
Áudios gravados em março e abril de 2025, mas divulgados somente na quinta-feira (3) pelo ICL, revelam o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) pedindo ajuda ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para destravar um ativo relacionado ao setor de mineração que interessava a seu então assessor e advogado Thiago Rodrigues de Faria.
Nikolas atuava em favor de um advogado que, meses depois, seria citado pela Operação Rejeito, da Polícia Federal, que apurou um esquema de corrupção e extração ilegal de minério de ferro na Serra do Curral, em Nova Lima (MG).
A questão central é justamente a intermediação feita pelo deputado em benefício de Faria. Como Vorcaro poderia ajudar a destravar o chamado “ativo minerário”? Quais pessoas ou instituições poderiam ser acionadas para fazer a coisa avançar?
Chama-se lobby. Vorcaro era um resolvedor. Todos lhe deviam favores — e ele dava um jeito. Depois cobrava a fatura, claro.
Naquele período, Vorcaro mantinha relações com diferentes agentes do meio político e empresarial. Posteriormente, as investigações envolvendo o Master expuseram a extensão de sua rede de contatos e influência, com tentáculos em virtualmente todos os poderes da República.
Quem é Thiago Rodrigues de Faria
Thiago Rodrigues de Faria é advogado da área de relações governamentais e trabalhou como assessor no gabinete de Nikolas Ferreira em Brasília.
Além de assessor parlamentar, também defendeu Nikolas em processos judiciais. Entre eles estava o caso em que o deputado se recusou a fazer um acordo com a Procuradoria-Geral da República após chamar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “ladrão”.
Em setembro de 2025, meses depois das conversas com Vorcaro, o nome de Faria apareceu nas investigações da Operação Rejeito, deflagrada pela Polícia Federal.
A primeira fase da operação resultou na prisão preventiva de 22 pessoas e investigou um esquema envolvendo extração ilegal de minério de ferro na Serra do Curral, em Nova Lima.
Documentos apontaram que a sociedade de advocacia de Faria mantinha, desde janeiro de 2025, um contrato com a empresa Gmais Ambiental, uma das empresas enroladas na Operação Rejeito.
Pelo acordo, o escritório poderia receber 25% do lucro total caso fossem concretizadas a autorização para a mineração e a venda da lavra.
A negociação era estimada entre US$ 30 milhões e US$ 45 milhões, o que colocava o negócio em uma dimensão financeira elevada. O contrato também envolvia a Topázio Imperial, empresa detentora dos direitos minerários de uma área onde está localizada a barragem Água Fria.
Tratava-se, à época, de uma das barragens de maior risco de rompimento do país e estava sem operação por determinação do Ministério Público Federal. Uma espécie de Brumadinho.
Segundo a PF, a companhia era de fachada e controlada de forma oculta pelo delegado Rodrigo Teixeira e pelo lobista Gilberto Carvalho, ambos ligados ao PL mineiro e presos na operação. A transação foi feita por meio de um contrato de confiabilidade, que ocultava os nomes dos beneficiários.
As investigações revelam ainda que a Gmais Ambiental funcionava em endereço de uma clínica de estética em Belo Horizonte. A empresa chegou a ter Gilberto Carvalho como sócio, mas oficialmente o posto foi assumido por seu marido, Luiz Fernando Vilela Leite.

Como um ativo minerário pode ser destravado
A liberação de um empreendimento minerário no Brasil envolve uma sequência de procedimentos regulatórios. O processo começa com o requerimento de pesquisa apresentado à Agência Nacional de Mineração (ANM). Caso o pedido seja aprovado, é emitido um alvará de pesquisa, permitindo a realização dos estudos geológicos.
Depois, a empresa precisa apresentar o relatório final de pesquisa. Com a aprovação, pode avançar para o pedido de concessão de lavra.
Paralelamente, há a necessidade de obter as licenças ambientais cabíveis, que podem envolver órgãos municipais, estaduais e, dependendo do caso, federais. Somente depois do cumprimento dessas etapas é possível chegar à portaria de lavra, que autoriza a extração do minério.
É nesse contexto que a atuação política mencionada nos áudios ganha relevância. Embora deputados não tenham competência formal para conceder autorizações minerárias, podem tentar interceder junto a agentes públicos ou privados para acompanhar ou acelerar determinados procedimentos.
Advocacia administrativa
A conversa pode caracterizar uma tentativa de usar o cargo público para defender interesse privado. Ou seja, advocacia administrativa, crime previsto no artigo 321 do Código Penal, que trata do patrocínio, por funcionário público, de interesse privado perante a administração pública.
Em desespero, Nikolas ainda postou um laudo falso da Polícia Federal que o inocentaria. Pilhado, apagou das redes. A falsificação de documento público, prevista no artigo 297 do Código Penal, também exigiria comprovação de que o documento foi efetivamente falsificado e de que houve participação e dolo dos envolvidos.
Durante a conversa, Nikolas também aproveitou para se desculpar com Daniel Vorcaro por críticas feitas anteriormente a um evento financiado pelo Banco Master em Londres.
O evento havia ocorrido em abril de 2024 e contou com a presença de ministros do STJ, STF e TSE. Na ocasião, Nikolas havia feito críticas à iniciativa. O pastor André Valadão, comparsa de Vorcaro na Igreja da Lagoinha, intercedeu a favor dos “irmãos”.
Nikolas Ferreira confirmou a autenticidade do áudio, mas negou ter intimidade com Daniel Vorcaro. Segundo sua versão, ele apenas intermediou o contato a pedido de um amigo e não conhecia os detalhes do negócio — o que torna tudo ainda mais assombroso e suspeito.
Qual a natureza da relação entre o parlamentar, Vorcaro e Thiago Rodrigues de Faria, especialmente diante do fato de que Faria posteriormente apareceu como investigado na Operação Rejeito.
Urge investigar esse imbroglio, como alguns parlamentares estão pedindo. Lindão, Nikolas tem um armário cheio de esqueletos.
🚨 AGORA: Escute o áudio de Nikolas Ferreira, que mentiu dizendo que não conhecia Daniel Vorcaro. Ele chama o banqueiro de “Dani”, pede desculpas por ter feito críticas ao escândalo Bolsomaster e solicita ajuda para um negócio de R$ 200 milhões de seu advogado. A CASA CAIU! pic.twitter.com/7vKVTOhQsq
— Lázaro Rosa 🇧🇷 (@lazarorosa25) September 3, 2026