgado pelo Diário do Centro do Mundo.
O levantamento analisou conteúdos públicos publicados no Facebook, Instagram, TikTok, X, Kwai e nos comentários do YouTube. Das interações identificadas, 5,8 milhões, equivalentes a 17,8%, foram classificadas como neutras ou favoráveis aos nordestinos. Durante as 72 horas observadas, a média chegou a 456 mil menções por hora, mais de 7.600 por minuto.
A pesquisa não trata todas as manifestações como ataques de natureza idêntica. A análise por amostragem identificou diferentes formas de hostilidade, muitas delas baseadas em estereótipos sobre pobreza, dependência econômica e capacidade intelectual. O estudo também registrou conteúdos que associavam o resultado eleitoral à origem regional dos eleitores, transformando uma escolha política em argumento para depreciar milhões de pessoas.
Vergonha de ser nordestino aparece entre os ataques
A categoria mais frequente identificada pelo levantamento foi a de vergonha e autodepreciação, responsável por 26,9% das ocorrências analisadas. Nessa classificação aparecem mensagens de pessoas que afirmam sentir vergonha da própria origem ou que pedem desculpas pelo comportamento eleitoral atribuído aos nordestinos.
Em seguida aparecem os conteúdos que relacionam o voto da região à pobreza e à dependência econômica, com 22,1%. Outros 18,3% dos registros analisados atacavam a capacidade intelectual dos nordestinos, apresentando os eleitores da região como incapazes de compreender ou decidir de maneira autônoma sobre o processo político.
O estudo identificou ainda duas categorias com 12,5% cada. Uma reunia mensagens de desumanização, que comparavam o Nordeste a elementos considerados indesejáveis. A outra agrupava propostas de segregação territorial, incluindo mensagens defendendo a separação da região do restante do Brasil ou a construção de barreiras entre os territórios.
Ataques não ficam restritos à divergência eleitoral
A discussão sobre o comportamento eleitoral de uma região faz parte do debate político. O levantamento, contudo, mostra que uma parcela expressiva das manifestações monitoradas ultrapassou a crítica ao voto e passou a atacar a própria população nordestina por sua origem.
A diferença é relevante porque o resultado de uma eleição pode ser questionado politicamente sem que isso implique atribuir inferioridade intelectual, pobreza ou falta de autonomia aos eleitores de determinada região. O estudo encontrou justamente a circulação desses estereótipos em grande escala nas plataformas digitais.
O responsável pela pesquisa, Alek Maracajá, CEO da Ativaweb DataLab, afirmou que o volume registrado exige atenção para a possibilidade de disseminação organizada de mensagens hostis. Essa interpretação, contudo, não significa que o levantamento tenha comprovado a existência de uma única organização coordenando os 27 milhões de manifestações. Os dados demonstram o volume e as características das interações monitoradas, mas não estabelecem, por si só, que todos os ataques tenham sido produzidos por uma mesma estrutura.
Preconceito regional também tem dimensão jurídica
A legislação brasileira prevê punições para práticas de discriminação ou preconceito relacionadas à procedência nacional. A Lei nº 14.532/2023 ampliou a proteção penal contra manifestações racistas e estabeleceu tratamento específico para crimes cometidos ou divulgados por meios de comunicação e redes sociais.
Isso não significa que toda crítica feita nas redes sobre o voto de nordestinos constitua crime. A caracterização jurídica depende do conteúdo publicado, da intenção e das circunstâncias de cada caso. A divergência política permanece protegida, enquanto manifestações que incitem discriminação ou preconceito podem ser submetidas à análise das autoridades competentes.
O levantamento da Ativaweb DataLab registra, portanto, um fenômeno que ganhou grande dimensão imediatamente após o primeiro turno: a transformação da origem regional de milhões de eleitores em alvo de hostilidade nas redes. O estudo aponta que, em apenas três dias, o debate sobre o resultado eleitoral produziu dezenas de milhões de interações associadas ao Nordeste, com predominância de conteúdos classificados como hostis.