
Por Leonardo Sakamoto no UOL
Donald Trump resolveu aceitar o “oi, sumido” de Lula justamente quando o noticiário estava tomado pelo vazamento de informações sobre a investigação a respeito de tráfico de influência envolvendo Fábio Luís da Silva, seu filho.
Os dois presidentes conversaram hoje por longos 80 minutos, em tom descrito pelo Palácio do Planalto como amistoso e cordial. Trump concordou que Brasil e Estados Unidos precisam preservar seus vínculos comerciais e propôs que as equipes dos dois países voltem a se reunir o mais rapidamente possível.
É coisa do tipo “precisamos combinar de sair dia desses”, mas que tem um peso simbólico. Ainda mais no contexto em que as declarações contra Lula vindas do secretário de Estado Marco Rubio e de seus aliados eram sentidas como peixes embrulhados e cabeças de cavalo endereçadas ao Palácio do Planalto.
Telefonema não derruba tarifas, suspende sanções nem resolve a deterioração das relações entre os dois países. Mas sinaliza que o diálogo vai continuar independentemente de quem vencer a eleição brasileira. E, em política, sinalizações também são mercadoria, principalente quando produzidas por alguém que adora transformar qualquer contato diplomático em espetáculo.

A ironia é que Trump acabou prestando um favor ao petista e prejudicando seu preferido, Flávio Bolsonaro. Ao continuar reconhecendo Lula como interlocutor e passar 1h20 discutindo comércio, segurança e conflitos internacionais, o norte-americano ofereceu ao presidente brasileiro exatamente aquilo de que ele mais precisava naquele momento, um refresco no noticiário.
Para quem tem problema com interpretação de texto, não estou dizendo que as suspeitas envolvendo Lulinha devam ser esquecidas. O público tem direito de conhecer tudo o que foi descoberto e não apenas os trechos selecionados por quem vaza uma investigação sigilosa para produzir determinado efeito político. Da mesma forma que tem direito a saber o que Flávio Bolsonaro fez de falt com os R$ 61 milhões que ganhou de Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Mas até a ligação de Trump, as páginas e telas estavam sendo ocupadas quase integralmente pela crise envolvendo o filho do presidente. O telefonema não mudou o contexto, mas dividiu os holofotes e permitiu a Lula posar novamente como chefe de Estado. De lambuja, permitiu lembrar ao eleitor que as primeiras tarifas contra o Brasil nasceram devido à ação antipatriótica do clã Bolsonaro junto a Rubio.
Trump não aceitou a ligação pensando em ajudar eleitoralmente Lula. Mas política também é feita de efeitos involuntários. Às vezes, o melhor cabo eleitoral é justamente aquele que acredita estar ajudando o adversário.