
Três ex-secretários do Ministério da Educação no início do governo Jair Bolsonaro (PL) divulgaram um manifesto de apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e criticaram propostas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para a área. Alexandro Ferreira de Souza, Marco Antônio Barroso Faria e Bernardo Goytacazes de Araújo comandaram secretarias do MEC durante a gestão de Ricardo Vélez Rodríguez, em 2019.
O documento contrapõe os dois projetos e afirma que a escolha dos signatários é “inequívoca”. “Entre um projeto que reafirma a educação pública como direito, política de Estado e instrumento de justiça social, e outro que subordina a escola à suspeição ideológica, à disciplina autoritária e à lógica estreita do mercado, nossa escolha é inequívoca”, escrevem os ex-integrantes do ministério.
Souza dirigiu a Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica; Faria, a Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior; e Araújo, a Secretaria de Modalidades Especializadas. Os três chegaram ao MEC por indicação pessoal de Vélez, de quem foram alunos na Universidade Federal de Juiz de Fora.
O manifesto critica a militarização de escolas, métodos de ensino considerados restritivos e a orientação da educação para demandas imediatas do mercado de trabalho. Os autores também apontam que a proposta de Flávio Bolsonaro não apresenta compromissos com valorização salarial, carreira docente, financiamento equitativo e infraestrutura escolar.

Manifesto aponta críticas a escolas militarizadas e à política de pesquisa
Na avaliação dos ex-secretários, o plano atribuído a Flávio Bolsonaro retoma práticas do governo de Jair Bolsonaro, como decisões centralizadas, fragilidade na coordenação entre União, estados e municípios e suspeição sobre professores. O texto também associa a militarização à resposta para problemas de convivência escolar.
Os signatários criticaram ainda a ausência de compromissos com a Rede Federal de Institutos na educação profissional e tecnológica. O manifesto contesta a proposta de direcionar recursos de agências como Capes e CNPq prioritariamente para impacto produtivo.
Bernardo Goytacazes de Araújo, hoje secretário municipal de Educação em Três Rios (RJ), afirmou que o grupo coloca o compromisso ético acima de divergências políticas. “Todos nós somos sociais-democratas, mas o compromisso ético com aquilo que se propõe é maior do que qualquer bandeira. É inegável que a educação vem melhorando e isso não pode retroceder, em hipótese alguma”, disse.
Marco Antônio Barroso Faria declarou que o país ainda enfrenta problemas no ensino, mas sustentou que houve avanços desde 1994. Alexandro Ferreira de Souza, professor da rede estadual do Espírito Santo, disse que os três aceitaram ir ao MEC pela relação com Vélez e já previam dificuldades diante da presença de olavistas na pasta.
Vélez foi o primeiro de quatro ministros da Educação no governo Bolsonaro e deixou o cargo em abril de 2019, após pouco mais de três meses de gestão marcada por disputas internas. Abraham Weintraub assumiu em seguida, ficou até 2020 e deu lugar ao pastor Milton Ribeiro, demitido em março de 2022 após denúncia sobre pedidos de favorecimento a pastores ligados a Jair Bolsonaro.
A campanha de Flávio Bolsonaro recebeu pedidos de posicionamento na segunda-feira (28), mas não havia respondido até a publicação das informações. Vélez também não se manifestou sobre a carta assinada pelos ex-secretários.