Ao visitar nesta quinta-feira (17) o complexo industrial da Eurofarma em Montes Claros (MG), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou uma concepção de desenvolvimento em que saúde pública, indústria nacional, inovação tecnológica e soberania caminham juntas. Para ele, o Sistema Único de Saúde (SUS), além de garantir o direito à saúde, constitui um dos principais instrumentos de indução da indústria brasileira.
“Quando nós criamos a Nova Indústria Brasil, nós só podemos pensar em criar uma indústria de saúde aqui no Brasil porque nós temos um extraordinário consumidor, que é o SUS”, afirmou.
Na visão apresentada pelo presidente, a existência de um sistema público universal cria uma demanda permanente por medicamentos, equipamentos e tecnologias. Essa demanda, por sua vez, dá segurança para que empresas invistam na produção nacional.
“A necessidade que ele tem de investir nessa fábrica é saber que tem consumidor para o produto que vai fazer. E o SUS é a garantia de que, ao fazer o remédio, o SUS compra para entregar de graça para o povo brasileiro”, disse Lula.
É essa relação entre direito social e política industrial que o presidente colocou no centro da visita à fábrica.
Saúde como direito e como vetor de desenvolvimento
Lula recuperou a origem constitucional do SUS, do qual participou como deputado constituinte em 1988, e contrapôs a ideia de saúde como direito à lógica de acesso condicionada à renda.
“Saúde é um direito de todos, não um privilégio de quem tem dinheiro”, afirmou, ao relembrar uma orientação dada em seu primeiro governo.
Ao falar do Farmácia Popular, destacou que o programa atende indistintamente quem precisa do medicamento prescrito. Na avaliação do presidente, a universalidade do SUS é também uma forma de reduzir desigualdades sociais.
O presidente também associou o fortalecimento do SUS à experiência da pandemia de Covid-19. Para ele, a crise sanitária demonstrou a importância da existência de uma estrutura pública capaz de mobilizar profissionais, hospitais, medicamentos e equipamentos em escala nacional.
A defesa do sistema público apareceu, assim, vinculada a uma segunda dimensão do discurso: um país que pretende ser soberano não pode depender integralmente de fornecedores externos para atender necessidades básicas de sua população.
Da indústria farmacêutica aos minerais críticos
A lógica apresentada em Montes Claros foi ampliada por Lula para outros setores estratégicos. O presidente citou as políticas voltadas a data centers, inteligência artificial e minerais críticos como exemplos de uma mesma estratégia: utilizar os recursos e o mercado brasileiro para construir capacidade tecnológica própria.
Lula recorreu a uma referência de Eduardo Galeano para ilustrar o argumento, lembrando a comparação entre o ouro extraído no período colonial e a riqueza que permaneceu nos países que desenvolveram sua indústria.
Para o presidente, minerais estratégicos devem servir à formação de pesquisadores, engenheiros e novas cadeias produtivas capazes de fabricar baterias, chips e outros produtos de alta tecnologia.
Petróleo, indústria naval e conteúdo nacional
O presidente também relacionou a exploração de petróleo à estratégia de desenvolvimento e defendeu que a riqueza produzida pelo petróleo seja direcionada para educação, ciência, tecnologia e saúde.
A indústria naval foi outro exemplo utilizado. Lula afirmou que o setor, que chegou a empregar 82 mil trabalhadores durante seus governos anteriores, havia recuado para 15 mil após sua saída e agora estaria novamente próximo de 75 mil.
A defesa do conteúdo nacional apareceu novamente: o objetivo, segundo ele, é produzir no país plataformas, sondas e outros equipamentos utilizados pela indústria de petróleo.
A “canetinha” e o limite entre acesso e uso indiscriminado
Lula também incorporou ao discurso a discussão sobre medicamentos à base de semaglutida, as chamadas “canetas emagrecedoras”. O presidente defendeu que o acesso pelo SUS seja direcionado a pessoas com indicação médica e criticou o uso indiscriminado do medicamento.
O ministro Alexandre Padilha havia apresentado antes os avanços do governo nessa área. Segundo ele, o Brasil já possui 16 produtos registrados pela Anvisa com semaglutida e a ampliação da oferta teria contribuído para reduzir preços no mercado. O Ministério da Saúde também iniciou estudos para definir protocolos de utilização do medicamento no SUS.
Segundo o ministro, sete medicamentos distribuídos pelo programa Farmácia Popular são produzidos pela Eurofarma. Ele informou que o Farmácia Popular alcançou 27,3 milhões de usuários em 2025 e que 22 milhões já haviam utilizado o programa nos primeiros seis meses de 2026. A assistência farmacêutica do SUS também foi ampliada, com a incorporação de novos medicamentos e tratamentos de alto custo.
Produção, pesquisa e soberania
A apresentação de Padilha reforçou a dimensão econômica do argumento de Lula. Na Eurofarma, o investimento em pesquisa aparece como parte desse processo. A empresa informou manter um centro de inovação em São Paulo com mais de 700 cientistas e ter investido R$ 700 milhões em inovação no ano passado.
O complexo de Montes Claros, com 250 mil metros quadrados, já funciona e emprega cerca de 400 pessoas. A previsão apresentada por Padilha é chegar a 3 mil trabalhadores.
BNB e desenvolvimento regional
O presidente do Banco do Nordeste, Paulo Câmara, destacou o financiamento da instituição à Eurofarma e a contribuição para consolidar o polo farmacoquímico do Norte de Minas.
O banco também foi incorporado ao argumento de Lula como parte da estrutura pública necessária para viabilizar investimentos produtivos em regiões fora dos grandes centros econômicos.
O discurso em Montes Claros, portanto, não ficou restrito à inauguração ou à expansão de uma fábrica. Lula utilizou o complexo farmacêutico como exemplo concreto de uma tese mais ampla: o SUS pode ser simultaneamente instrumento de inclusão social, comprador público e indutor de uma política industrial voltada à inovação e à soberania tecnológica.