Secretário-geral tenta preservar unidade da aliança depois de países europeus recusarem participação direta na guerra conduzida por Estados Unidos e Israel; crise levou Trump a discutir retirada de tropas de países considerados pouco cooperativos
Da Redação
A guerra contra o Irã expôs uma divisão que a OTAN tentou durante meses administrar sem permitir que ela se transformasse numa crise aberta. O secretário-geral da aliança, Mark Rutte, reconheceu que alguns países europeus “falharam” quando foram pressionados pelos Estados Unidos a apoiar a campanha militar contra Teerã, mas sustenta que a maioria dos integrantes permaneceu ao lado de Washington. A tentativa de equilibrar essas duas afirmações revela o tamanho do problema que surgiu dentro da principal aliança militar ocidental.
O conflito iraniano produziu uma situação incomum. Os Estados Unidos, potência central da OTAN, entraram numa guerra ao lado de Israel e esperavam apoio mais amplo dos aliados europeus. Diversos governos, entretanto, recusaram participar diretamente das operações ofensivas. Alguns ofereceram apoio logístico, inteligência ou proteção defensiva. Outros procuraram manter distância da campanha militar.
Donald Trump reagiu publicamente.
O presidente americano acusou aliados de não ajudarem os Estados Unidos quando Washington precisava deles e chegou a discutir mudanças na presença militar americana na Europa. A possibilidade considerada pela administração Trump incluía retirar tropas ou reduzir contingentes estacionados em países que a Casa Branca julgava pouco cooperativos durante a guerra contra o Irã e transferi-los para aliados considerados mais confiáveis.
A crise colocou Rutte numa posição particularmente difícil.
Como secretário-geral, ele precisava preservar a unidade da OTAN. Ao mesmo tempo, precisava administrar um presidente americano que questionava abertamente por que os Estados Unidos deveriam continuar oferecendo proteção militar a países que haviam se recusado a participar de uma guerra considerada importante por Washington.
Rutte escolheu aproximar-se da posição americana.
Em abril, questionado sobre se integrantes da OTAN haviam sido testados pela guerra e fracassado, respondeu que alguns deles, sim. Posteriormente, tentou reduzir a dimensão da divergência, afirmando que a maioria dos europeus havia cumprido aquilo que anteriormente prometera fazer numa situação dessa natureza.
O problema é que a guerra contra o Irã nunca foi uma operação formal da OTAN.
E essa distinção está no centro de toda a crise.
A OTAN não entrou na guerra, mas sua infraestrutura entrou na equação
O Artigo 5 do Tratado do Atlântico Norte estabelece o princípio da defesa coletiva diante de um ataque contra um integrante da aliança. Isso não significa que todos os membros sejam automaticamente obrigados a participar de qualquer guerra iniciada por um dos aliados fora desse contexto.
Foi justamente aí que surgiram as divergências.
Governos europeus argumentaram que a guerra contra o Irã não poderia ser simplesmente transformada numa obrigação coletiva da OTAN. Washington e Israel haviam iniciado suas operações militares contra Teerã em fevereiro. Diversos países europeus não aceitaram participar diretamente dos ataques.
Isso não impediu que a infraestrutura militar americana instalada na Europa adquirisse importância para a campanha.
Bases, aeroportos, sistemas logísticos, reabastecimento, transporte e outras estruturas utilizadas pelos Estados Unidos estão espalhados pelo continente. A questão deixou então de ser apenas se determinado país enviaria seus próprios caças para bombardear o Irã. Passou a ser também se permitiria que território sob sua soberania fosse utilizado para sustentar operações americanas.
Foi nessa discussão que Rutte entrou em confronto até mesmo com governos considerados próximos de Washington.
O caso italiano tornou-se particularmente revelador.
Em junho, Rutte afirmou que aproximadamente 500 aeronaves americanas haviam partido de bases localizadas na Itália para apoiar a Operação Epic Fury, nome utilizado por Washington para sua campanha militar contra o Irã.
O governo italiano reagiu.
Roma declarou que havia autorizado apenas operações técnicas e logísticas e insistiu que não permitira que o território italiano fosse utilizado para ataques diretos contra o Irã.
A divergência não era pequena.
Tratava-se de saber se um país europeu havia ou não participado materialmente de uma guerra.
O episódio mostrou também como a enorme presença militar americana na Europa produz uma zona politicamente delicada entre decisão nacional e estratégia dos Estados Unidos. Um governo pode rejeitar participação direta numa operação e, ao mesmo tempo, abrigar bases utilizadas pela potência que conduz essa mesma guerra.
É justamente essa arquitetura que Trump passou a questionar.
Trump transformou proteção militar em instrumento de pressão
A reação da Casa Branca foi muito além de reclamações diplomáticas.
A administração Trump começou a examinar a distribuição das forças americanas estacionadas na Europa. Uma revisão conduzida pelo Pentágono analisa diferentes opções para modificar contingentes, localizações e velocidade de eventuais mudanças na presença militar dos Estados Unidos.
Cerca de 80 mil militares americanos permanecem posicionados na Europa.
Entre os critérios considerados na revisão estão gastos militares dos aliados, deficiências na estrutura de forças da OTAN e condições oferecidas pelos países para o acesso das tropas americanas.
A guerra contra o Irã paira sobre essa discussão.
Governos europeus temem que Washington utilize a reorganização das tropas como mecanismo para recompensar países que apoiaram sua campanha militar e punir aqueles que resistiram às exigências americanas.
Esse é um ponto fundamental porque altera parcialmente a lógica tradicional da aliança.
Durante décadas, a presença militar americana na Europa foi apresentada como componente de uma estratégia coletiva de segurança destinada principalmente a conter a União Soviética e, posteriormente, a Rússia. Se tropas passam a ser deslocadas também em função do grau de apoio oferecido pelos governos europeus às guerras americanas fora do continente, a relação ganha outro significado político.
A proteção oferecida por Washington passa a funcionar também como instrumento de disciplina entre aliados.
Trump nunca escondeu sua insatisfação com aquilo que considera uma distribuição desigual dos custos da OTAN. Desde seu primeiro mandato, cobra aumentos expressivos nos gastos militares europeus e ameaça reduzir o compromisso americano caso os aliados não assumam parcela maior das despesas.
A guerra iraniana acrescentou uma nova dimensão a essa cobrança.
Já não se trata apenas de quanto cada país gasta.
Trata-se também de saber até onde cada governo está disposto a acompanhar militarmente Washington.
Rutte se colocou ao lado da estratégia americana
O posicionamento do secretário-geral tornou-se ainda mais claro em julho.
Depois que os Estados Unidos realizaram uma nova rodada de ataques contra o Irã, Rutte classificou a ação americana como “absolutamente necessária”. Washington sustentava que Teerã havia violado um cessar-fogo e relacionou sua ofensiva a ataques contra navios no Estreito de Ormuz.
Rutte adotou essa interpretação e afirmou que uma reação forte dos Estados Unidos era crucial.
Teerã respondeu acusando a OTAN de cumplicidade na guerra.
A posição iraniana obviamente representa a interpretação de uma das partes diretamente envolvidas no conflito. Formalmente, a OTAN não declarou guerra ao Irã nem conduziu a campanha como operação coletiva.
Mas a crítica iraniana encontra um elemento político concreto: o principal dirigente da aliança não adotou neutralidade sobre a guerra. Rutte defendeu ataques americanos e trabalhou para reduzir a crise entre Trump e os governos europeus resistentes à participação militar.
A atuação do secretário-geral mostra a dependência estrutural da OTAN em relação aos Estados Unidos.
Washington continua fornecendo capacidades que os europeus teriam enorme dificuldade de substituir rapidamente, incluindo inteligência, logística estratégica, defesa antimísseis, transporte pesado e dissuasão nuclear.
Rutte conhece essa realidade.
Sua prioridade durante a crise foi impedir que a irritação de Trump produzisse uma ruptura duradoura na relação transatlântica.
Para isso, utilizou uma combinação de elogios ao presidente americano e pressão sobre os europeus.
O resultado foi uma posição curiosa.
A aliança formalmente não estava em guerra contra o Irã.
Seu secretário-geral, porém, defendia ataques americanos contra o país.
A guerra revelou os limites do Artigo 5
Existe ainda uma questão mais profunda.
A guerra iraniana obrigou os europeus a perguntar até onde realmente vai a obrigação de solidariedade militar com os Estados Unidos.
A resposta não é ilimitada.
O Artigo 5 não transforma a OTAN num mecanismo pelo qual Washington pode iniciar uma guerra em qualquer região e automaticamente convocar todos os integrantes para participar.
Essa distinção explica por que diversos aliados conseguiram rejeitar participação direta sem abandonar a organização.
Também explica a frustração de Trump.
Do ponto de vista da Casa Branca, os Estados Unidos oferecem há décadas enormes recursos militares para defender a Europa. Quando Washington enfrentou uma guerra considerada estratégica no Oriente Médio, esperava reciprocidade maior.
Parte dos europeus respondeu que a defesa coletiva da OTAN não funciona dessa maneira.
A divergência toca numa contradição antiga da aliança.
Para os europeus, a presença americana funciona principalmente como garantia contra ameaças à segurança continental, sobretudo a Rússia.
Para Washington, a aliança também constitui uma infraestrutura global de poder capaz de ampliar a capacidade dos Estados Unidos de operar muito além da Europa.
Enquanto esses dois objetivos coincidem, a contradição permanece administrável.
Quando deixam de coincidir, ela aparece.
O Irã fez essa diferença aparecer.
A Europa continua dependente dos Estados Unidos
Apesar da resistência de alguns governos à guerra, não ocorreu uma ruptura com Washington.
Pelo contrário.
A deterioração das relações com a Rússia desde 2022 aumentou a dependência europeia da proteção militar americana. Finlândia e Suécia entraram na OTAN. Países do leste europeu aumentaram fortemente seus gastos de defesa. A presença militar dos Estados Unidos permanece central para os planos de segurança do continente.
É justamente essa dependência que oferece a Trump enorme capacidade de pressão.
Um país europeu pode recusar participação numa guerra americana contra o Irã.
Mas precisa considerar simultaneamente que depende dos Estados Unidos para parte significativa da arquitetura militar destinada a protegê-lo de uma eventual guerra com a Rússia.
Washington conhece essa vulnerabilidade.
E Trump está disposto a utilizá-la politicamente de maneira muito mais explícita que seus antecessores.
A revisão da presença militar americana na Europa demonstra que essa ameaça não ficou apenas no discurso. O Pentágono prepara opções concretas de redistribuição de tropas.
Ainda não existe decisão final sobre reduções em grande escala, e seria incorreto afirmar que Washington já resolveu abandonar determinados países.
Mas a possibilidade entrou formalmente no planejamento.
O Irã expôs uma aliança com interesses diferentes
A guerra revelou algo que décadas de comunicados diplomáticos frequentemente escondem.
Os integrantes da OTAN compartilham interesses importantes, mas não possuem interesses idênticos.
Polônia e países bálticos concentram sua atenção na Rússia.
Países do sul da Europa enfrentam preocupações diferentes no Mediterrâneo e no norte da África.
Turquia possui sua própria estratégia no Oriente Médio.
Os Estados Unidos operam numa escala global e tratam China, Rússia e Irã dentro de uma arquitetura estratégica muito mais ampla.
Quando Washington decidiu transformar Teerã num teatro de guerra direta, essas diferenças vieram à superfície.
Alguns aliados acompanharam.
Outros ajudaram parcialmente.
Alguns resistiram.
Rutte tenta apresentar essas divergências como exceções dentro de uma aliança fundamentalmente unida.
Trump enxerga a situação de maneira mais dura e pergunta por que os Estados Unidos deveriam manter o mesmo nível de compromisso com países que não os acompanharam quando Washington considerou precisar deles.
Essa diferença permanece sem solução.
E pode reaparecer numa escala ainda maior caso a guerra contra o Irã volte a escalar.
Teerã está preparando opções para uma resposta mais ampla se os Estados Unidos retomarem ataques de grande intensidade. Autoridades iranianas disseram que os planos estudados podem atingir não apenas forças americanas, mas também países que ofereçam apoio operacional à campanha de Washington.
Isso coloca os governos europeus diante exatamente do dilema que tentaram evitar.
Permitir o uso de bases pode transformá-los em participantes materiais do conflito.
Recusar esse uso pode aprofundar a crise com Washington.
E participar diretamente significa entrar numa guerra cujas consequências militares, energéticas e econômicas são difíceis de calcular.
A OTAN sobreviveu à primeira grande fratura provocada pelo conflito.
Mas não resolveu a contradição que a produziu.
Rutte conseguiu preservar a linguagem da unidade enquanto reconhecia que alguns aliados haviam falhado no teste imposto por Washington. Trump, por sua vez, deixou claro que está disposto a relacionar a proteção americana ao comportamento dos europeus.
Por isso, a guerra contra o Irã produziu um efeito que ultrapassa o Oriente Médio.
Ela colocou uma pergunta incômoda no centro da OTAN: a aliança existe apenas para defender seus integrantes quando são atacados ou seus membros também devem acompanhar os Estados Unidos quando Washington decide travar uma guerra fora do território da organização?
A resposta dos europeus, até agora, não foi única.
E essa talvez seja precisamente a fratura que Rutte tenta impedir que se transforme numa crise permanente.
#OTAN #NATO #MarkRutte #DonaldTrump #Irã #EstadosUnidos #Europa #GuerraNoIrã #Geopolítica #OrienteMédio