O editorial do Estadão desta quinta-feira (27) afirma que Flávio Bolsonaro (PL) ainda deve explicações sobre o dinheiro que cobrou de Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse. A cobrança sai do jornal paulista conservador e publicamente crítico a Lula, depois de o candidato chamar o caso de “página virada” e empurrar a prestação de contas para a produtora.
Não foi um site de esquerda. Foi o Estadão, secular jornal da burguesia paulista, histórico adversário da esquerda, quem disse que Flávio Bolsonaro mente ao tratar Dark Horse como assunto encerrado.
O texto “A página que Flávio não virou” resume o que o presidenciável tenta apagar desde maio: pediu milhões ao dono do Banco Master, chamou o banqueiro de “irmão”, prometeu contas em 30 dias e, três meses depois, foge das perguntas.“Em maio passado, o sr. Flávio prometeu mostrar ‘em 30 dias’ como foi usada a dinheirama que ele recebeu do sr. Vorcaro”, escreve o jornal. “Passados mais de três meses, o sr. Flávio ainda não cumpriu a promessa.”Do “é mentira” ao “página virada”Em 13 de maio, o Intercept Brasil publicou áudios e mensagens em que Flávio cobra Vorcaro por parcelas do filme sobre Jair Bolsonaro. A negociação chegou a cerca de US$ 24 milhões. Ao menos R$ 61 milhões teriam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025.
Questionado, Flávio riu e disse que era “mentira”. Horas depois admitiu o pedido e falou em “patrocínio privado”, “zero de dinheiro público”.
Em 16 de novembro de 2025, véspera da prisão de Vorcaro, escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!
Em 19 de maio, prometeu prestar contas “a todo mundo”, “em até 30 dias”. O prazo morreu. Em agosto, a versão mudou.
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A produtora virou escudo
Na quinta (20), Flávio decretou: “Da nossa parte, está tudo página virada.” No dia 24: “Quem tem que prestar conta não sou eu, é o Lula.” Na Fiesp, irritou-se: “Vocês vão parar no tempo?” Mandou jornalistas “darem um Google”.
O que existe é uma perícia particular da produtora Go Up Entertainment, de Karina Ferreira da Gama, num inquérito da Polícia Civil de São Paulo. O laudo fala em cerca de R$ 75 milhões, sem notas fiscais nem origem completa do dinheiro. O fundo Havengate, ligado ao advogado de Eduardo Bolsonaro, segue opaco.
A campanha diz agora que Flávio “não tem ingerência” e que a responsabilidade “sempre foi” da produtora.
O Estadão descreve o truque: a empresa “menciona os gastos”, “mas não apresenta notas fiscais nem explica a origem dos recursos. Ou seja, não há esclarecimento nenhum.”
“Relação privada” com dinheiro de fraude
Flávio Bolsonaro insiste que tudo é privado. Mas o editorial é certeiro: “Ora, isso é ofender a inteligência alheia. O dinheiro que Vorcaro distribuía a seus ‘irmãos’ Brasil afora, como Flávio, era fruto de fraudes bilionárias.”
E aponta: “É absolutamente imoral – e se o sr. Flávio não consegue perceber isso, então não está moralmente qualificado para ser presidente da República.”
E segue com a opinião: “Cabe à Polícia Federal esclarecer o que foi feito do dinheiro dado a Flávio por Vorcaro – e a troco de quê. Há indícios de que parte dos recursos pode ter sido direcionada ao “caixa dois” da campanha do candidato e outra parte ao sustento da dolce vita do deputado cassado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos”.
Em 23 de julho, André Mendonça, do STF, autorizou inquérito da PF sobre os repasses. A Ancine autuou a produtora por filmar obra estrangeira no Brasil sem comunicação prévia.
O peso do editorial está em quem o assina. O Estadão fala mal do PT e o lulismo com regularidade. Quando esse jornal escreve que o herdeiro de Bolsonaro tem relação “obscura” com um “escroque”, o recado não é de campanha petista. É a imprensa conservadora paulista admitindo que a farsa não cola e que o Clã Bolsonaro parasitam a República há décadas.