O debate entre os candidatos ao governo de São Paulo na TV Globo, realizado na noite desta terça-feira (29), colocou em evidência duas visões antagônicas para o futuro do estado. Com uma postura firme e fundamentada em dados, Fernando Haddad (PT) encurralou o atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao expor as fragilidades da gestão estadual, o desmonte dos serviços públicos essenciais e a falta de transparência nas concessões fiscais.
O ponto alto do confronto ocorreu no bloco dedicado à economia e gestão fiscal. Haddad cobrou transparência sobre a política de incentivos do governo estadual, apontando a existência de privilégios não explicados. “O Tribunal de Contas diz que a renúncia fiscal em São Paulo é uma caixa-preta. Abra as contas, CNPJ por CNPJ de todos os bilionários que têm algum tipo de incentivo”, exigiu Haddad, classificando a medida de “Bolsa Empresário”. Diante do questionamento direto sobre a manutenção desse sigilo em um eventual segundo mandato, Tarcísio esquivou-se e não apresentou justificativas para a falta de publicidade dos dados.
A fragilidade das respostas do atual governador também ficou evidente no debate sobre a educação paulista. Haddad confrontou o adversário sobre o descumprimento das metas de ensino integral e a queda nos índices de alfabetização, lembrando que São Paulo registrou 61% de crianças alfabetizadas na idade certa, ficando abaixo da média nacional de 66%. Questionado se havia entregado os 60% de matrículas em tempo integral prometidos em 2022, Tarcísio limitou-se a mencionar premiações formais do Ministério da Educação. “Selo ouro? Ninguém sabe o significado disso. Fugir do problema não é bom. Portanto, não entregou”, rebateu o ex-ministro da Educação.
No campo do transporte público e das privatizações, Haddad criticou os impactos das concessões aceleradas na rotina dos trabalhadores e questionou o encarecimento das tarifas para quem precisa de múltiplas conduções diariamente. “Você entregou a CPTM para gente que não entende de trem, que está explodindo trem”, afirmou, citando também as falhas na Sabesp e a alta nas contas de água após a desestatização. Tarcísio justificou que as privatizações buscam “melhorar o serviço”, mas não apresentou soluções para o aumento de 27% nas paralisações do sistema ferroviário concedido.
A segurança pública e a infiltração do crime organizado na estrutura política estadual dominaram as discussões do primeiro bloco. Haddad cobrou explicações sobre as alianças locais do governador com alvos de investigações policiais na capital paulista. “Ninguém te informou que você não deveria subir no palanque para pedir voto para uma pessoa que 15 dias depois seria presa?”, questionou Haddad ao se referir ao ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite, aliado do governador e suspeito de integrar quadrilha de criminosos no sistema de transporte paulistano. Neste tema, Haddad também cobrou o governador sobre a presença do Comando Vermelho em Piracicaba e a alta nos índices de feminicídio. Tarcísio alegou tratar-se de um “problema nacional”, sem detalhar medidas para coibir a expansão do crime nas instituições públicas.
Ao longo do encontro, Haddad contrapôs as promessas não cumpridas da atual gestão com propostas para a criação do Bilhete Integrado no transporte metropolitano, a recomposição do ensino público e a revisão do modelo de privatizações a toque de caixa praticado no estado.