Da Redação
Enxurradas e deslizamentos destruíram comunidades na região do Himalaia, atingiram infraestrutura e deixaram centenas de turistas desaparecidos; operações de busca mobilizam forças de segurança do Nepal e equipes chinesas no Tibete
Uma catástrofe de grandes proporções atingiu nesta quarta-feira (26) a região montanhosa da fronteira entre o Nepal e a Região Autônoma do Tibete, na China. Uma inundação repentina, acompanhada de deslizamentos de terra, arrastou construções, destruiu comunidades próximas aos rios e provocou uma extensa operação de busca e salvamento nos dois lados da fronteira. O balanço divulgado pelo Brasil 247, atualizado às 11h09, aponta pelo menos 95 mortos e mais de 380 desaparecidos.
A situação permanece em evolução e os números devem ser tratados como provisórios. Informações divulgadas ao longo desta quarta-feira apresentam balanços diferentes, característica comum nas primeiras horas de desastres dessa magnitude. Uma reportagem japonesa publicada posteriormente, por exemplo, mencionava 22 mortes confirmadas no Nepal e mais de 380 desaparecidos. As equipes continuam trabalhando em áreas de difícil acesso, o que pode provocar novas revisões nos números.
Entre os desaparecidos há um grande número de turistas. Segundo o Conselho de Turismo do Nepal, citado pelo Brasil 247, 384 viajantes estavam oficialmente desaparecidos, sendo 291 estrangeiros. A dimensão internacional da tragédia amplia a mobilização das autoridades e de representações diplomáticas em busca de informações sobre seus cidadãos.
O desastre atingiu com especial violência o distrito de Rasuwa, no Nepal, uma região montanhosa com aproximadamente 50 mil habitantes e importante corredor em direção à fronteira tibetana. As águas avançaram rapidamente sobre localidades instaladas próximas ao rio Bhote Koshi, surpreendendo moradores e provocando destruição em poucos minutos. Imagens divulgadas pela imprensa mostram correntezas carregadas de lama atravessando áreas habitadas, levando veículos e estruturas inteiras.
A violência das águas também comprometeu a infraestrutura da região. Uma ponte metálica foi destruída, estradas ficaram bloqueadas e instalações ligadas à produção de energia foram atingidas. Outro relato publicado nesta quarta-feira informa que 14 instalações hidrelétricas e estruturas de transmissão sofreram danos, deixando áreas sem fornecimento de eletricidade.
As condições geográficas tornam o trabalho das equipes de emergência especialmente difícil. Rasuwa está localizado em uma área de relevo acidentado do Himalaia, onde estradas podem ser rapidamente interrompidas por deslizamentos e enxurradas. O mau tempo e a destruição do terreno chegaram a impedir o pouso de helicópteros de resgate nas primeiras horas da operação.
Diante da dimensão da tragédia, o governo nepalês mobilizou policiais, militares e equipes especializadas para as operações de busca e salvamento. Moradores das áreas próximas ao rio também foram orientados a abandonar imediatamente as zonas de risco e procurar terrenos mais elevados diante da possibilidade de novos eventos.
A destruição atravessou a fronteira.
No lado chinês, a região de Gyirong, no Tibete, também foi atingida por um grande deslizamento. Estradas foram bloqueadas, houve interrupções no fornecimento de energia e sistemas de comunicação ficaram comprometidos em áreas de Shigatse. Entre os desaparecidos registrados na região chinesa estavam trabalhadores estrangeiros vinculados a uma instalação hidrelétrica.
O presidente chinês, Xi Jinping, determinou a mobilização de esforços para localização dos desaparecidos e resgate das vítimas, segundo informações divulgadas pela imprensa nesta quarta-feira.
Ainda existe incerteza sobre a cadeia exata de acontecimentos que desencadeou a catástrofe.
O Brasil 247 informa que as autoridades meteorológicas ainda não haviam confirmado oficialmente a causa da inundação. Uma hipótese que merece atenção envolve fenômenos glaciais, porque uma inundação de grandes proporções registrada anteriormente no mesmo sistema fluvial foi relacionada ao esvaziamento abrupto de um lago glacial.
Outra informação divulgada nesta quarta-feira aponta para a possibilidade de que um terremoto de magnitude 4,4 tenha provocado uma avalanche que, por sua vez, poderia ter contribuído para a inundação repentina. Essa relação causal, entretanto, ainda aparece como hipótese e não como conclusão definitiva das autoridades.
A distinção é importante porque desastres dessa natureza no Himalaia podem resultar de diferentes fatores combinados: chuvas intensas, deslizamentos, rompimentos naturais, avalanches e fenômenos relacionados aos numerosos lagos glaciais existentes nas grandes altitudes.
A tragédia também chama novamente atenção para a vulnerabilidade das populações do Himalaia diante das transformações ambientais. O derretimento e a instabilidade de geleiras podem contribuir para a formação e expansão de lagos represados naturalmente. Quando essas barreiras cedem abruptamente, enormes volumes de água podem descer pelos vales em velocidade elevada, atingindo comunidades localizadas quilômetros abaixo.
Isso não significa que a inundação desta quarta-feira já possa ser atribuída diretamente às mudanças climáticas. Determinar a influência climática sobre um evento específico exige investigação científica. O que existe é um problema regional mais amplo: áreas montanhosas do Himalaia estão expostas a uma combinação particularmente perigosa de alterações glaciais, eventos meteorológicos extremos, ocupação de vales, infraestrutura hidrelétrica e comunidades de difícil acesso.
A presença de centenas de turistas entre os desaparecidos acrescenta outra dimensão ao desastre. O Nepal possui no turismo de montanha uma atividade econômica fundamental. Trilhas, montanhismo, paisagens do Himalaia e rotas em direção ao Tibete atraem visitantes de diversas partes do mundo. Quando estradas, pontes e comunicações são interrompidas simultaneamente, identificar a localização de estrangeiros pode levar horas ou dias.
Por isso, o número de desaparecidos não pode ser automaticamente convertido em número de mortos. Parte dessas pessoas pode estar isolada em localidades onde os sistemas de comunicação foram destruídos.
Nas próximas horas, três frentes serão decisivas: alcançar comunidades ainda isoladas, localizar os centenas de desaparecidos e estabelecer com maior precisão a origem da inundação.
O desastre que atingiu Nepal e China demonstra novamente como uma catástrofe natural pode ultrapassar fronteiras políticas em questão de minutos. Rios, geleiras e cadeias montanhosas conectam os dois territórios independentemente dos limites nacionais, fazendo da cooperação entre autoridades nepalesas e chinesas uma necessidade imediata para salvar vidas.
Enquanto helicópteros, militares, policiais e equipes de emergência tentam alcançar as regiões devastadas, famílias aguardam informações sobre centenas de pessoas cujo paradeiro permanece desconhecido.
E somente quando as águas baixarem e as equipes conseguirem alcançar todas as comunidades será possível conhecer a verdadeira dimensão da tragédia.