Google Maps, o filho rebelde de Mercator, por Felipe Bueno

Google Maps, o filho rebelde de Mercator, por Felipe Bueno

Não poucas pessoas viram a notícia na semana passada e acharam que era algum tipo de fake news: a ONU anunciava uma recomendação de revisão do mapa mundi, algo que talvez só pudesse ocorrer na mente dos terraplanistas.

Era verdade. Mas por uma boa causa.

Ainda hoje temos uma ideia do planeta Terra estabelecida no século XVI com a Projeção de Mercator , de 1569, criada para facilitar as navegações da época. Se a solução do flamengo Gerardus Mercator ajudou a traçar rotas e unir o vasto globo de quinhentos anos atrás, por outro lado nos acostumou a achar que as terras dos extremos eram muito maiores do que realmente são, dando uma impressão equivocada do mundo real.

As correções de 2026 são resultado de duas frentes de trabalho: uma política, com décadas de negociações e doses tanto de hard como de soft power; a outra, técnica, levou cerca de dez anos para chegar ao resultado mais preciso possível dentro dos propósitos estabelecidos.

Mas nada disso vale se no mesmo planeta Terra vive um indivíduo como Donald Trump, para quem estudos e negociações são etapas desnecessárias. O anúncio da ONU divide o noticiário atual com as ideias recentes de Trump de mudar os nomes de alguns pedaços da Terra. Na geografia por decreto do presidente dos Estados Unidos, a melhor maneira de intervir no mapa mundi não é ajustando proporções científicas, mas renomeando lugares estratégicos por meio de simples canetadas e retórica nacionalista.

Em uma sequência de anúncios e decretos, a Casa Branca tentou rebatizar a geografia das Américas e do Oriente Médio. O tradicional Golfo do México passou a ser o “Golfo da América”. As tensões comerciais com o Canadá levaram a renomear o Lago Ontário como “Lago América”. E até o famoso Estreito de Ormuz corre o risco de passar a ser chamado de “Estreito de Trump”.

Constrangido ou não, o ecossistema burocrático dos Estados Unidos está sendo obrigado a entrar na onda: órgãos como o U.S. Geological Survey, os departamentos de Defesa e do Interior e a guarda costeira já trazem a expressão “Golfo da América” em seus mapas e documentos internos.

Há quem acate as alterações por interesse ou afinidade: administrações locais do sul dos Estados Unidos já usam o mesmo termo oficialmente. Empreendimentos e canais de mídia ligados à Trump Organization e às suas iniciativas privadas passaram a aplicar os novos nomes.

O onipresente Google Maps oferece uma solução on demand. Para usuários dos Estados Unidos, os mapas mudaram. Para quem está no México e no Canadá, continuam exibindo os nomes reconhecidos internacionalmente e protegidos pelo direito local. Quanto ao resto do planeta, o Google Maps exibe a nomenclatura internacional apresentando o nome “alternativo” entre parênteses, justificando que suas diretrizes obrigam a plataforma a refletir o nome oficial usado na região em questão, evitando conflitos jurídicos nos Estados Unidos sem impor essas alterações unilaterais ao público global.

Os contrastes geopolíticos dos tempos modernos são literalmente traçados no mapa mundi: enquanto a diplomacia multilateral da ONU se esforça para alinhar o documento com a realidade física e proporcional da Terra, o populismo unilateral de Donald Trump tenta dobrar o globo aos seus caprichos, numa cartografia da autopromoção.

Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.

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