O periódico da elite, Estadão, publicou no último domingo (19) um editorial intitulado Sem credibilidade não se governa. Credibilidade de quem? Essa é a questão. É evidente que um defensor do grande capital se refere ao “deus mercado”.
Para a surpresa de ninguém, o jornal exalta duas das figuras mais controversas que a política brasileira já produziu: Fernando Henrique Cardoso, o sociólogo dos príncipes, responsável pela destruição da indústria nacional; e Michel Temer, nosso Judas Iscariotes, que, em conluio com os EUA, deu o golpe em 2016, levando milhões de brasileiros à miséria. Com esse histórico, é compreensível que o Estadão os elogie.
No início do editorial, é levantada a pergunta retórica “o que acontece quando um governo deixa de ser crível?”, para em seguida responder que “refletindo sobre como a credibilidade impacta a economia, a relação entre os Poderes e os desafios do modelo político brasileiro, o ex-presidente Michel Temer se deparou com essa questão em uma conversa com o economista Felipe Salto, articulista do Estadão, e apresentou a síntese: ‘O governo tem de ser crível, não incrível’. Essa ideia, simples de ser expressa e complexa de ser realizada, é mais do que um trocadilho. Trata-se de um princípio de gestão que critica a tendência nacional pelo populismo, observada nos anos em que o Brasil se afundou na lama do lulopetismo e do bolsonarismo”.
Como se pode perceber ao final, a elite não deseja Lula nem Bolsonaro, o que este Diário já vem afirmando desde antes do julgamento fictício da “trama golpista” do dia 8 de janeiro.
Nem Lula, nem Bolsonaro, são considerados “críveis” pela elite, pois ambos têm bases eleitorais que exercem pressão. Os interesses dessas classes não se alinham com os do grande capital, que busca colocar no poder um candidato da terceira via, um presidente “sem votos”; ou seja, sem suporte popular, um franco-atirador, como Javier Milei, que é mais fácil de controlar e subserviente.
Segundo o Estadão, “do alto (sic) de sua experiência como ex-presidente que, em seu tempo no comando, parecia mais preocupado em governar do que em sua próxima eleição, Temer ensina o oposto do que defendem os protagonistas da polarização. O País não necessita de governos que tentam reinventar a roda, destruir o passado ou criar marcas retumbantes de gestão. Precisa de algo mais simples e mais desafiador do que propaganda: credibilidade. A História mostra que isso é para poucos”.
Dificilmente alguém em sã consciência afirmaria que Michel Temer esteja no alto em qualquer aspecto. Esse traidor teve uma missão, a de desmantelar as conquistas dos trabalhadores para aumentar os lucros da elite.
A elite não precisa de presidentes que “reinventem a roda”, apenas daqueles que façam o trabalho sujo de deixar brasileiros à míngua para enriquecer banqueiros e acionistas estrangeiros.
Não é verdade que “a História mostra que isso é para poucos”, pois não faltam indivíduos dispostos a se aproveitar de situações desfavoráveis. No Brasil, quanto tempo passamos sob ditaduras e com outros vendidos no poder?
Golpismo
É evidente que ser abjeto não é suficiente para agradar à elite. Como mencionado no editorial, “a experiência brasileira recente demonstra que a perda de credibilidade traz consequências políticas concretas. Fernando Collor viu seu governo desmoronar não apenas devido a denúncias de corrupção, mas pela rápida erosão de confiança que inviabilizou sua sustentação”. Ao mesmo tempo, a elite se atrai por candidatos assim, sem apoio popular, pois são mais fáceis de serem removidos do cargo.
Collor, “sem credibilidade [da elite], perdeu apoio e abriu caminho para o impeachment.”
Como era de se esperar, o Estadão distorce a verdade, afirmando que “décadas depois, Dilma Rousseff enfrentou destino semelhante. Tão relevantes quanto as ‘pedaladas fiscais’ foram a condução errática da economia e a falta de habilidade política que isolaram o governo e pavimentaram seu impedimento”.
Esse jornal sabe muito bem que as mencionadas “pedaladas fiscais” foram uma estratégia para destituir a presidenta do cargo. O principal motivo não foi uma “condução errática” da economia, visto que os deputados sob controle da elite sabotaram suas tentativas de governar.
O The New York Times (NYT), já em 2012 e outras publicações financeiras (como a The Economist) começaram a fazer comparações desfavoráveis entre o estilo de gestão de Dilma e o de seus antecessores.
Fizeram uma comparação entre “intervencionismo e ortodoxia”. Argumentavam que Fernando Henrique Cardoso havia estabelecido a base da estabilidade econômica com o Plano Real e a abertura do setor de petróleo (Lei 9.478/97).
O NYT, como todo jornal da elite, preferia a “mão leve”, criticando a “mão pesada” de Dilma na economia (a chamada Nova Matriz Econômica), contrastando-a com o pragmatismo de FHC e o primeiro mandato de Lula. O jornal sugeria que a preferência de Dilma por “campeões nacionais” e intervenções em setores como energia e petróleo afastava investidores.
Na visão do periódico, a política de FHC era “melhor” por ser mais amigável ao mercado, transparente e focada em privatizações e concessões que possibilitavam uma exploração mais rápida das reservas, enquanto Dilma estaria “engessando” o país com uma burocracia nacionalista.
Edward Snowden, em 2013, revelou que a NSA espionou não apenas a presidenta, mas também as comunicações internas da Petrobrás, provando que o controle sobre os dados geológicos e as políticas do pré-sal eram de interesse estratégico direto de Washington, que orquestrou o golpe de 2016.
Terceira via
O Estadão utiliza o final de seu editorial para criticar tanto Bolsonaro quanto Lula. Se aquele “fez do conflito um método, o lulopetismo incorre em outro vício: a tentativa de ser ‘incrível’ a qualquer custo”, conclui.
Com isso, o jornal reforça a ideia de que o grande capital busca um presidente da terceira via, tentando desenvolver uma estratégia de longo prazo, o que será difícil de alcançar em um ambiente tão polarizado. Afirma que, “sem isso, o Executivo perde a capacidade de coordenar maiorias, o Congresso passa a agir de forma autônoma e fragmentada, e o Judiciário é empurrado para o centro das disputas”. Um resumo de como a elite tem governado.
O desafio da elite é que está correndo contra o tempo e a falta de opções na terceira via, cujos candidatos estão muito atrás do bolsonarismo, em um quadro polarizado entre Lula e Flávio Bolsonaro.