Presidente comunicou a decisão à coordenação da campanha, apesar da resistência de dirigentes; estratégia privilegia mobilização nas ruas e comunicação digital na reta final antes do primeiro turno
Da Redação
Luiz Inácio Lula da Silva decidiu não participar do último debate presidencial da TV Globo antes do primeiro turno. O presidente comunicou sua decisão à coordenação da campanha na manhã desta segunda-feira, 28, e a equipe de comunicação passou a preparar uma entrevista ao vivo a um podcast de grande audiência exatamente no horário reservado para o encontro entre os candidatos, às 21h de quinta-feira, 1º de outubro. A informação foi publicada pelo jornalista Ricardo Amaral, do Brasil 247. Brasil 247
A decisão fecha uma discussão que vinha dividindo o comando da campanha. Horas antes, integrantes do entorno presidencial ainda avaliavam publicamente vantagens e riscos da participação. Segundo a apuração do 247, praticamente todos os coordenadores defendiam que Lula comparecesse, mas o presidente optou pelo caminho contrário. Até a publicação da informação, a campanha ainda não havia comunicado formalmente a ausência à Globo. Brasil 247
O cálculo é essencialmente político e comunicacional. Em vez de entrar no último grande confronto televisivo entre vários candidatos, Lula pretende dedicar os últimos dias antes da votação a caminhadas, atos públicos, entrevistas e comunicação digital. A troca do debate por um podcast no mesmo horário reforça essa opção: o presidente não simplesmente deixará de aparecer, mas tentará disputar a audiência da noite por outro formato, no qual poderá desenvolver sua mensagem sem a dinâmica de confronto entre candidatos.
A decisão também envolve riscos. A Globo programou o debate presidencial para quinta-feira, logo após o Jornal Nacional, numa faixa de enorme exposição nacional e, excepcionalmente neste ano, ocupando inclusive o horário tradicionalmente destinado à novela das 21h. A emissora anunciou que o programa será transmitido simultaneamente pela televisão aberta, GloboNews e g1. Rede Globo
A campanha sabe ainda que a ausência poderá ser visualmente explorada. Segundo Ricardo Amaral, Lula foi informado de que uma cadeira vazia poderá representar sua ausência durante o programa. Brasil 247
Campanha prefere controlar a reta final
A opção pelo podcast não aparece isoladamente. Ela faz parte de uma estratégia concentrada na exposição direta do presidente nos últimos dias de campanha.
Lula esteve em Belém nesta segunda-feira. A programação relatada pelo 247 prevê caminhadas em Fortaleza e Salvador na terça, entrevistas a podcasts na quarta e passagem por Juiz de Fora. Depois da quinta-feira reservada à entrevista que coincidirá com o debate, estão previstas caminhadas no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte na sexta-feira e o encerramento da campanha no sábado, com uma caminhada na Avenida Paulista, em São Paulo. Brasil 247
A campanha aposta também na repercussão de medidas recentes do governo. Entre elas estão o reajuste do Bolsa Família, medidas relacionadas às plataformas de apostas, o anúncio de distribuição de medicamentos pelo SUS e uma nova etapa do Desenrola. Segundo a apuração de Ricardo Amaral, integrantes da coordenação reconhecem que nenhuma iniciativa isolada provocou uma mudança decisiva nas pesquisas eleitorais e trabalham com a expectativa de um efeito combinado das medidas. Brasil 247
Esse dado ajuda a explicar a escolha estratégica. Na reta final, a campanha parece preferir uma sequência de agendas nas quais Lula possa controlar o tema, o tempo e o formato de sua comunicação, em vez de submetê-lo a um debate em que adversários com diferentes posições eleitorais poderão concentrar ataques sobre o presidente.
O presidente do PT, Edinho Silva, já havia explicitado parte desse raciocínio. Segundo reportagem publicada pelo próprio 247 horas antes da confirmação da decisão, Edinho argumentou que Lula estaria disposto a confrontar Flávio Bolsonaro, mas preferiria fazê-lo diretamente em um eventual segundo turno, caso ambos avancem, e não num debate pulverizado entre vários candidatos. Brasil 247
Há divergências inclusive dentro da própria campanha sobre a conveniência da ausência. Se parte dos aliados considera que Lula teria mais a perder tornando-se o alvo principal dos adversários, outros dirigentes enxergavam justamente no último debate uma oportunidade de chegar a eleitores ainda indecisos e enfrentar diretamente Flávio Bolsonaro.
Essa divergência torna a decisão politicamente relevante. Não se trata apenas de incompatibilidade de agenda. Lula escolheu deliberadamente não participar de um dos principais eventos televisivos da reta final, contrariando a avaliação de parcela importante de seus próprios coordenadores. Brasil 247
Flávio Bolsonaro confirmou presença
Flávio Bolsonaro havia confirmado no domingo que pretendia participar do debate mesmo que Lula não comparecesse. O candidato do PL afirmou que desejava confrontar diretamente o presidente e vinha tentando transformar o encontro da Globo no principal embate entre os dois nomes que concentram a maior parcela das intenções de voto. SBT News
Há, contudo, informações divergentes dentro do próprio campo de Flávio. Reportagem publicada nesta segunda-feira pelo Brasil 247 afirma que, apesar da confirmação pública, aliados do candidato avaliam que ele poderia reconsiderar sua presença caso Lula efetivamente não compareça. Até o momento, porém, a declaração pública de Flávio continua sendo de participação. Brasil 247
A ausência de Lula alteraria a própria dinâmica do programa. Sem o presidente, Flávio poderia deixar de ter o confronto que buscava e passaria, dependendo da composição definitiva do debate, a ocupar posição mais central diante dos demais adversários.
A decisão de Lula ocorre a poucos dias da votação e num momento em que diferentes pesquisas registram uma disputa concentrada entre os dois principais candidatos, mas com variações conforme instituto, metodologia e período de campo. Esses levantamentos são fotografias da intenção de voto no momento em que foram realizados e não permitem concluir antecipadamente o resultado do primeiro turno.
O próprio Lula demonstrou confiança maior no domingo, durante entrevista ao Canal Livre, da Band. Segundo Ricardo Amaral, o presidente afirmou estar com a sensação de que não haverá segundo turno. A reportagem do 247 observa, entretanto, que pesquisas públicas e levantamentos internos mencionados por integrantes da campanha não sustentavam naquele momento uma conclusão de vitória no primeiro turno. Brasil 247
A escolha de quinta-feira mostra, portanto, uma campanha disposta a fazer uma aposta diferente na última curva da eleição. Em vez de aceitar o terreno tradicional do grande debate televisivo, Lula pretende construir seu próprio espaço de comunicação, enquanto mantém uma agenda intensa nas ruas.
A vantagem dessa estratégia, segundo seus defensores, é preservar o controle da mensagem e evitar que o presidente passe horas respondendo a ataques cruzados. O custo é abrir mão de uma das maiores audiências da campanha e deixar adversários livres para explorar sua ausência.
Qual dessas dimensões terá maior peso entre os eleitores não pode ser determinado antecipadamente. Mas a escolha já modifica o desenho dos últimos dias da campanha presidencial.
Na quinta-feira à noite, pela primeira vez nesta reta final, duas estratégias de comunicação estarão colocadas lado a lado: de um lado, o tradicional debate da maior emissora de televisão do país; de outro, Lula tentando transferir parte da disputa presidencial para o ambiente digital.