Flávio tenta colar em Lula bets que cresceram sem regra sob Bolsonaro

“Flávio é bet, Lula é o caminho”. O slogan lançado pela campanha de Lula (PT) na quarta-feira (23), durante ato na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, atingiu um ponto vulnerável da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL): enquanto tenta transformar as bets em arma contra o atual governo, o senador não defende em sua totalidade o fim das apostas online e ainda promete preservar justamente o mercado das apostas esportivas.

No mesmo dia em que a frase foi apresentada, Lula reuniu integrantes do governo para discutir medidas contra o setor. Nesta sexta-feira (25), o presidente voltou ao tema em Recife e afirmou que “o dinheiro do jogo é pra comprar comida para as crianças. Tipo, de verdade, dinheiro de jogar, compra um leite pra tua casa. Compre mais um pão, compre mais comida pra tua casa”. O governo prepara medidas para restringir as bets e enfrentar o endividamento provocado pelas apostas. 

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O embate expõe uma tentativa de Flávio de reescrever a história recente das apostas no país. Ele acusa Lula de ter “liberado” os cassinos virtuais e chegou a dizer a apostadores endividados que “essa dívida sua com o Tigrinho é culpa do Lula”. Mas as bets começaram a ganhar amparo legal ainda em 2018, no governo Michel Temer, e atravessaram os quatro anos seguintes, sob Jair Bolsonaro, sem nenhum tipo de regulamentação. 

Flávio quer preservar apostas esportivas

Por trás do discurso contra o “Jogo do Tigrinho”, o candidato da extrema-direita faz a seguinte distinção: diz que quer proibir cassinos virtuais, mas manter as apostas sobre futebol, vôlei, tênis e outros eventos esportivos. “Sou contra jogos, de qualquer forma, mas aposta em jogos reais, no jogo de futebol, no jogo de vôlei, no jogo de tênis, você tem alguma forma de controle”, afirmou em transmissão com aliados. “O problema é o cassino online.”

Em outra declaração, sustentou que “o cassino online tem que acabar”. Portanto, apesar de tentar ocupar eleitoralmente o campo da crítica às bets, Flávio não propõe extinguir o setor. 

A posição contrasta com a adotada por Lula, que passou a defender a proibição das plataformas. “Eu terei o imenso prazer de acabar com as bets”, afirmou o presidente no Rio.

Lula também atacou o argumento de clubes de futebol de que o esporte sofreria um colapso financeiro sem o patrocínio das casas de apostas. Recordou que o Santos de Pelé, o Flamengo de 1981 e as seleções campeãs mundiais de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002 conquistaram seus títulos antes da explosão desse mercado.

A história que Flávio omite

A cronologia da pauta é especialmente incômoda para a narrativa bolsonarista. As apostas de quota fixa foram instituídas em 2018, durante o governo Michel Temer. A legislação previa que o setor fosse regulamentado posteriormente. O ideal seria que o governo seguinte concluísse esse processo. Mas Jair Bolsonaro permaneceu quatro anos no Palácio do Planalto e encerrou o mandato sem regulamentar as apostas.

A colunista Miriam Leitão, de O Globo, afirma que a omissão foi proposital. Segundo ela, Bolsonaro deixou de regulamentar o setor diante do lobby de empresas interessadas em operar sem limites e sem pagamento de impostos. “Nessa terra sem lei, que foi o governo de Jair Bolsonaro, elas cresceram sem regulamentação”, diz a colunista. 

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Foi somente a partir de 2023 que o governo Lula promoveu a regulamentação. A legislação estabeleceu regras para exploração das apostas, autorização, tributação e fiscalização do setor.

Durante a tramitação, o governo propôs tributação de 18% sobre a receita das empresas. O Congresso reduziu a cobrança para 12%. Os jogos virtuais, retirados pelo Senado, voltaram ao texto por decisão da Câmara dos Deputados. Miriam Leitão usa justamente essa sequência para contestar a versão difundida por Flávio de que Lula teria simplesmente aberto as portas para os cassinos digitais.

Ou seja: a direita que hoje procura transformar as bets em argumento eleitoral contra Lula, governou enquanto o setor se expandia sem regulamentação desde 2018.

Flávio também tem histórico com os jogos

A ofensiva eleitoral de Flávio contra os cassinos virtuais ainda bate de frente com seu próprio histórico. Em 2020, durante o governo de seu pai, o senador participou de uma missão oficial a Miami e Las Vegas destinada a discutir investimentos em cassinos associados à resorts.

Três anos depois, esteve na sessão do Senado que aprovou a regulamentação das apostas de quota fixa. Como a votação do texto-base foi simbólica, não houve registro nominal dos votos dos senadores naquele momento.

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Seu programa de governo, por sua vez, critica o uso de recursos sociais em apostas, mas não apresenta proposta de banimento integral das bets.

O histórico torna mais difícil sustentar a imagem que Flávio tenta agora construir de adversário do setor.

“É o pobre que joga”

Já Lula escolheu outro enfoque: o efeito das apostas sobre a renda e o endividamento das famílias. “A bet não oferece nenhum entretenimento para ninguém e fica financiando os clubes com dinheiro do pobre. É o pobre que joga, é o pobre que fica doente, é o pobre que se mata”, afirmou na Fundição Progresso. O presidente ainda disparou contra a dependência financeira dos clubes: “Os times que aprendam a viver sem lavagem de dinheiro”.

Nesta sexta, em Recife, ele voltou ao tema ao frisar que “não é correto a gente gastar o que não tem pra tentar ganhar o que não existe”. Lula afirmou que famílias estão comprometendo recursos destinados às despesas domésticas e à alimentação com apostas.

Da tentativa de regular ao caminho da proibição

O próprio governo Lula mudou sua posição ao longo do tempo. Em 2023, apostou na regulamentação de um mercado que já existia legalmente desde 2018 e funcionava sem regras específicas. Agora, a avaliação política do governo é de que a regulação não foi suficiente para conter os danos sociais associados às apostas. A guinada levou Lula à defesa aberta da proibição.

A disputa com Flávio, portanto, vai além dos slogans. De um lado, o candidato do PL tenta transferir à Lula a responsabilidade por um setor que foi legalizado antes de sua posse e que permaneceu sem regulamentação durante todo o governo de Bolsonaro pai – vale lembrar.  Do outro, o atual governo, depois de tentar enquadrar as empresas em regras e tributação, passou a defender seu banimento.

A eventual proibição ainda enfrentará um obstáculo conhecido: o Congresso. Miriam Leitão alerta que as empresas de apostas construíram um lobby poderoso no Legislativo e que qualquer medida provisória dependerá dos parlamentares para permanecer em vigor.

É nesse confronto que o slogan da campanha ganha sentido político: Flávio tenta se apresentar como adversário das bets sem querer acabar com elas; Lula decidiu transformar a proibição em uma de suas bandeiras na reta final da eleição.

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com agências

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