Da Redação
Apartamento de luxo na Vila Nova Conceição foi comprado por Fabiano Zettel por R$ 5,5 milhões e vendido menos de um ano depois por R$ 3,5 milhões à empresa do advogado Willer Tomaz; semanas depois, moradores relatam presença de Flávio e de agentes da Polícia Legislativa no local. Campanha diz que candidato esteve no imóvel como convidado e que não houve cessão formal
Uma nova conexão entre o entorno do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro e personagens investigados no universo do Banco Master surgiu nesta quarta-feira, 16 de setembro. Durante a primeira quinzena de agosto, Flávio utilizou em São Paulo um apartamento que havia pertencido a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e apontado pela Polícia Federal como um de seus principais operadores financeiros. Quando o candidato esteve no local, entretanto, o imóvel já não pertencia a Zettel: havia sido adquirido meses antes pela WT Administração de Imóveis e Bens, empresa do advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio. A informação foi revelada pela revista piauí e confirmada por relatos de moradores e de uma funcionária de uma escola próxima ao edifício.
O dado mais importante para compreender o episódio está na cronologia patrimonial. Zettel comprou o apartamento, de 158 metros quadrados e três vagas de garagem, em 17 de abril de 2025 por R$ 5,5 milhões. Segundo os documentos examinados pela imprensa, ele nunca chegou a morar no imóvel. Em 10 de fevereiro de 2026, menos de dez meses depois, vendeu a propriedade à WT Administração de Imóveis e Bens por R$ 3,5 milhões — R$ 2 milhões abaixo do preço pelo qual havia adquirido o apartamento. A escritura registra pagamento de R$ 2 milhões à vista e três parcelas mensais de R$ 500 mil, concluídas em maio.
Willer Tomaz sustenta que a operação foi regular. Em nota divulgada anteriormente, afirmou que a aquisição ocorreu por intermédio de corretores, numa negociação de mercado, com certidões negativas do imóvel e do vendedor, e que preço e forma de pagamento foram integralmente registrados na escritura pública. O advogado também declarou não conhecer pessoalmente Zettel nem Vorcaro e negou ter mantido relação comercial com eles ou com pessoas ligadas aos dois. A diferença de R$ 2 milhões entre compra e venda chama atenção e pode ser examinada, mas o deságio, por si só, não comprova simulação, lavagem de dinheiro ou qualquer outro ilícito.
É depois dessa transação que Flávio entra diretamente na história do apartamento. A piauí apurou que o candidato esteve repetidamente no edifício durante a primeira metade de agosto, período em que realizava atividades eleitorais em São Paulo. Moradores perceberam movimentação associada à sua presença, incluindo agentes da Polícia Legislativa responsáveis por sua segurança. Uma funcionária de uma escola localizada nas proximidades também relatou ter visto o candidato deixando o prédio. A reportagem situa o uso do apartamento entre compromissos da campanha presidencial.
A versão da campanha é que Flávio esteve no imóvel como convidado de Willer Tomaz. Seus representantes negaram que tenha existido cessão formal do apartamento à campanha ou utilização que devesse ser registrada como doação eleitoral. Esse ponto é juridicamente relevante. Uma coisa é um candidato visitar ou permanecer ocasionalmente na residência de um amigo; outra é um imóvel ser disponibilizado sistematicamente como estrutura de campanha. Nesta segunda hipótese, dependendo das circunstâncias e da legislação aplicável, podem surgir questões sobre contabilização e prestação de contas. A informação disponível até agora não permite concluir, apenas pela presença de Flávio no local, que tenha existido doação eleitoral irregular.
O episódio adquire peso maior porque não aparece isoladamente. Willer Tomaz é descrito pela piauí como amigo de Flávio e já teve outros bens utilizados pelo candidato ou por pessoas de seu círculo. Reportagem anterior da Folha mostrou que o advogado possui cotas de uma residência em Angra dos Reis administrada pela Prime You, empresa de compartilhamento de bens de luxo da qual Daniel Vorcaro foi sócio. Segundo aquela apuração, Flávio utilizou a casa neste ano para comemorar o aniversário de sua filha. Tomaz afirmou que possuía apenas participação minoritária numa estrutura de propriedade compartilhada e que procurou encerrar a relação com a Prime depois da exposição envolvendo a companhia.
Também existem relações anteriores entre bens de Tomaz e a Prime You. A Folha informou que imóveis e aeronaves vinculados ao advogado foram administrados pela empresa. Dados da Agência Nacional de Aviação Civil citados pela reportagem ainda registravam um helicóptero ligado a Tomaz sob operação da Prime You, embora o advogado tenha afirmado que não mantém mais bens sob administração da companhia e esteja buscando encerrar a relação por arbitragem. Vorcaro deixou formalmente a sociedade da Prime em setembro de 2025.
Tomaz, por sua vez, aparece em outra investigação da Polícia Federal, relacionada às suspeitas de fraudes contra o INSS e ao senador Weverton Rocha. Segundo a PF, o advogado teria funcionado como um “hub financeiro, patrimonial e logístico” do senador. Tomaz e pessoas citadas nessa investigação contestam interpretações de irregularidade e sustentam que suas operações possuem origem profissional e empresarial regular. O fato de ele ser investigado em outro caso não transforma automaticamente a compra do apartamento de Zettel ou sua amizade com Flávio em atos ilícitos.
A figura que conecta o imóvel diretamente ao universo Master é Fabiano Zettel. Ele é casado com Natalia Zettel, irmã de Daniel Vorcaro, e foi diretor da Super Empreendimentos. A Polícia Federal o aponta como operador financeiro de Vorcaro e investiga movimentações de centenas de milhões de reais relacionadas à empresa. Zettel chegou a ser alvo da Operação Compliance Zero e encontra-se submetido às medidas determinadas judicialmente no conjunto das investigações. Essas são imputações e hipóteses investigativas da PF, ainda sujeitas ao devido processo e à defesa.
Zettel também já apareceu diretamente no financiamento político do campo bolsonarista. Segundo registros eleitorais anteriormente divulgados, ele foi doador de campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. No caso do atual governador paulista, reportagens registram doação de R$ 2 milhões feita por Zettel na eleição de 2022. A existência de uma doação oficialmente registrada não demonstra irregularidade; torna-se politicamente relevante agora porque o doador posteriormente passou a ocupar posição central nas investigações relacionadas a Vorcaro.
É a sucessão dessas relações que torna o apartamento mais relevante do que seria uma simples hospedagem durante a campanha. O imóvel pertenceu a Zettel; foi comprado pela empresa de Tomaz com deságio de R$ 2 milhões; Tomaz é próximo de Flávio; semanas depois da conclusão dos pagamentos da aquisição, o candidato utilizou o apartamento durante atividades eleitorais em São Paulo. Esses fatos são documentáveis. O que não está demonstrado é que Zettel tenha transferido o imóvel a Tomaz para beneficiar Flávio ou que Vorcaro tenha participado da disponibilização do apartamento ao candidato. Fazer essa passagem sem provas significaria transformar uma sequência de relações em uma relação causal que a documentação pública ainda não estabelece.
Essa cautela é particularmente necessária porque Flávio já possui uma relação documentada, e muito mais direta, com Vorcaro em outra frente: o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. A Polícia Federal reuniu mensagens, telefonemas e encontros entre o senador e o então controlador do Banco Master ao investigar recursos destinados ao projeto. Os documentos mostram contatos diretos entre Flávio e Vorcaro durante 2025. Flávio sustenta que o financiamento do filme foi uma operação privada e regular e vem afirmando durante a campanha que já prestou os esclarecimentos necessários.
Por isso, o novo episódio não cria do zero uma associação entre o candidato e o universo de Vorcaro. Ele acrescenta outra conexão patrimonial indireta a uma relação que já vinha sendo examinada pela Polícia Federal por motivos distintos. E justamente por isso é necessário não misturar as duas coisas: o financiamento de Dark Horse possui documentos, transferências e comunicações próprios; o apartamento da Vila Nova Conceição possui outra cadeia de propriedade e outra questão a ser esclarecida.
A principal pergunta sobre o imóvel é relativamente objetiva: qual foi exatamente a natureza de sua utilização pela campanha? Se funcionou como residência ocasional disponibilizada por um amigo, essa circunstância possui um enquadramento. Se serviu regularmente como escritório, base logística, local de reuniões ou hospedagem de campanha, podem surgir outras questões sobre registro e contabilização eleitoral. A frequência da utilização, a finalidade dos encontros realizados no apartamento, eventuais despesas e a participação da estrutura oficial de segurança são elementos capazes de esclarecer essa diferença.
Há uma segunda pergunta independente: por que Zettel vendeu por R$ 3,5 milhões um apartamento adquirido menos de um ano antes por R$ 5,5 milhões? Willer Tomaz afirma que se tratou de negociação regular de mercado e que tudo está formalizado em escritura. A diferença de preço pode ter explicações econômicas legítimas; também pode ser objeto de escrutínio diante das investigações que alcançam o antigo proprietário. Somente documentação financeira, avaliação do imóvel e eventual investigação podem determinar se o preço possui algum significado além de uma operação imobiliária desfavorável para o vendedor.
O que emerge é uma rede de relações que precisa ser investigada por atos concretos, e não por culpa por associação. Vorcaro, Zettel, Tomaz e Flávio aparecem conectados por diferentes relações empresariais, patrimoniais ou pessoais, mas cada conexão possui natureza própria. O simples fato de um bem ter pertencido anteriormente ao cunhado de Vorcaro não torna irregular seu uso posterior pelo candidato. Ao mesmo tempo, a combinação entre propriedade anterior, venda com forte diferença de preço, proximidade do novo proprietário com Flávio e utilização do bem durante a campanha justifica perguntas e transparência.
A revelação surge num momento especialmente sensível para Flávio. O caso Master já ocupa parte importante da campanha presidencial, enquanto o candidato intensifica críticas ao STF e procura relacionar Alexandre de Moraes ao governo Lula. Ao mesmo tempo, ele próprio responde a questionamentos sobre seus contatos com Vorcaro e sobre o financiamento de Dark Horse. Nesta quarta-feira, a disputa em torno do Master voltou a aparecer nas agendas eleitorais dos principais candidatos.
O apartamento da Vila Nova Conceição, portanto, não constitui sozinho prova de financiamento clandestino, lavagem de dinheiro ou favorecimento eleitoral. A notícia é relevante por algo mais preciso: um imóvel comprado pelo cunhado e apontado operador financeiro de Vorcaro por R$ 5,5 milhões, vendido dez meses depois por R$ 3,5 milhões a uma empresa de um advogado próximo de Flávio Bolsonaro, acabou sendo utilizado pelo candidato durante sua campanha presidencial em São Paulo.
Entre essa sequência documental e qualquer conclusão criminal existe uma distância que precisa ser preenchida por evidências. Mas a sequência já é suficientemente concreta para exigir esclarecimentos sobre a transação imobiliária e, sobretudo, sobre a natureza do uso eleitoral do apartamento. Num caso em que relações pessoais, dinheiro, propriedades e acesso político aparecem cada vez mais interligados, distinguir coincidência, relacionamento legítimo e eventual irregularidade é precisamente a tarefa que documentos, perícias e investigações deverão cumprir.