Gays, mulheres, negros, indígenas, professores, cientistas: os que mais temem um novo governo fascista

Flávio e Jair Bolsonaro. Foto: reprodução

Ficou num canto da cobertura da imprensa a frase dita pelo ministro Flávio Dino na sessão do Supremo de 15 de setembro, quando da guerra entre André Mendonça e Alexandre de Moraes. Dino disse: “Não tenho medo de nada nem de ninguém”. Não era uma provocação ao fascismo, mas a manifestação de um sentimento.

O ministro estava dizendo que sua bravura como juiz se colocava acima de possíveis temores. Porque não é provável que Dino, mesmo na condição de ministro da mais alta Corte, não tenha medo. O Brasil todo sente medo, ministro Flávio Dino.

Há pobres com muito medo. Bispos, devotos de Nossa Senhora Aparecida, gays, negros, indígenas e travestis nunca pararam de sentir medo, mas sentem cada vez mais. Há até jornalistas com medo, ministro. Os jornalistas não colaboracionistas, não necessariamente os progressistas ou de esquerda, mas os que se negam a repautar as pautas e os vazamentos da extrema direita.

Mulheres estão com medo de mais violência e mais feminicídios. Há medo dentro e fora dos terreiros de Umbanda e de todas as religiões de matriz africana. Os negros nunca pararam de sentir medo. Os professores sentem medo da repetição do cerco que enfrentaram durante quatro anos, e foi há pouco tempo.

Os servidores de instituições públicas, incluindo o sistema de Justiça, sentem medo. Os grupos organizados em entidades que oferecem algum suporte a populações desprotegidas e sem-teto. Os sem-teto e sem-terra sentem medo.

O medo circula nos corredores das universidades públicas e frequenta salas de aula, como frequentou naqueles quatro anos. Estão temerosos os que dependem de decisões adiadas da Justiça, em paróquias onde o juiz aguarda a reversão do cenário político para agir em nome dos poderosos da cidade. Só o ministro Edson Fachin fala desse cerco do poder paroquial invisível para Brasília.

Ato do movimento Mulheres Vivas. Foto: Bruno Santos/Folhapress

Até a OAB, que já foi tão poderosa e destemida, tem medo de dizer uma frase, uma só, em defesa da democracia. Para tentar imitá-lo, ministro, mas sem a mesma intenção inspiradora da sua frase, alguns dizem que não temem nada. Para lacrar em redes sociais, há valentes de peito aberto.

Mas a maioria tem medo. Defensores do meio ambiente e combatentes do negacionismo têm medo. Não é só a preocupação com a volta das agressões à natureza. É medo pessoal. É o mesmo medo que sentem os estudantes contagiados pelo medo dos professores e da moça do rodo que limpa o chão nas escolas públicas. O mesmo sentido pelos cientistas de todas as ciências.

Sentem medo os estudantes que tentam ser professores ou médicos pelo sistema de cotas. Os que pegaram o ProUni, os que esperam um dia pegar a poupança do Pé-de-Meia. Os filhos que veem as mães com medo de perder o Bolsa Família e o aumento do salário mínimo acima da inflação.

O mesmo medo sentido pelos perseguidos nos Estados Unidos, na Argentina, no Chile, na Colômbia, no Equador, na Bolívia, em El Salvador, na Venezuela. Têm medo da disseminação do medo, ministro. E de que em algum momento a vontade de resistir seja menor do que o temor de que comece tudo de novo.

Um recomeço que nunca será igual ao que vivemos antes, mas que virá com o aperfeiçoamento de métodos, de violências, de ódio e de crueldades. Os bichos dos Yanomamis, se soubessem o que os espera, estariam com medo. Os rios, as matas, as sangas e as veredas.

Já disseram, e não só o seu amigo Aristóteles, ministro Dino, que a bravura é um sentimento que se aciona e se mobiliza, não por falta de medo, mas porque se sobrepõe ao medo. Estamos reconstruindo a certeza de que poderemos vencer o medo.

E desta vez não é o medo de ser feliz, é o de ser subjugado pelo fascismo em circunstâncias que nenhuma racionalidade é capaz de dimensionar por antecipação. Até o diabo está com medo, ministro. E o diabo, mesmo estando do lado deles, nos ensina muita coisa.

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