André Mendonça é peça-chave da extrema-direita no tabuleiro eleitoral. Por Jeferson Miola

Por Aroeira

O ministro do STF André Mendonça se jogou de cabeça na eleição. Ele é peça-chave da extrema-direita no tabuleiro eleitoral – tanto para a Presidência como para o Senado.

Mendonça deslocou a disputa sobre propostas de governo, defesa da soberania e democracia, e comparação do passado e presente dos candidatos para o debate sobre corrupção. Ele colocou o STF no centro do escrutínio e arrastou o governo para um ringue árido.

Os movimentos audazes contra o ministro Alexandre de Moraes [1º/9] e o Diretor-Geral da PF Andrei Rodrigues [8/9], num jogo de tudo ou nada, chamam atenção. Não foi uma cartada de perdedor ou de blefador.

E ele não agiu como um camicase, mas como integrante de uma articulação política mais abrangente, de caráter internacional, com participação dos EUA e apoio interno, que alimenta mais que perspectiva, mas confiança na vitória eleitoral.

O script seguido por ele é metódico, bem orquestrado e inclusive atiça o fundamentalismo religioso.

Começa em 1º de setembro, faltando pouco mais de um mês para a eleição, quando Mendonça atropelou o Plenário do STF e violou ilegalmente o sigilo de investigações sobre Alexandre de Moraes num “vazamento oficial” para alimentar a narrativa da extrema-direita contra o judiciário e gerar dividendos eleitorais para Flávio Bolsonaro.

Na 6ª feira, 4/7, ele agradeceu em vídeo a solidariedade de irmãos em oração. “Estejam certos que suas preces a Deus têm sido fundamentais para me sustentar e sustentar a minha família. Que Deus os abençoe e que Deus abençoe o nosso País”, disse.

No domingo, 6/7, Michelle Bolsonaro declarou-o como “ungido do Senhor” e pediu “força e coragem” a ele.

Michelle Bolsonaro cumprimentando André Mendonça. Reprodução

Mendonça foi ungido nos atos entreguistas dos bolsonaristas no 7 de setembro; e, dia seguinte, 8/7, num ato de invasão de competência do Presidente da República, pediu afastamento de Andrei Rodrigues do comando da PF, num gesto em que se insinua como autor de uma ação moralizante diante da inação conivente do Lula. Nikolas Ferreira disse: “é só o começo” do jogo sujo.

Se Flávio Bolsonaro vencer a eleição, Mendonça terá quatro novos colegas de perfil igual ou pior que o dele indicados. Ele então assumiria a condição de líder de uma maioria Schmittiana, de juízes legitimadores do Estado de Exceção no STF num país então mergulhado no precipício fascista. Teria tanto ou mais poder que o próprio Flávio.

Os movimentos de Mendonça sedimentaram a narrativa da extrema-direita contra o judiciário e criaram uma cortina de fumaça que eclipsa totalmente Daniel Vorcaro e esconde a relação de Flávio Bolsonaro com o banqueiro mafioso, que repassou a ele quase R$ 70 milhões, pelo que se sabe, por enquanto.

A ofensiva do ministro bolsonarista opera no imaginário social a falsa ideia de cruzada pela moralidade e combate à corrupção – combustível para a mídia hegemônica, sobretudo para a Rede Globo. No afã de impedir a reeleição do presidente Lula, a Globo incensa esse viés, como deixou claro nas entrevistas do Jornal Nacional.

Essa narrativa cínica cria uma cilada para o governo.

Mesmo defendendo a apuração dos fatos suspeitos e comprometedores do ministro Alexandre de Moraes, o governo fica com as margens estreitadas para confrontar Mendonça diretamente, pois daria combustível à narrativa bolsonarista, operada a partir da lógica rudimentar de que STF mais governo e mídia integram “o sistema corrupto” que fraudou a eleição de 2022 e perseguiu Bolsonaro para impedir que a direita continuasse governando o Brasil e então eles, o “sistema corrupto”, continuassem roubando o país.

Enquanto o governo defende o STF como fator crucial para proteger nossa débil e ameaçada democracia [o que não significa, em absoluto, endossar ou defender desvios de ministros], os movimentos de André Mendonça visam o exato oposto: enfraquecer para destruir o judiciário, seguindo o manual da extrema-direita internacional para instalar autocracias ou ditaduras com verniz de normalidade institucional.

Desde que assumiu a relatoria do caso Master em lugar de Dias Toffoli, Mendonça adotou medidas abusivas e ilegais. Ele alienou o Diretor-Geral da PF das investigações, concentrou os dados brutos no seu gabinete, interferiu nas equipes e no funcionamento das investigações, e impediu que investigadores se reportassem aos superiores hierárquicos.

Apesar dos pedidos da PF, tais ilegalidades do ministro-relator não foram combatidas pelo Advogado-Geral da União e pelo ministro da Justiça – aliás, de tão sumido e ausente dessa grave conjuntura, sequer se sabe seu nome.

A Inteligência da PF demonstrou, a partir da compilação de decisões e ordens ilegais de Mendonça, que ele atropelou o Plenário para atingir Moraes e dinamitar o STF, concentrou os dados de Daniel Vorcaro no seu gabinete para vazar e esconder autores de vazamentos criminosos, e usurpou competências da PF para enviesar as investigações para safar Flávio Bolsonaro e bolsonaristas.

André Mendonça perdeu totalmente a condição de continuar na relatoria dos casos Master e INSS, pois conduz seu trabalho de modo enviesado para prejudicar o governo e beneficiar o campo bolsonarista.

Com os desvios cometidos no seu agir político-estratégico, seu destino está atrelado ao destino de Alexandre Moraes, ainda que por motivos distintos.

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