“Há algo de podre na Polícia Militar”, afirma o Estadão em um editorial publicado nesta sexta-feira (24). O texto é um forte ataque à liderança da corporação paulista – e, por consequência, deveria pressionar o governador bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos), que é o chefe supremo das forças de segurança estaduais.
No entanto, o Estadão opera com precisão cirúrgica: investiga profundamente os problemas da PM, mas aborda o chefe do Executivo com um cuidado que não teve com administrações progressistas no passado. No final, o que parecia ser uma mudança significativa na cobertura sobre segurança pública em São Paulo acaba retornando ao padrão habitual do jornal.
Ao discutir as graves suspeitas de infiltração do crime organizado na alta cúpula da PM paulista, o Estadão deixa de lado, mesmo que temporariamente, a cautela e adota um tom assertivo. Rejeita a explicação oficial de que a mudança na liderança da corporação ocorreu por “motivos pessoais” e destaca o óbvio: a permanência do coronel José Augusto Coutinho se tornou insustentável diante das acusações de prevaricação.
O editorial apresenta o “cenário alarmante” descrito pelo promotor Lincoln Gakiya: “oficiais da Rota teriam repassado informações policiais estratégicas para a cúpula do PCC em troca de milhões de reais. E o que é ainda mais grave, com a conivência de superiores”. Mesmo ciente de tudo, o então comandante não teria tomado as devidas providências – o que evidencia, nas palavras do próprio jornal, a “contaminação” da corporação.
E o governador?
Os fatos representam, segundo o Estadão, uma “quebra intolerável da confiança pública na cúpula do policiamento ostensivo de São Paulo”. Além disso, a crise, “se não for contida, comprometerá, se não eliminar, a capacidade do estado mais rico da Federação de enfrentar o crime organizado”.
Se o próprio jornal admite a possibilidade de uma contaminação sistêmica, é inevitável que o governador precise se justificar. Contudo, ao discutir a resposta do governo, o editorial muda o foco: a mudança no comando da PM – que foi tardia – é apresentada como um trunfo administrativo, e não como uma reação a uma crise que se intensificou sob sua gestão.
Essa não é a única fragilidade. O Estadão defende, com razão, a responsabilização dos envolvidos e argumenta que “mudança de nomes, por si só, não é suficiente”, exigindo uma investigação rigorosa e punições severas. No entanto, evita situar o episódio em um contexto mais amplo — tanto institucional quanto editorial.
O mesmo jornal que agora revela a existência de “quadros podres” havia adotado uma postura complacente em relação à política de segurança pública do governo paulista. A crítica atual, embora válida, surge desconectada desse histórico, sem qualquer tentativa de autocrítica, o que limita o alcance do editorial.
Ao não abordar as condições políticas e institucionais que possibilitaram a evolução dessas práticas, o texto trata a crise como um desvio grave, mas isolado – quando os próprios elementos apresentados indicam algo mais profundo. Que tipo de política de segurança foi sustentada até agora? Qual o papel das escolhas do governo nesse contexto? E qual foi a postura da própria imprensa diante de sinais anteriores?
A conclusão do editorial é precisa: “A melhor política de segurança pública do mundo sucumbe à corrupção do guarda da esquina”. O problema é o que o jornal não menciona. Tarcísio de Freitas não é um mero espectador dos acontecimentos. Ele é o chefe da Polícia Militar. Se a alta cúpula da corporação estava tão profundamente comprometida, isso ocorreu sob a estrutura de comando que ele próprio estabeleceu e manteve. O afastamento dos envolvidos, mencionado como “medida de depuração”, não elimina a responsabilidade política sobre a situação que agora vem à tona.
Ao exigir rigor institucional sem aplicar o mesmo critério ao chefe do Executivo, o Estadão produz um editorial correto no diagnóstico, mas incompleto nas consequências. O tradicional Estadão, com seus mais de 150 anos de história, continua o mesmo. Há algo de podre na Polícia Militar, no Palácio dos Bandeirantes e na proteção seletiva da grande imprensa.