
A imagem é perfeita para quem acha que as coisas operam em perfeito equilíbrio: o presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, assumindo o papel de bedel do colégio para puxar a orelha do ministro André Mendonça. Ao avocar para si a relatoria da petição que trata das mensagens promíscuas de Daniel Vorcaro, hoje o bandido-Master do país, para o ministro Alexandre de Moraes, Fachin pareceu dar um enquadro público em Mendonça.
Mas o que, à primeira vista, parece uma canetada dura para colocar ordem no recreio do STF, onde ministros trocam estocadas enquanto o país assiste preocupado, um freio de arrumação, pode se revelar, na prática, a mais eficiente tábua de salvação dos objetivos do próprio Mendonça.
Ao tirar o sigilo de um relatório que ele mesmo havia pedido sobre o Moraes, enquanto sentou-se gostosamente por sete meses nos indícios contra Dias Toffoli, entre outros ministros, e afastar a cúpula da Polícia Federal, enquanto blindava a apuração sobre os R$ 134 milhões que Flávio Bolsonaro pediu ao banqueiro, o ministro indicado por Jair Bolsonaro acabou usando a toga para interferir no xadrez eleitoral de 2026 e pavimentar o caminho do primogênito do ex-presidente.
Com essa pecha colada à capa de magistrado (e com um julgamento por abuso de autoridade já batendo à sua porta no próprio tribunal para o dia 23 de setembro), atos defendidos por Mendonça teriam menos chances de prosperar. Seriam mais facilmente desqualificados como vingança partidária, chicana bolsonarista ou puro cálculo eleitoral.

É aí que a mão pesada de Fachin opera o milagre da blindagem.
Ao evocar o regimento interno para puxar o caso para a Presidência da Corte e pautar a decisão do plenário ao vivo para esta terça (15), o presidente do Supremo retira o processo da linha de tiro político. É mais difícil carimbar Fachin, visto como um magistrado metódico e avesso ao palanque, como operador eleitoral.
Ao agir como bedel severo, Fachin não salvou o tribunal de um sangramento descontrolado nas mãos de um relator sob suspeita, mas garantiu mais chances às teses defendidas por Mendonça. Se o plenário decidir abrir investigação contra Moraes, a decisão virá sob a chancela institucional da chefia do STF.
Isto não significa que Moraes não deva ser investigado por tudo o que aconteceu, inclusive pelo contrato de R$ 130 milhões de sua esposa com o próprio Vorcaro. Mas há duas questões preocupantes: o uso da corte para corrupção, de um lado, e instrumentalização da corte para manipulação das eleições, do outro — sendo que parece que só a primeira comove muita gente.
Tampouco significa que Fachin tenha lado na disputa eleitoral, não acredito que tenha. O que estou fazendo aqui é analisar a consequência do ato.
E contra o carimbo do presidente da Casa, fica muito mais difícil gritar que há uma interferência eleitoral com a ajuda de atores do Poder Judiciário, apesar de ela estar em curso.