Em entrevista concedida ao jornalista Luís Nassif, Renato Meirelles, comunicólogo, escritor, fundador do Instituto Locomotiva e especialista em classes C e D, analisou o cenário político e econômico brasileiro atual, destacando as pautas que devem polarizar nas eleições 2026. Segundo Meirelles, o debate eleitoral será fortemente influenciado por duas agendas opostas: de um lado, a redução da maioridade penal, que atrai uma parcela significativa da população para o campo bolsonarista; de outro, o fim da jornada de trabalho 6×1, que surge como a principal bandeira do campo progressista para dialogar com os eleitores indecisos.
Ao avaliar a proposta de redução da maioridade penal, defendida por dois terços da população, Meirelles ponderou que a medida, da forma como é proposta, não contribui para a pacificação social dentro ou fora das prisões. Ele apontou que o sistema penitenciário brasileiro já se encontra sobrecarregado por indivíduos condenados por pequenos delitos, o que acaba transformando os presídios em verdadeiras universidades do crime financiadas pelo dinheiro público. Para o pesquisador, essa pauta reflete a estratégia da direita de aglutinar o eleitorado pelo descontentamento e pelo ódio, diante da dificuldade de apresentar propostas efetivas para o desenvolvimento do país.
Por outro lado, a discussão sobre o fim da jornada 6×1 toca diretamente na dignidade e na rotina dos trabalhadores de baixa renda. Meirelles explicou que houve uma mudança estrutural na percepção de valor dessa parcela da população, cujo principal ativo econômico passou a ser o tempo. Se no passado o foco estava no tamanho da família para o trabalho no campo ou na busca por um diploma universitário — que muitas vezes resultava em subemprego —, hoje o trabalhador prioriza ser dono do próprio tempo. O pesquisador ressaltou que a falta de tempo retira a dignidade do indivíduo e que o modelo tradicional de bater cartão impede as pessoas de viverem plenamente.
Meirelles também questionou a visão tradicional das relações trabalhistas, afirmando que, após as reformas recentes, a verdadeira ilusão passou a ser a própria CLT, uma vez que o conceito de trabalho se descolou do conceito de emprego. Ele citou que profissionais de categorias majoritárias, como caixas de supermercado e faxineiros, carecem de planos de carreira e perspectivas de futuro, o que intensifica a busca por autonomia.
Diante desse cenário, o pesquisador compartilhou os resultados de um estudo encomendado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) sobre a retenção de funcionários. A conclusão apresentada aos industriais foi direta: sob as regras do capitalismo, se há escassez de mão de obra para vagas indesejadas, a solução é pagar salários melhores. Como reflexo dessa nova realidade, algumas empresas já começam a testar modelos alternativos, como a jornada de quatro dias de descanso por três de trabalho, visando reter colaboradores e garantir o funcionamento nos dias de maior movimento.
A entrevista completa, que detalha essas transformações sociais e o impacto do tempo na vida dos trabalhadores brasileiros, foi transmitida no canal do GGN no YouTube, durante o programa TV GGN 20 Horas, apresentado por Luís Nassif de segunda a sexta-feira. Assista abaixo: