A expansão da capacidade industrial chinesa e o crescimento acelerado de suas exportações podem se transformar em uma fonte de instabilidade para a economia mundial, segundo análise publicada pela Foreign Affairs por Michael B. G. Froman, ex-representante comercial dos Estados Unidos.
De acordo com a publicação, a China registrou em 2025 um superávit comercial próximo de US$ 1,2 trilhão, resultado de uma estratégia de crescimento fortemente baseada na indústria e nas exportações.
Para Froman, o modelo, que durante anos permitiu ao país ampliar sua participação no comércio mundial e oferecer produtos mais baratos aos consumidores, está chegando a um limite: a demanda global não cresce no mesmo ritmo da capacidade produtiva chinesa.
O país responde atualmente por cerca de 30% da produção industrial mundial, participação que pode chegar a 45% até 2030, segundo estimativa citada pelo autor. Subsídios estatais, crédito direcionado e incentivos oferecidos por governos locais contribuíram para a expansão de setores como veículos elétricos, baterias, painéis solares e semicondutores.
O problema é que a produção excedente começa a pressionar concorrentes estrangeiros. Empresas chinesas conseguem reduzir preços e ampliar sua participação internacional, enquanto outros países enfrentam perda de empregos e capacidade industrial.
Protecionismo como reação ao excesso chinês
O avanço das exportações já provoca mudanças na política comercial de Estados Unidos e União Europeia. O bloco europeu, por exemplo, adotou tarifas adicionais sobre veículos elétricos chineses e passou a discutir mecanismos para fortalecer a produção local.
Froman cita a Alemanha como exemplo da pressão. As exportações alemãs para a China caíram, enquanto as importações chinesas aumentaram em diversos setores. No mercado automobilístico, a participação das montadoras alemãs na China diminuiu ao mesmo tempo em que os veículos chineses ganharam espaço global.
Para o autor, uma reação coordenada de diferentes países poderia restringir ainda mais o acesso dos produtos chineses aos mercados externos. Nesse cenário, a própria estratégia de crescimento de Pequim poderia ser afetada pela redução da demanda internacional.
O risco não se restringiria à China. Uma desaceleração brusca da economia chinesa poderia atingir países dependentes da venda de commodities e produtos intermediários ao país, entre eles grandes exportadores como Brasil, Austrália e Chile. A queda da demanda chinesa também poderia reduzir preços de petróleo, minério de ferro e cobre e provocar novos problemas de endividamento em economias emergentes.
Reequilibrar a economia
Froman argumenta que a alternativa seria uma mudança gradual no modelo econômico chinês, com maior estímulo ao consumo doméstico e menor dependência das exportações e da expansão industrial. O processo exigiria também redução de subsídios, fortalecimento da proteção social e reformas que diminuam a necessidade das famílias chinesas de poupar.
A proposta, contudo, enfrenta obstáculos políticos e econômicos. O modelo industrial está profundamente incorporado à estrutura de governos locais, bancos estatais e empresas chinesas, além de sustentar milhões de empregos.
O autor defende uma articulação entre China, Estados Unidos e outras grandes economias para promover esse reequilíbrio antes que uma crise se manifeste. Para Froman, o G20, cuja reunião será realizada em Miami em dezembro, poderia servir como espaço para coordenar essa resposta.
A avaliação é apresentada como um alerta, e não como uma previsão inevitável. O ponto central é que, se o mundo continuar incapaz de absorver o excedente produtivo chinês, a combinação entre excesso de oferta, aumento do protecionismo e dependência comercial poderá produzir um choque econômico de alcance global.