Estudantes ocupam universidades e ruas em mobilização nacional por Lula

A mobilização estudantil em defesa da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e contra o avanço da extrema direita ganhou força nesta quarta-feira (7) e já se transforma em uma articulação nacional. Atos, assembleias, plenárias e caminhadas são realizados em universidades de diferentes regiões do país com novas atividades previstas para os próximos dias.

A mobilização estudantil ganhou dimensão nacional após a União Nacional dos Estudantes (UNE) aprovar, na terça-feira (6), resolução de apoio ao presidente no segundo turno das eleições. A entidade lançou a campanha “Estudantes com Lula” e convocou um calendário de atividades que se estende até a véspera da votação.

Desde então, manifestações e assembleias passaram a se multiplicar em universidades de diferentes regiões. Nesta quarta-feira (7), estudantes realizaram atos na UFRGS, UFBA, UFPA, UTFPR de Curitiba, Unicentro e UFPR, entre outras instituições. A agenda também prevê novas mobilizações nos próximos dias, indicando uma crescente organização do movimento estudantil.

A UNE classificou a decisão como o início de um “estado permanente de mobilização” e convocou estudantes de todo o país a participar das atividades. A presidenta da UNE, Bianca Borges, resumiu o chamado em uma frase: “A partir de agora é estado permanente de mobilização. Os estudantes serão decisivos para reeleger Lula. Não sairemos das ruas!”.

No Rio de Janeiro, milhares de estudantes ocuparam as ruas do Centro. A concentração começou na Igreja da Candelária e seguiu em direção ao Colégio Pedro II, com palavras de ordem em defesa da educação pública, da democracia e da soberania nacional, contra a escala 6×1 e contra a extrema direita.

Estudantes vão às ruas pela reeleição de Lula e defesa da educação

Do abalo e espanto ao movimento

A mobilização tem uma origem recente e bastante definida: a reação de estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, ao resultado do primeiro turno, realizado no domingo (4). Na segunda-feira (5), estudantes que inicialmente haviam convocado uma assembleia para discutir o segundo turno transformaram a reunião em uma manifestação de rua.

O movimento começou no campus do Gragoatá, passou pelo Ingá e por Icaraí e levou às ruas faixas e cartazes em defesa de Lula e contra Flávio Bolsonaro (PL). Entre as palavras de ordem estavam também críticas a uma eventual anistia para Jair Bolsonaro.

A convocação do Centro Acadêmico Evaristo da Veiga (CAEV), da Faculdade de Direito da UFF, sintetizou o sentimento que deu origem à mobilização: “O abalo e o espanto com o resultado de domingo precisam se transformar em movimento”.

No dia seguinte, os estudantes da UFF voltaram às ruas. Mesmo sob chuva, uma nova caminhada seguiu até a Praça Arariboia, diante da estação das Barcas, com participação de trabalhadores durante o percurso.

UNE transforma reação em calendário nacional

A UNE convocou DCEs, centros e diretórios acadêmicos, entidades estaduais, uniões municipais e estudantes de todo o país para realizar assembleias, plenárias e ações dentro e fora das universidades.

O calendário prevê atividades até 24 de outubro, véspera do segundo turno. Entre as iniciativas estão assembleias nas universidades, panfletagens, ações em bairros e periferias, atividades em terminais de transporte, banquinhas nos campi, mobilizações em defesa da educação, ciência e tecnologia e ações de campanha nas redes sociais.

Até 9 de outubro, a orientação é realizar assembleias em universidades de todo o país. Na sexta-feira (9), a UNE promove o “Sextou com Lula”. No sábado (10), está prevista a ação “Universidade nos Bairros”.

O calendário prossegue com o “Dia Nacional do Brasil com Lula”, em 11 de outubro, seguido pelo “Todos nas Ruas”, no dia 13. Entre 14 e 16 de outubro, os estudantes devem organizar bancas, panfletagens e outras atividades nas universidades.

Também estão previstas novas ações nos dias 16, 17, 18 e 19, quando a UNE pretende levar para o centro da mobilização temas relacionados à educação, ciência e tecnologia. Entre 20 e 22 de outubro haverá novas atividades nas instituições de ensino. O encerramento está marcado para 24 de outubro, com o “Sabadou da Vitória” e uma grande mobilização nas redes sociais.

A estratégia evidencia que a UNE pretende transformar a reação inicial ao resultado eleitoral em uma campanha permanente, combinando a disputa dentro das universidades com a presença dos estudantes em outros espaços das cidades.

De uma assembleia na UFF a uma mobilização nacional

A partir das primeiras manifestações em Niterói, começaram a surgir convocatórias em universidades de diferentes estados. O movimento passou a combinar atos de rua com assembleias e plenárias destinadas a organizar a participação estudantil no segundo turno.

Na terça-feira (6), houve atividades na Unirio e na Faculdade Nacional de Direito da UFRJ, no Rio; na UEFS, UFRB e UFSB, na Bahia; na Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná; e na UFAM, em Parintins, no Amazonas.

No Recife, milhares de estudantes também participaram de uma manifestação na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e em seu entorno. A atividade reuniu entidades como o DCE da universidade, a União Estadual dos Estudantes de Pernambuco, UBES e UNE, além de defender democracia, educação pública e financiamento das universidades federais.

A mobilização chegou ainda a Caruaru e tem atividades programadas em instituições de Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Sul, Pará, Minas Gerais, Distrito Federal, Amazonas, Paraná, Maranhão, Sergipe, São Paulo, Piauí, Tocantins e Rio de Janeiro.

É uma expansão que revela uma característica importante do movimento: não se trata apenas de um grande ato nacional, mas da multiplicação de iniciativas locais dentro das próprias universidades.

Educação no centro da disputa

Embora a eleição presidencial seja o elemento imediato que desencadeou os atos, a pauta apresentada pelos estudantes é mais ampla.

A educação pública aparece como um dos principais eixos. Os manifestantes defendem orçamento adequado para universidades e institutos federais, assistência estudantil, valorização de professores e pesquisadores e investimentos em ciência e tecnologia.

A UNE também apresenta como conquistas recentes políticas como o Pé-de-Meia, o Pé-de-Meia Licenciaturas, a Política Nacional de Assistência Estudantil, a atualização da Lei de Cotas e medidas de expansão da educação.

Na plataforma apresentada pela entidade, essas políticas são tratadas como parte de um projeto maior de desenvolvimento nacional. A reivindicação é que a educação deixe de ser vista apenas como uma área setorial e seja colocada no centro de uma estratégia de soberania e desenvolvimento.

O tema tem peso particular para estudantes que vivenciaram o período de restrição orçamentária das universidades federais durante os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro. A falta de recursos chegou a comprometer o funcionamento cotidiano de instituições federais, com universidades alertando para dificuldades de manutenção, pesquisa, bolsas e serviços básicos.

Por isso, a defesa do financiamento universitário aparece associada diretamente à disputa eleitoral.

Democracia, direitos e soberania

Além da educação, os atos incorporam uma agenda política que inclui democracia, soberania nacional, direitos sociais e trabalho.

A defesa do fim da escala 6×1 aparece em diferentes manifestações. Para os estudantes, a pauta se relaciona ao direito ao descanso, à convivência familiar, ao estudo e ao lazer.

A soberania nacional também ganhou espaço nos protestos. No Rio, estudantes fizeram críticas ao que classificam como submissão a interesses estrangeiros e relacionaram a disputa eleitoral ao modelo de desenvolvimento que o país adotará.

A oposição a uma eventual anistia para Jair Bolsonaro é outro elemento recorrente desde o primeiro ato da UFF. A questão aparece lado a lado com críticas ao bolsonarismo e à candidatura de Flávio Bolsonaro.

A campanha da UNE sustenta que a escolha do segundo turno não se limita à definição de quem ocupará o Palácio do Planalto, mas envolve o modelo de país a ser construído nos próximos anos.

A memória histórica da UNE

A decisão da UNE também se apoia na trajetória histórica da entidade.

A organização lembra sua atuação contra a ditadura militar, a perseguição, prisão e morte de estudantes e a destruição de sua sede. Recupera ainda a participação estudantil na campanha pelas Diretas Já e em outras mobilizações democráticas.

A referência histórica ajuda a explicar por que a defesa da democracia aparece como elemento central da atual campanha.

A entidade afirma que as universidades brasileiras sempre foram espaços de organização política e resistência democrática e convoca a atual geração a assumir esse legado.

A mensagem é direta: diante de uma eleição considerada decisiva, os estudantes não pretendem permanecer apenas dentro dos campi.

A mobilização chega às ruas

Nesta quarta-feira, a manifestação no Centro do Rio deu uma dimensão maior ao movimento.

Na caminhada entre a Candelária e o Colégio Pedro II, estudantes defenderam educação pública, democracia e soberania e protestaram contra a escala 6×1 e a extrema direita.

O ato também reuniu estudantes do ensino médio, universitários e representantes de diferentes instituições. A presença de jovens que ainda não têm idade para votar reforça que a mobilização não está restrita ao eleitorado diretamente apto a participar da eleição.

Próximos dias serão decisivos

A agenda mostra que a mobilização está longe de terminar.

Nesta quinta-feira (8), estão previstos atos e assembleias na UnB, UDF, UFT, UEA, UFMA, UFPI, UFMG, UFJF, USP, UFABC, UFRS, Unisinos, UFSM, UFS, UFRPE e outras instituições.

Em Petrolina, estudantes da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) realizarão ato às 18h, com participação anunciada de estudantes, movimentos sociais e organizações sindicais.

Para sexta-feira (9), estão previstos atos em Belo Horizonte, FURG, UEMA e UEPG, entre outros locais. O calendário segue até o dia 24, quando a UNE programou o “Sabadou da Vitória”.

O que começou na noite de segunda-feira em Niterói, portanto, já não pode ser tratado como uma manifestação isolada. Em apenas dois dias, a reação de uma universidade se transformou em uma rede de assembleias, plenárias e atos em diferentes regiões.

O segundo turno recolocou a disputa eleitoral nas ruas. E os estudantes, ao ocuparem seus campi, praças, terminais e avenidas, estão tentando fazer da defesa da educação pública, da democracia, dos direitos sociais e da soberania nacional uma pauta central da eleição.

A mobilização ainda está em sua fase inicial. Mas sua velocidade de expansão, a adesão de entidades estudantis nacionais e a programação organizada até a véspera da votação indicam que o movimento pretende desempenhar papel ativo na disputa pelo voto jovem e na tentativa de reverter o resultado do primeiro turno.

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