Fred Kachar caiu não pelo que fez com Vorcaro, mas por expor o modelo de jornalismo da Globo

Fred Kachar, Vorcaro e Huck

A demissão de Frederic Kachar, o Fred Kachar, pelo Grupo Globo, nesta quinta-feira (15), tenta resolver um problema imediato de imagem para a empresa, mas é contenção de danos e desespero. Fred estava há 29 anos na casa. Não é o único e não será o último a vender jornalismo. Seus chefes, os acionistas, sempre souberam como ele operava.

Meu irmão Paulo Nogueira escreveu sobre Fred algumas vezes. Eles trabalharam juntos e a experiência foi traumática para Paulo. Tratava-se, segundo Paulo num artigo de 2013, de “um dos maiores frequentadores de boca livre do circuito da mídia brasileira“. Transcrevo:

Quando fui para a Editora Globo, em 2006, não havia código de ética lá. Tentei montar um, mas não tive nem apoio e nem tempo.

Tive um problema sério, na Globo, em torno de uma viagem paga que um editor aceitou.

Era uma boca-livre promovida por João Dória, e o editor voltou dela repleto de brindes caros, outro foco pernicioso de corrupção nas redações.

Fiquei absolutamente indignado quando soube, e isso me motivou a fazer de imediato um código de ética na editora.

Surgiu um conflito do qual resultaria minha saída. Dias depois de meu desligamento, o editor voltou a fazer outra viagem bancada por Dória, e desta vez internacional.

Bem, na companhia do editor foi o diretor geral da editora, Fred Kachar, um dos maiores frequentadores de boca livre do circuito da mídia brasileira.

Kachar não foi afastado quando circulava com o controlador do Banco Master em ambientes pouco recomendáveis à família. Não saiu quando discutia com Vorcaro reportagens publicadas pelos veículos do grupo, ou quando dividia a intimidade de Vorcaro com Lauro Jardim, colunista do Globo.

Saiu depois que as conversas vieram a público. Certamente, depois de uma bela negociação, uma “love letter” (leia-se um “calaboca”).

O comunicado da Globo afirma que as conversas mantidas entre Kachar e Vorcaro, de outubro de 2023 a julho de 2025, revelam “uma relação inadequada do executivo com um anunciante”. A empresa reafirma a “independência editorial” de seus veículos e sustenta que a cobertura crítica do caso Master demonstra seu compromisso com os princípios editoriais do grupo.

Em setembro de 2024, Vorcaro reclamou de uma reportagem do Valor Econômico sobre os resultados do Master. Kachar respondeu que os jornalistas haviam apresentado os dois lados e que não seria possível ignorar fatos relevantes. A mão peluda de Vorcaro estava em matérias laudatórias sobre sua namorada, Martha Graeff, em revistas sob o comando de Fred.

Vorcaro recorria diretamente a um dos principais executivos da Globo para discutir o tratamento jornalístico que recebia. Kachar é parte integral de uma cultura em que essas relações são possíveis e desejáveis. O império do jabá.

As mensagens apreendidas registram um pedido de Vorcaro para conseguir contato com “Robertinho”, apelido de Roberto Marinho Neto, CEO da Globo Ventures, holding de negócios do Grupo Globo. Nas conversas, Frederic Kachar afirma ter enviado um e-mail ao empresário, com cópia para Neto, para agendar um encontro.

Em março de 2024, o então banqueiro visitou a sede da Globo, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, acompanhado de Kachar e Roberto Marinho Neto.

Por que Luciano Huck não foi demitido? O apresentador dividiu com o “amigo” Vorcaro eventos, shows, festas, além de ter pegado o avião emprestado para ir à Ucrânia entrevistar Zelensky. Qual a diferença entre Fred e Huck?

Um economista com MBA em finanças e sem experiência em jornalismo negociava patrocínios com Daniel Vorcaro e intervinha junto a jornalistas como um office boy de luxo. Sem a Globo, Vorcaro não existiria.

É esse o modelo de jornalismo de uma empresa de mídia que se apresenta como referência de independência editorial.

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