
Auxiliares do presidente Lula avaliam como “muito grave” o relatório do governo Donald Trump que acusou o Brasil de falhar no combate ao PCC e ao Comando Vermelho. A leitura na área internacional do governo é que o documento pode abrir uma brecha para ações militarizadas dos Estados Unidos contra o Brasil à revelia do direito internacional.
Segundo o g1, o relatório teria sido encaminhado ao Congresso estadunidense na terça-feira (15) e cobra do Brasil, “com urgência”, medidas consideradas mais duras contra as duas facções. O texto afirma que, enquanto outros governos do hemisfério estariam adotando providências contra cartéis, Brasília não enfrentaria adequadamente PCC e CV, classificados recentemente pelos Estados Unidos como organizações terroristas.
O ponto que elevou a preocupação no governo brasileiro é a associação feita por Washington entre crime organizado, narcotráfico e segurança nacional dos Estados Unidos. Auxiliares avaliam que esse enquadramento pode servir de fundamento político para medidas que ultrapassem sanções financeiras ou cooperação policial e avancem sobre a soberania de outros países.
Integrantes do governo citam como precedente o caso da Venezuela. Nicolás Maduro foi capturado pelos Estados Unidos em janeiro após Washington acusá-lo de envolvimento com narcoterrorismo e tráfico de drogas. A comparação não significa que exista uma operação militar preparada contra o Brasil, mas explica a gravidade atribuída pelo Planalto ao novo documento.

O governo brasileiro rejeitou a acusação de falhas ou omissões no combate às facções e ressaltou que o país sequer integra a lista formal de 23 nações classificadas pelos Estados Unidos como grandes produtoras ou rotas de trânsito de drogas. O Ministério da Justiça também citou a Lei Antifacção, operações contra o crime organizado e a cooperação existente entre Brasília e Washington.
O temor de uma ação externa não surgiu agora. Em julho, o Departamento de Estado chamou de “absurda” a preocupação brasileira com uma intervenção militar e afirmou que a classificação de PCC e CV como terroristas não autorizava automaticamente o emprego das Forças Armadas estadunidenses no território brasileiro.
Nesta quinta-feira (17), o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, voltou a rebater Trump e afirmou que os números das operações brasileiras tornam inconsistente a acusação de omissão. Segundo ele, o país atravessa o momento de maior integração entre forças federais, estaduais e municipais no combate às organizações criminosas. O relatório, porém, mantém acesa no governo a preocupação com o uso do narcotráfico como argumento para ampliar a pressão de Washington sobre o Brasil.