O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta terça-feira (1º) que o governo poderá adotar novas medidas contra as plataformas de apostas on-line, inclusive ações mais drásticas. Antes de tomar uma decisão definitiva, porém, ele pretende ouvir representantes de diferentes segmentos da sociedade sobre os efeitos das chamadas bets.
Durante reunião no Palácio do Planalto com entidades religiosas, especialistas, representantes empresariais, sindicalistas e integrantes de organizações de saúde e defesa do consumidor, Lula afirmou que o governo precisa avaliar o impacto concreto das apostas sobre a população.
“Antes de tomar qualquer decisão definitiva, eu queria ouvir a sociedade brasileira o que pensa sobre as bets”, disse o presidente. Segundo ele, a intenção é que a decisão seja baseada naquilo que a sociedade está sofrendo, e não apenas na avaliação do próprio governo.
Lula afirmou que uma nova reunião com integrantes do governo poderá ocorrer ainda nesta semana para definir quais medidas serão adotadas.
O presidente também deixou explícita a possibilidade de endurecimento da política para o setor. Segundo Lula, o Estado precisa decidir se adotará uma “atitude” mais drástica diante dos efeitos provocados pelas apostas.
“Pelo que eu tô vendo, não tem muita coisa pra gente fazer e tentar fazer, arrumar aqui, arrumar ali. A desgraça anda mais rápido do que o benefício. E é mais destrutiva”, afirmou.
Saúde, endividamento e famílias no centro do debate
A avaliação apresentada durante o encontro foi de que os efeitos das bets ultrapassam a dimensão econômica e atingem áreas como saúde pública, relações familiares e endividamento.
Lula afirmou que a arrecadação tributária não pode ser o principal critério para avaliar a atividade. Na avaliação do presidente, o dinheiro obtido pelo Estado com a tributação das apostas pode ser inferior aos custos provocados pelos problemas sociais e de saúde associados ao setor.
“A maioria da sociedade tá perdendo com isso”, declarou.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, reforçou essa interpretação ao afirmar que as apostas passaram a ser tratadas pelo governo como um problema de saúde pública. Para ele, as medidas de regulamentação e fiscalização adotadas até agora não foram suficientes para enfrentar os efeitos da expansão das plataformas.
O governo já havia adotado medidas de restrição ao setor, entre elas regras para publicidade e bloqueios de acesso às plataformas para beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC).
A discussão desta terça-feira, portanto, aponta para uma possível ampliação da intervenção estatal, com medidas que podem ir além da fiscalização econômica das empresas.
Igrejas defendem restrições à publicidade e proteção das famílias
A presença de representantes religiosos deu peso adicional à discussão sobre os impactos sociais das apostas.
A pastora Patrícia Bauer, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, representou o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil. Segundo ela, as igrejas têm recebido relatos de famílias afetadas pelas apostas virtuais e defendem uma atuação mais rigorosa do poder público.
Entre as propostas apresentadas estão restrições à publicidade das bets, proteção de renda e benefícios, ampliação do atendimento de saúde e assistência social, limites para apostas e perdas e mecanismos de verificação de identidade.
A posição converge com a da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que também participou do encontro e há tempos manifesta preocupação com os efeitos sociais e familiares associados à expansão dos jogos de azar e das apostas.
A pauta também tem uma dimensão política. O governo Lula busca ampliar o diálogo com segmentos do eleitorado evangélico, enquanto a preocupação com o endividamento das famílias ganhou espaço no debate eleitoral de 2026.
Emicida: perda de renda para a cultura
O setor cultural também levou ao Planalto uma crítica à expansão das apostas. O rapper Emicida, integrante do movimento Block no Tigrinho, afirmou que as plataformas funcionam como um “dreno de dinheiro” que retira recursos que poderiam ser destinados ao consumo cultural.
Segundo o artista, dinheiro que antes poderia ser utilizado por famílias para comprar ingressos, camisetas e discos ou frequentar shows estaria sendo direcionado às apostas.
“O que ele [o setor de apostas] tá deixando como legado é adoecimento, endividamento e tragédia”, afirmou.
Emicida também relatou mudanças no público dos shows. Segundo ele, artistas e produtores têm percebido dificuldades financeiras entre parcelas do público tradicional da cultura, enquanto pessoas com maior poder aquisitivo passam a representar uma parcela mais visível das plateias.
Para o rapper, o combate às bets não deveria se limitar à publicidade ou à regulamentação econômica. Ele defendeu mudanças no próprio funcionamento dos aplicativos, incluindo a retirada de recursos como autoplay e “modo turbo”, além da adoção de limites de horário e idade.
“Eu acredito que a gente vai precisar ir na direção proibitiva com relação a esse setor”, afirmou.
Bancos e entidades sociais alertam para endividamento
Representantes do sistema financeiro também participaram da reunião. O presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Isaac Sidney, afirmou que os bancos estão dispostos a colaborar no combate às apostas ilegais e alertou para o comprometimento da renda das famílias.
A diretora-geral do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Adriana Marcolino, relacionou a expansão das apostas ao endividamento e afirmou que o fenômeno pode reduzir o efeito do aumento do poder de compra da população.
A preocupação é que parte da renda adicional obtida pelas famílias, em vez de se transformar em consumo, poupança ou redução de dívidas, seja direcionada para plataformas de apostas.
O encontro reuniu ainda representantes da CNI, CNC, Idec, Abrasco, IEPS, USP, Instituto Alana e outras organizações.
Casas de apostas ficaram fora
Apesar da presença de representantes de setores empresariais, financeiros, religiosos, culturais e da sociedade civil, as próprias empresas de apostas não foram convidadas para o encontro.
A ausência reforça o caráter de escuta social e institucional adotado pelo governo nesta etapa da discussão. Lula procura reunir avaliações de grupos que lidam diretamente com consequências atribuídas às apostas, como endividamento, saúde mental, proteção de crianças e adolescentes e comprometimento da renda.
O governo, ao mesmo tempo, avalia se a regulamentação atual é capaz de conter esses efeitos ou se será necessário ampliar significativamente as restrições.
Debate também ganha dimensão eleitoral
A discussão ocorre em meio à campanha presidencial de 2026 e a uma disputa política sobre o endividamento das famílias. O tema vem sendo explorado pela oposição, especialmente pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Ao colocar as bets sob a perspectiva da proteção da renda, da saúde e das famílias, Lula desloca o debate de uma questão exclusivamente regulatória para uma agenda social.
A decisão que poderá ser tomada nos próximos dias terá, portanto, dois componentes. De um lado, estará a avaliação sobre a eficácia da regulamentação e da fiscalização existentes. De outro, a definição do grau de intervenção que o Estado está disposto a adotar diante de um mercado que movimentou valores expressivos e cuja expansão passou a ser associada pelo próprio governo a problemas de saúde, endividamento e vulnerabilidade social.
A reunião desta terça-feira não definiu uma medida concreta, mas estabeleceu o eixo político do debate: para Lula, a arrecadação gerada pelas bets não deve se sobrepor aos custos que as apostas podem impor à sociedade.