Exclusivo: Van Hattem recebe doação de empresário ligado a banco alvo de operação contra PCC

Marcel Van Hattem

O candidato ao Senado pelo NOVO no Rio Grande do Sul, Marcel Van Hattem, recebeu uma doação de R$ 100 mil de Rui Denardin, empresário e controlador do Grupo Mônaco, que possui participação no Banco Luso Brasileiro, instituição financeira que foi alvo de apuração do Banco Central no contexto da Operação Fim da Linha, investigação do Ministério Público de São Paulo sobre a infiltração do PCC no sistema de transporte público da capital paulista.

O registro da Justiça Eleitoral mostra que Denardin realizou a doação em 31 de agosto de 2026, como pessoa física. O valor aparece entre as maiores contribuições individuais recebidas pela campanha de Van Hattem.

A situação chama atenção porque o próprio Van Hattem anunciou, ao lançar sua campanha de financiamento coletivo, que sua candidatura ao Senado seria feita “sem o uso de recursos públicos”.

Banco Luso entrou no radar do Banco Central

O Grupo Mônaco, controlado por Rui Denardin, entrou na composição acionária do Banco Luso Brasileiro em 2022. Segundo informações divulgadas na época, o grupo havia adquirido 50% das ações. Posteriormente, o próprio banco informou que sua participação havia sido reduzida para 24%.

A instituição financeira foi colocada sob escrutínio no contexto da Operação Fim da Linha, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo em abril de 2024 para investigar um esquema envolvendo empresas de ônibus e a atuação do PCC.

Em setembro daquele ano, o UOL revelou que o Banco Central havia instaurado processo para apurar a conduta do Banco Luso Brasileiro. A investigação tem como ponto central operações realizadas em 2015 envolvendo a empresa MJS.

Segundo o Ministério Público paulista, mais de R$ 20 milhões foram depositados pelo Banco Luso na conta da MJS.

A holding tinha entre seus sócios Luiz Carlos Efigênio Pacheco, conhecido como Pandora, além de outros dirigentes ligados à Transwolff, empresa de ônibus que se tornou um dos principais alvos da Operação Fim da Linha.

O Ministério Público sustentou que a Transwolff teria sido utilizada para lavagem de dinheiro do PCC e que as operações financeiras investigadas teriam contribuído para ocultar a origem dos recursos. Os números encontrados pelos investigadores ajudam a dimensionar a operação.

A doação de Denardin para o bolsonarista Van Hattem

Investigação apontou R$ 22,9 milhões em cheques do Banco Luso

Segundo o UOL, extratos da MJS analisados pelo Gaeco apontaram que a Transwolff teria elevado seu capital de aproximadamente R$ 1 milhão para R$ 55 milhões por meio de operações que incluíram R$ 22,9 milhões em cheques do Banco Luso Brasileiro e outros R$ 3,9 milhões em depósitos fragmentados.

O Ministério Público classificou a forma de movimentação dos valores como “smurfing”, mecanismo pelo qual quantias maiores são fracionadas em diversas operações para dificultar sua identificação.

De acordo com a investigação, os mais de R$ 20 milhões chegaram à MJS por meio de cheques nominais de 88 microempresas de transporte, que haviam contratado financiamentos junto ao Banco Luso para a aquisição de ônibus.

O MP questionou por que uma operação envolvendo a MJS teria sido estruturada dessa maneira, em vez de ser realizada diretamente em uma única operação financeira.

Em entrevista à Folha, o presidente do banco afirmou que a instituição não tinha relação com lavagem de dinheiro e classificou as operações como financiamentos regulares para aquisição de ônibus. Segundo ele, os contratos teriam sido aprovados individualmente e contavam com participação de órgãos públicos do setor de transportes.

O banco também declarou que desconhecia a existência de investigação específica sobre sua atuação por parte das autoridades regulatórias e afirmou manter cooperação com os órgãos de fiscalização.

Em outra manifestação divulgada após as reportagens, a instituição afirmou que os recursos foram concedidos como operações de capital de giro e negou ter realizado depósitos diretamente na conta da MJS.

A participação societária do Grupo Mônaco também foi posteriormente corrigida: embora a própria holding tivesse informado inicialmente uma participação de 50%, o banco afirmou que o grupo detinha 24%.

Além da questão envolvendo o Banco Luso, existe outro episódio que diz respeito diretamente a Rui Denardin.

Em junho de 2024, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) publicou decisão em processo administrativo envolvendo a Mônaco Diesel e seus administradores, entre eles Denardin.

O órgão reconheceu responsabilidade administrativa de Denardin e aplicou diferentes penalidades relacionadas ao cumprimento de obrigações previstas na legislação de prevenção à lavagem de dinheiro. A decisão do Coaf fundamentou as penalidades na Lei nº 9.613/1998, conhecida como Lei de Lavagem de Dinheiro.

O próprio documento do Coaf, entretanto, deixa claro que se trata de processo administrativo distinto da investigação envolvendo o Banco Luso e a Operação Fim da Linha.

Denardin também financiou campanha de Ricardo Nunes

A doação para Van Hattem não é o primeiro aporte eleitoral de R$ 100 mil feito por Rui Denardin que ganhou atenção pública.

Em 14 de outubro de 2024, durante a campanha para a Prefeitura de São Paulo, Denardin doou R$ 100 mil à campanha de Ricardo Nunes (MDB).

Denardin era apresentado como proprietário do Grupo Mônaco, holding com atuação principalmente no setor automotivo e que havia ingressado na composição acionária do Banco Luso Brasileiro em 2022.

A doação ocorreu justamente durante o segundo turno da eleição municipal de 2024, quando Nunes disputava a Prefeitura de São Paulo.

 

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