A Feira em MG: dias de terra, arte e pão  

Foto: MST

Por Diego Armando Cohecha*
Da Página do MST

A Feira Estadual da Reforma Agrária 2026 já tem data e local em Minas Gerais. Entre os dias 11 e 13 de setembro, a Serraria Souza Pinto recebe as produções das 8 regionais do estado, além de parcerias com outros estados, com a economia solidária e atrações culturais. Para entrar no clima de Feira, sugerimos a leitura da crônica “Minha primeira Feira da Reforma Agrária com o MST”, que relata a experiência de Diego, voluntário do Setor de Comunicação na Feira de 2025:

Minha primeira Feira da Reforma Agrária com o MST

Faz um calor primaveril em Belo Horizonte, Minas Gerais. Desde o céu, o centro da capital parece, pela disposição emaranhada das suas ruas, uma grande teia de aranha feita com fios de asfalto. E no cerne dessa grande teia está localizado um exuberante parque público com o ar de um jardim botânico: o Parque Municipal Américo Renné Giannetti. Durante os dias 17, 18 e 19 de outubro, período no qual foi realizada a V Feira Estadual da Reforma Agrária e Agricultura Familiar, fazendo com que aquela área, vista desde um drone, fosse uma faixa de mato verde salpicada com pinceladas de um vermelho sanguíneo se espalhando por todo o canto: a militância do MST, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil.

O Movimento, além de ser conhecido pelas ocupações de latifúndios improdutivos, todos os anos realiza feiras no Brasil inteiro onde comercializa produtos da Reforma Agrária. Ney Zavaski, dirigente nacional do MST, comenta sobre o evento deste ano — a nossa feira é uma expressão da luta camponesa: com comida saudável, arte, música, cultura e luta.

Agora, com as recentes intromissões dos Estados Unidos na política interna brasileira, se tornou premente que o pano de fundo seja a defesa da soberania nacional. Nasce daí a temática deste ano: “Cultivar a terra, defender o Brasil”. E não são apenas palavras ao vento: trinta toneladas de alimentos, produzidas por mãos camponesas de maneira agroecológica, respaldam aquela palavra de ordem.

Cercado por árvores exóticas e nativas, um corredor de barracas, como as de uma quermesse, mas de vários tons avermelhados, onde é possível encontrar vários produtos vindos de Minas, São Paulo, Espírito Santo e do Rio Grande do Sul. “Olha só o que eu comprei para seu avô! — diz uma senhora de óculos escuros numa videochamada no meio de uma multidão, mostrando uma cachaça artesanal chamada Ho Chi Minh que é fabricada em Nova União, Minas Gerais. E além de mandioca, melancias, abacaxis, ovos caipiras, distintos tipos de feijões e bananas, mudas de plantas medicinais, mel, temperos e hortifruti de origem agroecológica, outros produtos processados pelas cooperativas. Nessa longa descrição que ainda está incompleta, encontramos um corredor que também está cheio de livros, roupas, calçados e várias peças de artesanato, os quais rememoram as antigas conexões do Brasil com África e com o restante da América Latina.

Detive-me em uma das barracas e perguntei em tom provocador para um jovem acampado da Zona da Mata, que estava em sua barraca vendendo conservas e pimentas.

— Esses dias falaram pra mim que esses eventos são só para lucro do Movimento. O que você responde pra esse povo?
Guido, um garoto de uns vinte e dois anos, riu com ironia e respondeu prontamente:
— Cara, se fosse pelo lucro eu estaria vendendo cursos de coach. O que a gente quer é autonomia e terra para plantar.

Rose, uma mulher com vinte anos de vivência a mais que o rapaz, oriunda do mesmo acampamento, assente com convicção, como quem diz: Isso aí! O menino tá certo!


Desde o nascimento do Movimento nos anos oitenta até hoje, o MST tem clareza de que o bicho humano precisa de muito além de água e comida para saciar sua fome de mundo e sua sede de justiça social; não é à toa que uma das palavras de ordem reza: por terra, arte e pão.

Essa causa “trinitária” se respira em todo canto da Feira. Está na comida servida, no palco com seus espetáculos artísticos e até nas mandalas que decoram cada espaço da feira. Não há feiras organizadas pelo MST sem a culinária tradicional, a música popular, ciranda para os jovens, mandalas, o espaço da saúde e várias rodas de conversa. E esta feira não foi exceção.

Foto: MST

É por isso que na entrada principal do Parque Municipal, foi disposto um painel feito com mais de vinte tipos de alimentos, todos plantados, coletados e doados pelos feirantes. Cada vendedor doa 5% do que ia comercializar, explica Lulane Debortoli do Mãos Solidárias. A estética do painel, assim como as palavras de ordem, mudaram durante os três dias da Feira. Forçando todos os que por ali passavam a reconhecer a beleza e a força que pode surgir quando o trabalhador pode trabalhar na terra.

Como o trabalho do Movimento é organizado, bem feito, não paravam de chegar alimentos. No fim, cinco toneladas de alimentos foram entregues para vinte entidades sociais da zona metropolitana, entre elas havia organizações de catadores e de mulheres.


Prosa agroecológica

Foto: Raquel Matos

Agora, há tantas atividades acontecendo simultaneamente que você fica no dilema de quais terá que abrir mão. Eu consegui assistir a duas rodas de conversa realizadas no espaço da Prosa agroecológica, um local onde o olhar é acariciado pelas cores cálidas que irradiam em peneiras, chapéus de fibra e espigas de milho seco, enquanto escutam-se duros testemunhos que vêm dos territórios onde resiste o povo Sem Terra.

A fazenderada começou a ficar enciumada porque era muito melhor para a gente colher semente do que ficar trabalhando pra eles. E aí, um dia a gente acordou e viu na beira da estrada como as árvores marcadas para a colheita, já carregadas de sementes, começaram a morrer de cima para baixo”.

A fala, proferida na roda de conversa intitulada: Guerra química: a ameaça dos drones e a luta pela vida, é de uma integrante de um grupo de coletoras de sementes que trabalham pelo reflorestamento da mata atlântica no Vale do Rio Doce. As sementes — de jacarandá, angico, matumba, entre muitas outras —, são compradas com o dinheiro das empresas que cometeram o crime ambiental de Mariana, pois a justiça brasileira obrigou-as a financiar programas de restauração.

Terminada a roda me aproximei e perguntei com o tom de quem já foi vencido, — E aí? O que fizeram vocês? — ela respondeu com um olhar tingido de temperança e falou com a fria calma que só tem quem está calejado de tanta luta — Buscamos sementes em outros lugares da mata, lugares que eles não conhecem, mas que a gente conhece sim.

Espaço da saúde

Foto: Raquel Matos

Abrigada à sombra de uma paineira nativa (uma árvore cujo tronco verde parece uma barriga talhada com estrias), está a equipe de saúde junto a uma barraca branca discutindo a ordem do dia. A turma é de vinte pessoas; as mulheres são a grande maioria. Qual será a responsabilidade do Posto de Saúde Diva França durante esses três dias? Nas palavras de uma delas: acolher e cuidar das vidas.

Terezinha, assentada e militante do MST com quinze anos de experiência no setor da saúde e sessenta e poucos de vida, fala olhando no olho através de seus óculos chiques, pausadamente e sem desperdiçar palavras. “O espaço da mística é um espaço de cuidado, porque aí a gente primeiro cuida da gente. Cuida das pessoas que vão cuidar das outras pessoas”.

O comentário faz referência à reunião que a equipe faz ao início da jornada antes de atender a trabalhadores e visitantes da Feira. Ela conta que esses encontros, onde se evoca a arte e a palavra, são importantes porque são momentos de troca, pois, como ela afirma e acredita, “às vezes a própria escuta é já uma cura”.

Entro na barraca e deito-me numa maca para conferir se a fala de Terezinha vai além de palavras bonitas. Então me atende Kauê Roque de Sousa, um terapeuta profissional e ex-franciscano com quem troco ideia sobre a Teologia da Libertação. Eu estou de barriga para baixo, sem camisa, enquanto ele aplica a ventosaterapia, uma técnica milenar da medicina chinesa. Kauê, que faz parte da ONG Mãos de Assis, passa um copo que gera um efeito de vácuo nas minhas costas e fala para uma aprendiz: “tá vendo? Onde fica vermelho é a estagnação, isso indica as zonas de maior tensão muscular”. Os conhecimentos logo serão replicados pela aprendiz em outras atividades, em acampamentos e assentamentos do MST.

A coloração que ele sinaliza coincide com a dor que tenho há um par de meses. Kauê, depois de escutar um pouco da minha história no Brasil, afirma com voz afável, “grande parte dos adoecimentos físicos têm uma origem emocional”.

Levanto-me; experimento uma reconfortante sensação de alívio muscular. Estou pronto para conhecer o espaço dos Sem Terrinha.

A ciranda e os Sem Terrinha

A Ciranda surgiu em 1987 para possibilitar a participação dos pais, providenciando um local seguro para seus filhos. Com o tempo a Ciranda cresceu, amadureceu e se espalhou de sul ao norte do Brasil, tornando-se num espaço próprio para a formação lúdica dos “Sem Terrinha”, como são chamados os pequeninos do Movimento.

Foto: Agatha Azevedo

E enquanto as crianças rondam como borboletas ao redor da barraca, levantada nas proximidades da lagoa do Parque, Elis Carvalho, uma mulher de pele canela, com cabelos cacheados e cor de prata, aponta como coordenadora da ciranda:

“Os Sem Terrinha são sujeitos deste Movimento, brincam, produzem conhecimento. Aqui a gente faz formação, dialoga com a temática da feira, trabalha com a separação do lixo. As crianças sabem o que está acontecendo e participam das atividades”.

Aqui, as entrevistas são interrompidas pela molecada que não para nem um segundo nem para respirar. Aliás, um pequeno de uns onze anos nos interrompe pedindo indicações para fazer um barquinho de papel. Quando um dos cuidadores explica para ele quais são os passos, o menino interrompe-o abruptamente, argumentando que já compreendeu, que pode terminar sozinho.

Eliz Carvalho diz, com um sotaque chiado, sobre a conexão da Ciranda infantil, o resgate da cultura popular brasileira e a educação dos Sem Terrinha, “a gente traz à Ciranda essa ideia da roda, para trazer as brincadeiras, as músicas, para resgatar a nossa cultura popular. Também para trabalhar de forma mais lúdica as produções artísticas e culturais do Movimento que dialogam com a Reforma Agrária Popular e a agroecologia”.

Os sons da luta

“Nossa arte pode ser copiada, mas ela não vai te arrepiar”, li alguma vez em uma pichação de uma favela de Belo Horizonte. E lembro dessas palavras porque a pele não tem como ignorar o que a força afro-mineira do bloco Pisa Ligeiro a faz sentir.

O Bloco do MST, originário de Minas Gerais, é uma sinfonia que mistura baterias com enxadas. A percussão é o som de pandeiros e tambores, do bater marcante das baquetas batendo as ferramentas de trabalho. Quem já presenciou o bloco tocar, já viu como os ferros raspando o chão invocam faíscas, fumaça e música de carnaval.

Foto: Agatha Azevedo

O primeiro dia da Feira, o bloco Pisa Ligeiro, chamado assim pela música que diz, “pisa ligeiro, quem não pode com a formiga não assanha o formigueiro”, ofereceu um ensaio aberto percorrendo o parque, fazendo-se escutar de transeuntes desprevenidos e simpatizantes, lutando com a alegria de quem canta resistência na luta pela Reforma Agrária Popular.

Foto: Agatha Azevedo

A outra mostra artística que me deixou arrepiado aconteceu com Mina Flor, um agrupamento de mulheres do MST cuja tradição musical transpira o vapor das montanhas mineiras. Diante de um cenário ornamentado com bananas, flores e mandiocas. Há três mulheres descalças vestidas de branco. Uma delas segura uma bandeira palestina, e todas, em uníssono de uma cadência épica, entoam um canto que, em meio à tragédia, evoca uma esperança combativa:

“Viva o povo palestino, viva a resistência popular.
O canto sagrado alimenta a utopia,
Do fogo desta guerra vai nascer um novo dia
E a Palestina livre vencerá, e a Palestina vencerá …”

É domingo, 19 de outubro, último dia da Feira da Reforma Agrária. São 5 da tarde e a música do palco é agora uma lembrança. Os Sem Terra começam o desmonte do encontro. Coletivos, cooperativas, delegações e indivíduos organizam a retirada. Caminhões e pessoas vão de um lado para outro levantando mesas, recolhendo produtos e infraestrutura. É engraçado, eles ainda não foram embora e muitos já se despedem com uma saudade de dimensões latifundiárias.

E assim, aos poucos, o parque vai perdendo o volume populacional dos últimos dias, só que o movimento não para, ao contrário, fica mais acelerado.

Pois se você observasse a cena, lá do topo de uma das árvores amazônicas do parque, provavelmente, a imagem que enxergaria seria essa que eu senti com olhos e a pele testemunhando a correria desses homens e mulheres trabalhando e festejando; dito de outro jeito, a força viva, a agitação de um formigueiro de bonés vermelhos aprontando tudo para tornar realidade três dias de arte, pão e terra.

*O colombiano Diego Armando Cohecha é jornalista, parceiro do MST e foi voluntário da equipe de comunicação da Feira Estadual do MST em Minas Gerais no ano de 2025.

**Editado por Agatha Azevedo e Fernanda Alcântara

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