Reformas de Milei deixam 5,8 milhões de endividados na Argentina

Javier Milei
Javier Milei. Foto: Angela Ponce/Reuters

A inadimplência alcançou 5,8 milhões de tomadores de crédito na Argentina e passou a pressionar o governo do presidente Javier Milei, enquanto famílias enfrentam juros altos, renda estagnada e redução de subsídios, segundo a Folha de S.Paulo. 16,3% do crédito a pessoas físicas está atrasado há pelo menos três meses.

O motorista de Uber Jonatan Verón, de 41 anos, contraiu um empréstimo bancário de cerca de US$ 1.300 (R$ 6,7 mil) para consertar o carro no início de 2025. Depois de atrasar parcelas e recorrer a um agiota para reparar um pneu, ele acumulou dívidas superiores a US$ 11 mil. “É muita coisa”, disse o morador de La Plata.

As reformas de Milei reduziram a inflação anual de um pico de 289% no início de 2024 para 34%, mas também alteraram as condições de endividamento. Com taxas reais frequentemente acima de 100% ao ano, os argentinos deixaram de contar com a corrosão das dívidas pela alta acelerada dos preços.

A austeridade reduziu gastos públicos e eliminou subsídios de gás, eletricidade e transporte, ao mesmo tempo em que bancos ampliaram a oferta de empréstimos. Construção, indústria e varejo desaceleraram, e os salários perderam poder de compra ou ficaram estagnados para parte dos trabalhadores.

Protesto contra Milei na Argentina. Foto: Luis Robayo/AFP

Governo Milei rejeita cenário de crise entre devedores

O gabinete de Milei afirmou na segunda-feira (24) que os atrasos “não mostram uma situação de crise” e tendem a diminuir, após dados de junho apontarem estabilidade desde maio. O presidente também descartou medidas públicas de alívio e classificou a inadimplência como “um problema entre agentes privados”.

Economistas veem risco mais amplo diante da quantidade de pessoas afetadas. Amílcar Collante, fundador da consultoria Profit, afirmou que o problema pode deixar de ser microeconômico. “Com tantas pessoas envolvidas, isso deixa de ser uma questão microeconômica e ameaça se tornar uma questão macroeconômica”, disse.

As plataformas financeiras concentram uma parcela relevante dos atrasos: mais de 32% do crédito concedido por fintechs e outros credores não bancários está inadimplente, segundo o Equilíbria. Luci Cavallero, do grupo Movida Ciudad, criticou juros de até 200% cobrados por essas empresas.

O ministro da Economia, Luis Caputo, disse que credores estudam refinanciar débitos com prazos maiores e juros menores. Dados do Banco Central argentino mostram que a oferta de crédito a pessoas físicas praticamente não cresceu desde o fim de 2025, enquanto pesquisa da Casa Tres apontou aprovação de 38% ao governo Milei.

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