Nesta segunda-feira (20), o governo do Irã deixou claro que não se envolverá em uma nova rodada de negociações enquanto persistirem as ameaças militares, o bloqueio naval e os ataques diretos por parte dos Estados Unidos. A declaração foi feita em resposta à ação da Marinha americana contra um navio mercante iraniano no Mar de Omã, incidente que a nação persa denunciou como uma violação do cessar-fogo e um ato de pirataria marítima.
Após dias de impasse em relação ao cessar-fogo, a República Islâmica afirmou que não há negociação verdadeira quando uma das partes mantém o bloqueio, impõe exigências crescentes e ainda ameaça destruir a infraestrutura civil do país. Os Estados Unidos não estão buscando negociar, mas sim forçar uma rendição, algo que é completamente incompatível com a situação atual.
A intensificação da crise acontece no 52º dia de conflito e no 13º dia do cessar-fogo. Em vez de abrir espaço para a estabilização, os eventos recentes apontam para o oposto. De acordo com autoridades militares iranianas, o navio comercial atacado pelos EUA teve seu sistema de navegação desativado após os disparos e a abordagem de militares americanos. Essa denúncia foi feita pelo Quartel-General Central Selo dos Profetas, que considerou a operação criminosa e afirmou que houve uma violação clara dos termos do cessar-fogo.
A resposta iraniana se manifestou em diversas frentes. O presidente Masoud Pezeshkian afirmou que os iranianos não se submeterão à força, mesmo diante das “mensagens amargas” dos Estados Unidos. Essa declaração foi uma resposta direta ao presidente Donald Trump, que renovou suas ameaças públicas e declarou que, se não houver um acordo, os EUA destruirão “cada usina de energia” e “cada ponte” no Irã. Essa ameaça não deixa dúvidas sobre o tipo de “negociação” que o governo americano pretende conduzir: uma conversa sob coerção militar.
No mesmo dia, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, reafirmou que o Irã não aceitará negociações “sob a sombra das ameaças”. Segundo ele, Trump deseja transformar a mesa de negociações em uma mesa de capitulação ou usar o fracasso das conversas como justificativa para uma nova escalada militar. Qalibaf também mencionou que, nas últimas duas semanas, o país se preparou para revelar “novas cartas no campo de batalha”.
A posição foi apoiada pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmail Baghaei. Em entrevista nesta segunda-feira, ele afirmou que os Estados Unidos não demonstram seriedade nas negociações com o Irã e que receberão uma resposta firme caso repitam os erros do passado.
De acordo com Baghaei, o Irã ainda não decidiu sobre a participação em uma nova rodada de negociações. O governo iraniano argumenta que não é possível discutir qualquer acordo enquanto o bloqueio aos portos e embarcações do país persistir. O porta-voz enfatizou que, desde o início do cessar-fogo, o comportamento americano foi caracterizado por má-fé: declarações contraditórias, exigências excessivas e ações coercitivas para alterar a dinâmica da guerra.
Outro dirigente que se manifestou nesse sentido foi o vice-chanceler Saeed Khatibzadeh. Ele declarou que os Estados Unidos não têm outra opção a não ser abandonar suas exigências abusivas e respeitar integralmente os direitos do povo iraniano. Ao mesmo tempo, enfatizou que a diplomacia continua sendo a única solução viável para a crise. A mensagem iraniana, portanto, não é uma rejeição a negociações em si, mas uma recusa em negociar sob bloqueio, sabotagem e ameaças de guerra aberta.
O chanceler Abbas Araghchi também acusou os Estados Unidos de agir com intenções maliciosas e sem a seriedade necessária para qualquer entendimento real.
Trump, por sua vez, afirmou que seus representantes iriam à capital paquistanesa, Islamabad, para discutir as negociações. No entanto, não houve confirmação imediata de participação por parte do Irã. O Paquistão, que atua como mediador, se encontra agora em um impasse. Relatos divulgados nesta segunda-feira (20) indicam que o chefe do Exército paquistanês teria informado a Trump que o bloqueio naval americano aos portos iranianos está dificultando os esforços para possibilitar uma segunda rodada de negociações. Em outras palavras, a própria política dos Estados Unidos estaria comprometendo a mediação que afirmam apoiar.
Simultaneamente, o confronto ganhou nova dimensão com a situação no Estreito de Ormuz. Após uma fase anterior do cessar-fogo, o Irã havia concordado em reabrir a passagem para embarcações comerciais, mantendo, no entanto, o controle estratégico sobre a área. Com a continuidade do bloqueio naval pelos Estados Unidos, a República Islâmica decidiu novamente fechar o estreito ao tráfego.
No âmbito militar, também houve declarações contundentes. O general de brigada Saied Majid Mousavi, comandante da Força Aeroespacial do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI), declarou que o Irã não confia em negociações com os Estados Unidos para pôr fim à agressão e que deposita sua confiança na força nacional. Ele alertou que qualquer ameaça será respondida de forma firme e decisiva.
A tensão gerada pela sabotagem dos Estados Unidos ao acordo de cessar-fogo provocou reações internacionais. A China expressou preocupação com o ataque americano ao navio iraniano e advertiu contra novas provocações. O chanceler russo Sergei Lavrov classificou o bloqueio e a recente apreensão de um cargueiro iraniano como ilegais, embora tenha defendido a continuidade das negociações para evitar a retomada total do confronto militar.
No mercado internacional, o impacto foi imediato. O preço do petróleo subiu em virtude do receio de novas interrupções no abastecimento global de energia.
O cenário permanece, portanto, indefinido. De um lado, Trump fala em negociação enquanto envia representantes e faz ameaças devastadoras. Do outro, o Irã afirma que não negociará sob chantagem, que o bloqueio deve ser encerrado e que qualquer novo erro dos Estados Unidos terá uma resposta.