Israel destrói comunidade palestina na Cisjordânia e deixa 70 pessoas sem casa em Masafer Yatta

Da Redação

Escavadeiras da Administração Civil israelense demoliram todas as 12 casas de Khirbet al-Tabban, além de cisternas, reservatórios e instalações usadas por famílias que viviam da criação de animais. Entre os 70 moradores deslocados estão 28 crianças. Israel afirma que as construções estavam numa área militar e eram irregulares; a organização israelense B’Tselem sustenta que a operação integra um processo de expulsão de comunidades palestinas.

A reportagem publicada neste domingo (7) pela RT mostra as consequências de uma operação israelense que praticamente eliminou fisicamente a pequena comunidade palestina de Khirbet al-Tabban, em Masafer Yatta, nas colinas ao sul de Hebron, na Cisjordânia ocupada. As demolições ocorreram em 2 de setembro e atingiram todas as 12 residências da localidade e quase toda a infraestrutura necessária à sobrevivência de seus moradores. Cerca de 70 palestinos pertencentes a 12 famílias ficaram sem suas casas; 28 são crianças.

A expressão utilizada pela RT — uma aldeia “apagada” — corresponde à dimensão material da destruição, mas não deve substituir a descrição precisa dos acontecimentos. A Administração Civil israelense chegou à comunidade acompanhada por militares, integrantes da Polícia de Fronteira e máquinas pesadas. Segundo a organização israelense de direitos humanos B’Tselem, os moradores não receberam aviso prévio e não puderam retirar adequadamente seus pertences antes das demolições.

Não foram destruídas apenas moradias. O levantamento da B’Tselem registra 12 casas, 12 instalações sanitárias, quatro cisternas, dez currais, sete estruturas destinadas ao armazenamento de ração, três instalações para cultivo de azolla utilizada na alimentação animal, 15 reservatórios de água, um tanque móvel e duas instalações para ordenha de ovelhas. Entradas de cavernas usadas para armazenamento também foram destruídas ou bloqueadas. Apenas uma oficina de metal permaneceu em pé, recebendo no mesmo dia uma ordem para interrupção das atividades.

A destruição da infraestrutura hídrica tem significado especial naquela região. Masafer Yatta é uma área rural semiárida, e as comunidades palestinas dependem fortemente de cisternas, tanques e outras formas locais de armazenamento de água. As famílias de Khirbet al-Tabban viviam principalmente da agricultura e da criação de aproximadamente 600 animais. A operação atingiu, portanto, simultaneamente residência, água e meios de subsistência.

A reportagem da RT foi produzida no local pela correspondente Charlotte Dubenskij. Nidal Younis, dirigente do conselho local, descreveu o que ocorreu como o desaparecimento físico da aldeia e relatou a destruição das casas, poços de coleta de água da chuva e pequenos reservatórios. Relatos posteriores mostram moradores tentando recuperar objetos entre os escombros e afirmando que pretendem permanecer na área.

O episódio foi confirmado também por veículos israelenses. O Times of Israel informou em 2 de setembro que Israel havia demolido todas as casas da comunidade, composta por aproximadamente 70 habitantes distribuídos entre 12 famílias. O ponto central da justificativa israelense é que Khirbet al-Tabban se encontra dentro da chamada Firing Zone 918, área que as Forças de Defesa de Israel classificaram como zona de treinamento militar.

Essa informação é fundamental porque o conflito em Masafer Yatta não começou nesta semana.

A disputa pela Firing Zone 918

No início dos anos 1980, o Exército israelense declarou aproximadamente 30 mil dunams — cerca de 3 mil hectares — das colinas ao sul de Hebron como área militar restrita. A região inclui diversas comunidades palestinas que sustentam viver nessas terras há gerações. Israel argumentou juridicamente que parte desses moradores não possuía residência permanente no local antes da criação da zona militar.

Em 1999, centenas de palestinos de comunidades da região foram expulsos, dando origem a uma batalha judicial que se prolongou por mais de duas décadas. Em 2022, a Suprema Corte israelense rejeitou as principais petições apresentadas pelos moradores de Masafer Yatta e aceitou a posição de que o comandante militar possuía autoridade para estabelecer a zona de treinamento. A decisão abriu caminho para novas demolições e deslocamentos.

As autoridades israelenses apresentam, portanto, uma justificativa administrativa e militar para as demolições: construções consideradas não autorizadas dentro de uma área militar. Um porta-voz do COGAT, órgão israelense responsável por assuntos civis nos territórios ocupados, descreveu a operação como uma atividade de fiscalização contra construções ilegais numa zona de treinamento.

Organizações de direitos humanos contestam profundamente essa interpretação. A B’Tselem sustenta que regras de planejamento e a classificação militar das terras são utilizadas para remover comunidades palestinas e ampliar o controle israelense sobre a Área C da Cisjordânia. A organização classifica o processo mais amplo como “limpeza étnica”. Essa é a caracterização jurídica e política da entidade; Israel rejeita acusações dessa natureza.

A Anistia Internacional apresentou uma acusação semelhante em junho. Após investigar deslocamentos de comunidades beduínas e pastoris da Cisjordânia, a organização afirmou que Israel conduz uma campanha estatal de limpeza étnica. As autoridades israelenses rejeitaram essa conclusão.

A discussão jurídica ultrapassa, portanto, a existência de ordens administrativas de demolição. O problema central é se o conjunto de políticas de planejamento, restrições militares, expansão de assentamentos e violência de colonos está produzindo um ambiente coercitivo que força populações palestinas a abandonar determinadas áreas.

Os números reunidos pelas Nações Unidas indicam que o deslocamento vem crescendo. Em abril, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) informou que, desde janeiro de 2023, 116 comunidades palestinas haviam sofrido deslocamento total ou parcial relacionado a ataques de colonos e restrições de acesso. Mais de 5.800 palestinos haviam sido deslocados nesse contexto, aproximadamente 1.960 deles apenas em 2026 até aquele momento.

Os dados posteriores da B’Tselem colocam Khirbet al-Tabban como a 66ª comunidade palestina completamente deslocada desde outubro de 2023, além de outras 18 parcialmente deslocadas. A organização calcula que quase 5 mil palestinos foram arrancados de suas comunidades nesse processo específico. Esses números seguem metodologia própria da entidade e não devem ser confundidos com o universo mais amplo de deslocamentos contabilizados pela ONU, que inclui diferentes causas e períodos.

A situação ocorre simultaneamente a uma escalada de ataques de colonos israelenses. Em relatório publicado em julho, o OCHA registrava mais de 1.260 incidentes envolvendo colonos desde o começo de 2026 em aproximadamente 250 comunidades palestinas, média próxima de seis episódios por dia. Cerca de 850 palestinos haviam sido feridos no contexto desses ataques até então.

Essa violência continuou nos últimos dias. Em 2 de setembro, dois jovens palestinos, de 16 e 19 anos, foram mortos durante uma incursão envolvendo colonos e forças israelenses em al-Mughayyir, perto de Ramallah. Autoridades palestinas afirmaram que o episódio começou em meio a uma disputa sobre animais; os militares israelenses disseram que suas tropas reagiram a uma “perturbação violenta” e atingiram pessoas que classificaram como principais instigadores. O Exército informou que o incidente estava sendo investigado.

Nesta segunda-feira (7), a violência voltou a produzir mortes. A Reuters informou que um palestino de 19 anos foi morto por tropas israelenses depois que colonos provenientes de um posto avançado entraram na aldeia de Hajja e confrontos começaram. Em outro episódio, um palestino de 34 anos esfaqueou e feriu gravemente um colono israelense de 20 anos próximo a Qusra e posteriormente foi morto pelas forças israelenses durante a perseguição.

A sequência mostra uma realidade mais complexa do que uma simples confrontação entre duas populações civis. Colonos, comunidades palestinas, Exército israelense, Administração Civil e Polícia de Fronteira atuam no mesmo espaço territorial, mas com capacidades jurídicas e militares profundamente diferentes.

Assentamentos, postos avançados e a pressão internacional

Há ainda uma contradição importante no momento em que Khirbet al-Tabban é destruída. Neste fim de semana, fontes disseram à Reuters que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ordenou a remoção de postos avançados de colonos construídos sem autorização formal do próprio governo israelense. A determinação ocorre sob pressão americana para que Israel contenha a violência de colonos contra palestinos.

Segundo a Peace Now, citada pela Reuters, existem aproximadamente 146 assentamentos reconhecidos pelas autoridades israelenses e cerca de 340 postos avançados não autorizados na Cisjordânia. O governo Netanyahu reconheceu formalmente diversos postos que anteriormente eram considerados ilegais pela própria legislação israelense.

A maior parte da comunidade internacional considera os assentamentos israelenses nos territórios ocupados ilegais segundo o direito internacional. Israel contesta essa interpretação e descreve a situação jurídica da Cisjordânia de maneira diferente. A divergência não elimina o fato de que a expansão territorial dos assentamentos permanece uma das questões centrais de qualquer solução política para o conflito.

A administração americana também elevou recentemente o tom sobre a violência dos colonos. Segundo a Reuters, o embaixador dos Estados Unidos em Israel, Mike Huckabee, chegou a classificar colonos violentos como terroristas e pediu punições depois de reunir-se com palestino-americanos na Cisjordânia.

Esse contexto torna Khirbet al-Tabban particularmente significativo. De um lado, o governo israelense recebe pressão para conter postos avançados e ataques de colonos. De outro, sua própria Administração Civil continua demolindo comunidades palestinas consideradas irregulares dentro da Área C.

É justamente por isso que o caso não pode ser reduzido à imagem de escavadeiras destruindo uma aldeia isolada.

O que ocorreu em Khirbet al-Tabban precisa ser colocado dentro de uma transformação territorial muito mais ampla da Cisjordânia. Comunidades palestinas pequenas e rurais são particularmente vulneráveis porque sua sobrevivência depende de acesso contínuo a terra, água, estradas e áreas de pastagem. Quando cisternas, currais e casas desaparecem ou quando a circulação até os campos se torna impossível, permanecer fisicamente no território pode deixar de ser economicamente viável.

É esse mecanismo que organizações humanitárias descrevem como ambiente coercitivo: o deslocamento pode ocorrer não apenas mediante uma ordem formal de expulsão, mas pela combinação de demolições, violência, restrições de movimento e perda dos meios de subsistência. Os dados do OCHA mostram que ataques de colonos e limitações de acesso já respondem por parcela expressiva dos deslocamentos registrados na Cisjordânia.

Há, portanto, dois níveis distintos no episódio. O primeiro é incontroverso em seus elementos essenciais: em 2 de setembro, autoridades israelenses demoliram todas as 12 casas de Khirbet al-Tabban e grande parte da infraestrutura da comunidade, deixando cerca de 70 palestinos, entre eles 28 crianças, sem suas residências.

O segundo é a interpretação do que esse acontecimento representa. Israel sustenta que executa decisões legais e normas aplicáveis a uma zona militar. B’Tselem e Anistia Internacional enxergam as demolições dentro de uma política mais ampla de deslocamento forçado e usam a expressão “limpeza étnica”. A dimensão jurídica definitiva dessas acusações não pode ser estabelecida por uma reportagem isolada.

Mas a destruição material de Khirbet al-Tabban não é uma interpretação. Casas, cisternas, currais e reservatórios desapareceram; 12 famílias perderam suas moradias; uma comunidade rural inteira foi praticamente desmontada em poucas horas. E o episódio ocorre enquanto os registros das Nações Unidas mostram crescimento dos ataques de colonos, dos deslocamentos e da pressão sobre comunidades palestinas na Cisjordânia.

É nesse contexto que a imagem utilizada pela RT — uma aldeia “apagada” — encontra sua força jornalística. Não porque determine antecipadamente a qualificação jurídica do que Israel está fazendo na Cisjordânia, mas porque, no caso concreto de Khirbet al-Tabban, quase tudo aquilo que permitia à comunidade continuar existindo materialmente foi demolido.

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