
A crise entre André Mendonça e Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal passou a ser apresentada em parte do ecossistema evangélico bolsonarista como uma batalha espiritual entre forças opostas. O fenômeno aparece no oitavo relatório de Narrativas Evangélicas e Contexto Eleitoral, produzido pela Casa Galileia em parceria com o Instituto Democracia em Xeque e repercutido pela Veja.
O levantamento analisou publicações entre 31 de agosto e 13 de setembro e identificou 26.762 resultados em 573 perfis de lideranças religiosas e políticas, organizações, veículos e influenciadores evangélicos. O conjunto alcançou 189 milhões de interações. A análise qualitativa concentrou-se nos conteúdos de maior engajamento.
Nesse ambiente, Mendonça passou a ser apresentado como “escolhido de Deus”, “pastor levantado por Deus” e “homem de Deus”. O relatório registra a recirculação de uma profecia da pastora Valnice Milhomens e mobilizações de oração de Estevam e Sônia Hernandes. A própria crise já havia levado Mendonça a agradecer publicamente as orações recebidas e recorrer a linguagem religiosa.
Michelle Bolsonaro também aparece nesse processo ao recuperar o relato de que, durante a indicação de Mendonça ao Supremo, teria recebido uma visão dele entrando na Corte. Outros conteúdos comparam o ministro a personagens bíblicos e apresentam sua atuação como parte de uma missão religiosa.
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Moraes ocupa o polo oposto nessa narrativa. Segundo o relatório, conteúdos favoráveis a Mendonça associam o ministro a mentira, falsidade e pecado e chegam a representá-lo visualmente como figura demoníaca. O conflito institucional, assim, deixa de ser apresentado apenas em termos jurídicos e passa a assumir uma linguagem de “bem contra o mal”. Moraes, por sua vez, classificou o relatório levado por Mendonça ao STF como “farsa” e “vingança”.
O movimento tem uma dimensão eleitoral explícita. O estudo identifica aumento dos apoios públicos a Flávio Bolsonaro e da campanha contra Lula entre perfis monitorados. Nikolas Ferreira liderou as interações entre lideranças políticas com identidade evangélica no período, com 18,8 milhões, seguido por Flávio Bolsonaro, com 9,3 milhões, e Magno Malta, com 5,6 milhões.
O relatório também identifica uma disputa interna pelo significado político da fé. Henrique Vieira, Aava Santiago, Benedita da Silva e Marina Silva aparecem em conteúdos que associam cristianismo a democracia, justiça social e proteção dos vulneráveis. André Janones acumulou mais de 5 milhões de interações no período. Os dados, porém, descrevem o universo de perfis monitorados e não autorizam tratar essa narrativa como posição do conjunto dos evangélicos brasileiros.