Reportagem assinada pelo jornalista Ana Clara Costa, na revista Piauí, mostra indícios de que o ministro André Mendonça agiu em concluio com delegados da Polícia Federal para jogar o ministro Alexandre de Moraes aos leões. Somente após expor as conversas de Moraes com Daniel Vorcaro em praça pública e provocar uma crise sem precedentes no Supremo Tribunal Federal, é que Mendonça seguiu o regimento interno e acionou a presidência da Casa para tomar providências sobre as apurações.
A reportagem narra a produção de dois relatórios pela Polícia Federal, por quatro delegados: Daniel Mostardeiro Cola, Guilherme Alves de Siqueira, Wedson Cajé Lopes e Victor Arruda de Oliveira. Em fevereiro, contrariados com a condução do caso Master sob a relatoria de Dias Toffoli, eles elaboraram, por conta própria, um documento relatando os negócios da família de Toffoli com empresas ligadas ao Banco Master. Na época, o relatório foi levado a Andrei Rodrigues, que seguiu o rito e entregou a Edson Fachin.
O presidente do STF, por sua vez, administrou a crise internamente junto aos demais magistrados. Toffoli foi mantido na relatoria pela maioria da Corte, mas preferiu sair do caso para evitar maiores danos. Meses depois, os mesmos delegados foram acionados por André Mendonça, que deu 72 horas para que eles identificassem mensagens trocadas entre Vorcaro e um novo alvo: Alexandre de Moraes. O relatório foi vazado à imprensa antes de ser enviado a Fachin com pedido de apreciação pelo plenário, faltando cerca de um mês para o primeiro turno das eleições de 2026.
“O resultado foi uma assimetria: as informações reunidas pela PF sobre Moraes vieram a público e provocaram uma crise no Supremo; aquelas que diziam respeito a Toffoli permaneceram desconhecidas até agora. A decisão de Mendonça determinou, na prática, qual dos dois ministros seria submetido ao escrutínio público, e quando”, publicou a Piauí na reportagem sobre os relatórios.
O relatório contra Toffoli, de fevereiro, já citava Alexandre de Moraes, conforme destaca a reportagem. Moraes apareceu em conversas trocadas em 2024 entre o banqueiro Daniel Vorcaro e outros interlocutores. A PF apontou que o ministro teria ajudado a equipe de Vorcaro a organizar um evento jurídico em Londres, que reuniões autoridades do alto escalão do Judiciário. De Paulo Gonet (PGR), a Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e outros do STF. De Luís Felipe Salomão, do STJ, a Andrei Rodrigues, do comando da PF. Moraes teria indicado nomes para participar do evento, disparado convites e aprovado o cronograma de viagens. O Master teria bancado a conta do evento, de mais de 6 milhões de reais. Os veículos Conjur e Correio Braziliense teriam participado da organização dos paines.
Essa revelação inicial de Moraes com Vorcaro, segundo a Piauí, aconteceu por meio de intermediários e limitou-se ao evento em Londres. Os ministros do STF, provavelmente, tiveram acesso ao relatório da PF que apontava para a ligação, que foi ignorada. Na época, o Poder 360 publicou diálogos de ministros do STF desqualificando o trabalho da PF. Nunes Marques, por exemplo, chamou de “um nada jurídico”. Cristiano Zanin viu nulidades. Flávio Dino chamou de “lixo jurídico”. Gilmar Mendes atribuiu a produção espontânea do relatório pela PF às decisões que Toffoli vinha tomando no caso Master, em oposição aos interesses dos delegados. Foi retaliação, disse Gilmar.
“Foi sobre esses dois documentos de natureza semelhante que recaíram tratamentos radicalmente diferentes. Quando decidiu levantar o sigilo do relatório sobre Moraes, Mendonça tinha conhecimento da existência do levantamento anterior, centrado em Toffoli. O primeiro permaneceu sob sigilo e sem consequência processual. Sobre o segundo, Mendonça determinou à PF que aprofundasse a análise das mensagens, encaminhou o resultado à Procuradoria-Geral da República, levantou seu sigilo e levou o caso para apreciação do plenário do Supremo”, anotou a Piauí, mostrando que no caso de Moraes, Mendonça decidiu adotar um procedimento distinto daquele que preservou Toffoli.
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