Índia coloca autonomia estratégica no centro do BRICS e tenta transformar guerras globais em espaço para uma nova diplomacia

Da Redação

Cúpula de Nova Delhi ocorre sob o impacto simultâneo das guerras envolvendo Irã e Ucrânia, da crise das rotas marítimas, das sanções e das tarifas unilaterais. A Índia rejeita escolher entre blocos e procura converter sua presidência do BRICS numa demonstração de autonomia estratégica. O resultado mais importante do primeiro dia foi alcançado: apesar das profundas divergências internas, os membros aprovaram por unanimidade a Declaração de Nova Delhi.

A Índia chegou à cúpula do BRICS deste fim de semana tentando resolver uma equação que diz muito sobre a transformação atual da ordem internacional. Nova Delhi mantém uma parceria estratégica histórica com a Rússia, aprofundou relações econômicas com Moscou durante a guerra na Ucrânia, preserva canais com o Irã, mantém relações importantes com Israel e com as monarquias do Golfo, procura reconstruir a relação com a China e, ao mesmo tempo, não pretende romper sua parceria com os Estados Unidos. A posição indiana não é exatamente de neutralidade: é uma política deliberada de autonomia estratégica, pela qual o país procura impedir que conflitos organizados pelas grandes potências obriguem sua política externa a funcionar dentro de alinhamentos automáticos. É nesse contexto que deve ser lida a reportagem da RT sobre a postura indiana diante das guerras que atravessam o BRICS — e também o que aconteceu neste sábado, 12 de setembro, no primeiro dia da reunião de líderes em Nova Delhi.

A cúpula começou com uma conquista diplomática que poucos meses atrás parecia difícil. Os membros aprovaram por unanimidade a Declaração de Nova Delhi, expressando “profunda preocupação” com a escalada no Oriente Médio, pedindo máxima contenção e defendendo a resolução das disputas internacionais por diálogo, consulta e diplomacia. A declaração também manifesta preocupação com medidas tarifárias e não tarifárias unilaterais que distorcem o comércio internacional. O consenso tem peso porque dentro da mesma organização estão o Irã, diretamente em guerra com Estados Unidos e Israel, e Emirados Árabes Unidos, aliado de Washington e envolvido em confrontos com Teerã. Em maio, uma reunião de chanceleres do próprio BRICS havia terminado sem consenso justamente por causa dessas divergências.

O documento foi além. Os líderes manifestaram oposição ao deslocamento forçado dos palestinos e defenderam a prevenção de uma ampliação das guerras que atravessam o sistema internacional. A formulação não transforma o BRICS numa aliança militar nem significa que seus integrantes possuam uma posição idêntica sobre todos os conflitos. Ao contrário: o significado político está precisamente no fato de países com interesses contraditórios terem conseguido estabelecer um denominador comum em defesa da contenção, da negociação e do multilateralismo.

A Índia ocupa posição central nessa construção. Antes da abertura formal da cúpula, Narendra Modi reuniu-se separadamente com Vladimir Putin e com o presidente iraniano Masoud Pezeshkian. Com Putin, discutiu os conflitos no Oriente Médio e na região do Mar Negro e seus impactos sobre o comércio marítimo e a segurança dos tripulantes indianos. Diante de Pezeshkian, Modi enfatizou liberdade de navegação, comércio e proteção das tripulações. Nos dois casos, a mensagem foi semelhante: Nova Delhi pretende preservar seus interesses nacionais sem transformar suas relações com uma potência em instrumento contra outra.

Essa posição precisa ser compreendida materialmente. Para uma economia do tamanho da Índia, guerras no Golfo, bloqueios marítimos e instabilidade energética não são questões distantes de política externa. São problemas de desenvolvimento. Energia mais cara significa pressão inflacionária, aumento dos custos industriais, deterioração das contas externas e impacto sobre centenas de milhões de consumidores. Interrupções em Hormuz, no Mar Vermelho ou em Bab al-Mandeb atravessam cadeias logísticas das quais dependem as economias asiáticas. É por isso que a defesa indiana da liberdade de navegação aparece reiteradamente nas conversas realizadas em Nova Delhi.

Ao mesmo tempo, a Índia não abandonou sua relação com a Rússia para se adequar às exigências geopolíticas ocidentais. Moscou continua sendo parceiro estratégico e fornecedor relevante de energia e equipamentos militares. Mas Nova Delhi também mantém diálogo com Kiev: o chanceler Subrahmanyam Jaishankar esteve recentemente na Ucrânia, e Modi continua defendendo que a guerra seja resolvida diplomaticamente. Essa combinação explica a política indiana muito melhor do que as categorias tradicionais de “pró-Rússia” ou “pró-Ocidente”. A Índia procura maximizar seu espaço de decisão dentro de um sistema internacional cada vez mais fragmentado.

Talvez nenhuma imagem simbolize melhor essa estratégia do que a chegada de Xi Jinping a Nova Delhi. É a primeira visita do presidente chinês à Índia em sete anos. Modi e Xi reuniram-se neste sábado e defenderam a ampliação das relações empresariais, da conectividade e da circulação entre os dois países, além da necessidade de preservar a estabilidade na fronteira do Himalaia. A aproximação não elimina a rivalidade: os dois países continuam mantendo grandes contingentes militares ao longo de aproximadamente 3.800 quilômetros de fronteira disputada, e a Índia enfrenta um déficit comercial superior a US$ 100 bilhões com a China. Ainda assim, depois do confronto mortal de 2020, a reconstrução gradual dos canais entre as duas maiores populações do mundo possui significado geopolítico considerável.

É aí que a cúpula indiana começa a revelar algo maior. O BRICS não está construindo uma frente homogênea contra o Ocidente. A Índia não deseja isso. Tampouco os Emirados Árabes Unidos ou outros integrantes da organização possuem necessariamente esse objetivo. A própria expansão do grupo tornou qualquer alinhamento automático praticamente impossível. O que está surgindo é uma plataforma na qual Estados com interesses diferentes procuram aumentar sua margem de negociação diante de uma ordem internacional historicamente concentrada em instituições, moedas, sistemas financeiros e mecanismos de poder dominados pelas potências ocidentais.

Essa diferença é fundamental. O sucesso do BRICS não precisa necessariamente ser medido pela capacidade de substituir o G7, criar uma OTAN alternativa ou abandonar imediatamente o dólar. Uma interpretação mais consistente é perguntar se a organização aumenta as alternativas disponíveis para seus integrantes. Pesquisadores ouvidos pela Al Jazeera resumiram esse argumento: mesmo sem possuir a institucionalidade das organizações internacionais tradicionais, o BRICS oferece aos países do Sul Global uma plataforma adicional para cooperação e para reduzir sua dependência de estruturas controladas pelo Ocidente.

Isso explica por que a guerra contra o Irã representa simultaneamente uma crise e um teste para o grupo. Teerã gostaria de uma posição muito mais dura contra Washington e Israel. Outros membros não estão dispostos a acompanhá-lo nesse grau. Os Emirados possuem interesses diretamente conflitantes com os iranianos, enquanto Índia, Brasil e outros integrantes procuram preservar capacidade diplomática com diferentes lados. A expansão que aumentou enormemente o peso econômico e demográfico do BRICS também aumentou suas contradições internas.

A Declaração de Nova Delhi é importante justamente porque demonstra que essas contradições não impediram o consenso desta vez. O BRICS não resolveu a guerra, não construiu uma posição militar conjunta e não eliminou as diferenças entre Teerã e Abu Dhabi. Conseguiu algo mais limitado, mas politicamente significativo: produzir uma declaração comum num momento em que um de seus integrantes está em guerra com a principal potência do sistema internacional e outro possui vínculos estratégicos estreitos com essa mesma potência.

Há ainda uma dimensão econômica decisiva. Rússia e Irã têm defendido mecanismos capazes de reduzir a exposição ao dólar e às sanções norte-americanas. A Índia trabalha com uma abordagem mais pragmática, voltada à ampliação de pagamentos em moedas nacionais, interoperabilidade financeira e redução dos custos das transações internacionais. Isso não equivale à criação imediata de uma “moeda do BRICS” nem ao abandono do dólar. Trata-se da construção gradual de redundâncias financeiras: aumentar o número de caminhos disponíveis para que comércio, energia e investimentos continuem funcionando quando uma determinada rota financeira é bloqueada.

Esse princípio ajuda a compreender a importância estratégica do BRICS para o Sul Global. Durante décadas, a concentração das infraestruturas financeiras, tecnológicas e logísticas concedeu às potências centrais capacidade extraordinária de transformar interdependência econômica em instrumento de coerção. Sanções, exclusões de sistemas financeiros, congelamento de ativos, tarifas e controles tecnológicos demonstraram que infraestrutura econômica também é infraestrutura de poder. A reação dos países emergentes não exige necessariamente destruir o sistema existente; pode começar pela criação de caminhos paralelos que reduzam sua vulnerabilidade.

Nova Delhi está tentando posicionar-se precisamente nesse ponto intermediário. Não quer romper com Washington, mas também não aceita que Washington determine suas relações com Moscou, Teerã ou Pequim. Não quer uma aliança militar com a China, mas procura estabilizar a fronteira e recuperar comércio e circulação. Não adere automaticamente às posições russas sobre a Ucrânia, mas mantém a parceria estratégica com Moscou. E não assume integralmente a posição iraniana na guerra, embora rejeite a lógica segundo a qual relações com Teerã devam ser determinadas externamente.

Essa arquitetura produz contradições, mas também revela uma característica cada vez mais importante do mundo multipolar: os países procuram pertencer simultaneamente a diferentes redes de poder sem entregar a nenhuma delas exclusividade sobre sua política externa.

A cúpula de Nova Delhi mostra que o BRICS está se tornando um laboratório dessa transformação. Seus integrantes não precisam concordar sobre tudo para alterar a distribuição internacional de poder. Basta que construam instituições, mecanismos comerciais, sistemas de pagamento, bancos, rotas logísticas e espaços diplomáticos suficientes para ampliar suas possibilidades de escolha.

É por isso que a Índia talvez seja o país que melhor sintetiza a natureza atual do grupo. Nova Delhi não pretende substituir uma dependência ocidental por uma dependência chinesa, nem abandonar Washington para se alinhar automaticamente a Moscou. Seu objetivo é possuir relações suficientes com todos para continuar decidindo por si mesma.

A guerra no Irã, a guerra na Ucrânia, a instabilidade das rotas marítimas, as sanções e a disputa comercial transformaram essa autonomia em algo mais do que uma doutrina diplomática. Transformaram-na numa questão de segurança econômica.

O que está sendo testado em Nova Delhi, portanto, não é apenas se onze países conseguem escrever uma declaração conjunta. A questão mais profunda é se economias do Sul Global, com interesses muitas vezes conflitantes, conseguem construir mecanismos capazes de preservar espaço soberano de decisão num sistema internacional novamente organizado pela coerção, pela guerra e pelo controle das grandes infraestruturas econômicas.

Neste sábado, ao conseguir uma declaração unânime onde meses atrás não havia sequer consenso suficiente para um comunicado conjunto, o BRICS demonstrou que suas contradições continuam enormes — mas também que elas ainda não inviabilizaram o projeto.

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