Enquanto estivermos vivos, o céu não cai

Ailton Krenak conta que o povo dele, assim como outros parentes, guarda a tradição de suspender o céu. Nos trópicos, diz ele, o céu desce para perto da terra na entrada da primavera, e quem sente o seu peso não se esconde: dança e canta até que ele volte para o alto. Suspender o céu, ensina Krenak, “é ampliar os horizontes de todos, não só dos humanos”.

É primavera, e o céu baixou. Na noite de 4 de outubro, a apuração do primeiro turno mostrou Flávio Bolsonaro à frente de Lula, com 47% dos votos válidos contra 45%. Entre um e outro ficaram pouco mais de dois milhões de votos, num país onde mais de 33 milhões de pessoas não foram às urnas. Muita gente dormiu mal naquela noite. Mas é preciso acordar lembrando de onde viemos.

Escrevo como indígena, do povo Pitaguary, do Ceará. Num outro outubro, o de 1863, o presidente da província escreveu num relatório oficial: “Já não existem aqui índios aldeados ou bravios”. Declararam o nosso fim no papel. Mais de cento e sessenta anos depois, seguimos aqui, retomando terra, nome, língua e memória. Quem atravessou cinco séculos de invasão aprende a não confundir susto com sentença.

Em 2018, quando estávamos, como diz Krenak, “na iminência de ser assaltados por uma situação nova no Brasil”, perguntaram a ele o que os índios iriam fazer diante de tudo aquilo. Ele respondeu: “Tem quinhentos anos que os índios estão resistindo, eu estou preocupado é com os brancos, como que vão fazer para escapar dessa”. Este texto nasce dessa serenidade. Não é um lamento. É um chamado para as semanas que nos separam do dia 25, e para o tempo que virá depois delas.

O que as urnas contaram

É preciso olhar o resultado de frente, sem medo e sem enfeite. O filho de Jair Bolsonaro não esconde a que veio. Em dezembro do ano passado, disse que impedir a reeleição de Lula “vai salvar o meu pai da prisão”. O pai foi condenado a 27 anos e três meses por tramar um golpe de Estado. O que Flávio oferece ao país, antes de qualquer outra coisa, é o perdão para quem tentou rasgar o voto do povo, e com ele a licença para tentar de novo.

Marx escreveu que os grandes fatos da história acontecem duas vezes, “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Falava do sobrinho de Napoleão tentando ocupar o lugar do tio. Aqui é o filho tentando ocupar o lugar do pai. Mas convém lembrar como terminou aquela farsa francesa: num golpe de Estado. Farsa também fere.

O mapa desenhou um país partido. O Nordeste segurou a linha, com Lula fazendo 66% na Bahia, 63% no Ceará e 71% no Piauí. Flávio venceu no Sul, no Centro-Oeste e no Sudeste, e foi mais forte onde o boi, a soja e o garimpo avançam sobre o cerrado e a floresta: 65% em Mato Grosso, 67% em Rondônia, 71% em Roraima, onde o garimpo devastou a Terra Yanomami. O partido dele fez a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, e terá 28 senadores. Não adianta fingir que não vimos.

Mas a urna contou também outra história, e ela é maior. Mais de 33 milhões de pessoas não votaram, quinze vezes a distância entre os dois primeiros colocados. Outros seis milhões de votos foram para candidatos que prometiam algo fora do jogo de sempre. Há muita raiva nesse povo, e raiva não é o mesmo que ódio. Muitas vezes, raiva é só cansaço sem nome.

Os que nunca veem o céu

Precisamos ter a coragem de perguntar por que parte desse cansaço não encontrou abrigo em nós. Lula teve 3,4 milhões de votos a menos do que no primeiro turno de 2022, quase dois milhões só no Sudeste. O governo fez coisas importantes, como livrar do imposto de renda quem ganha até cinco mil reais. Mas quem acorda às cinco da manhã, pega duas conduções e trabalha seis dias para descansar um não sentiu a vida mudar o bastante. Quando a esquerda governa com medo de quem tem dinheiro e de braços dados com quem sempre mandou, a revolta do povo fica sem casa. E a extrema direita, que é o velho sistema fantasiado de rebeldia, corre para morar nela.

Davi Kopenawa conta que, em Nova York, reparou nas bordas da cidade, onde as casas estavam em ruínas e as pessoas não tinham o que comer. Os brancos que criaram as mercadorias, escreveu ele, “não querem nem saber daquelas pessoas miseráveis, embora elas façam parte do seu povo”. Um xamã yanomami viu num relance aquilo que a cidade às vezes esquece: a mesma máquina que expulsa os povos da floresta é a que empurra milhões para as periferias. O Brasil, como lembra Krenak, se especializou na produção de pobres. Tira-se o território de quem pescava e colhia, e joga-se essa gente na beira da cidade, onde o rio que passa no bairro está podre. A aldeia e a periferia têm o mesmo inimigo.

Kopenawa disse também dos moradores daquela cidade que andam como formigas, “olham sempre para o chão e nunca veem o céu”. Quem trabalha seis dias por semana sabe por quê. Krenak lembra que nossos antepassados viviam tão afinados com o ritmo da terra que bastavam algumas horas de trabalho por dia, e no resto do tempo era possível “cantar, dançar, sonhar”. Não é saudade de um paraíso perdido. É a medida do que nos foi roubado. Lutar pelo fim da escala de seis por um é lutar para devolver ao povo o tempo de olhar para o alto.

E olhar para o alto é também sonhar. Kopenawa diz que os brancos “dormem muito, mas só sonham com eles mesmos”. Penso nos donos do dinheiro, que só sonham com mais dinheiro. Lenin, que muita gente imagina como um homem feito só de cálculo, escreveu em 1902: “É preciso sonhar!”. E, citando o escritor Píssarev, lembrava que sem a capacidade de antever em imaginação a obra acabada ninguém teria força para começar as tarefas longas e difíceis. Uma esquerda que só administra o possível entrega o sonho aos outros. E quando a gente deixa de sonhar, a extrema direita sonha no nosso lugar, e o sonho dela é o nosso pesadelo.

A floresta está viva

Davi Kopenawa abre A queda do céu com um aviso: “A floresta está viva. Só vai morrer se os brancos insistirem em destruí-la.” No mesmo livro, ele conta como começou a destruição. Os antigos dos brancos se apaixonaram pelas mercadorias “como se fossem belas mulheres”, e isso os fez “esquecer a beleza da floresta”. Tornaram-se o povo da mercadoria, e o pensamento deles, diz Kopenawa, “se esfumaçou e foi invadido pela noite”.

A extrema direita é a face mais faminta desse povo. É o garimpo que envenenou os rios dos Yanomami e deixou suas crianças pele e osso, como o país inteiro viu em 2023. É a tese do marco temporal, que pretende que nossos direitos comecem numa data escolhida por quem nos expulsou. É a pressa de passar o trator sobre o pouco que resta de mata, de rio e de gente.

Para nós, indígenas, esta eleição não é uma abstração. Ela passa pelo chão onde plantamos, pelos rios onde pescamos, pelos lugares onde descansam os nossos. José Carlos Mariátegui, o marxista peruano que pensou a nossa América a partir dos seus povos originários, escreveu há quase cem anos que o problema indígena se identifica com o problema da terra. Continua assim. E Kopenawa vai além: os xamãs, diz ele, trabalham para proteger também os brancos, “que vivem embaixo do mesmo céu”. A água que chega à torneira da cidade, a chuva que decide a colheita, o ar que nossos netos vão respirar, tudo isso se decide também nos territórios.

Há uma frase de Kopenawa que guardo como quem guarda uma semente: “Não quero que os meus morem num resto de floresta, nem que nos tornemos restos de seres humanos”. É isso que está em jogo, na mata e na cidade. Ninguém nasceu para viver de restos.

Até o dia 25

No dia 25, o voto é Lula. Digo isso sem hesitação e sem pedir desculpas. Votar em Lula não é assinar embaixo de tudo o que o governo fez. É impedir que o golpismo volte ao Palácio do Planalto para perdoar a si mesmo. Quem diz que os dois lados são iguais nunca esteve na mira de um garimpeiro armado, de um grileiro com papel falso, de uma polícia que se sente autorizada. Não existe neutralidade quando o céu ameaça cair. Anular o voto, agora, é cruzar os braços debaixo dele.

A virada não virá só da televisão. Virá da conversa olho no olho: a vizinha que convence a vizinha, o colega que chama o colega, a roda de conversa no terreiro, na fábrica, no sindicato, na universidade e na aldeia. Dois milhões de votos cabem em muitas conversas. Krenak lembra que nenhum dos nossos sai sozinho pelo mundo: “Andamos em constelação”. É assim que se vira uma eleição. Em constelação, cada um trazendo mais um, ocupando as ruas, batendo de porta em porta no Sudeste, onde perdemos votos, e voltando ainda mais forte às urnas no Nordeste, que segurou o país.

E é preciso falar de vida. Do tempo livre que a escala de seis por um rouba. Do golpe que não pode ser perdoado. Dos muito ricos, que precisam pagar o que devem para que haja escola, saúde e casa para quem não tem. Da terra demarcada, sem a qual não há futuro para nós nem para ninguém. São essas palavras que tiram o trabalhador cansado da indiferença e devolvem a ele um motivo para acreditar.

Agostinho Neto, poeta e revolucionário angolano, escreveu um poema de despedida à mãe, a todas as mães negras cujos filhos partiram. Num de seus versos, ele diz: “Eu já não espero / sou aquele por quem se espera”. E logo adiante: “a esperança somos nós”. Não há salvador a caminho. Cada pessoa que sai de casa até o dia 25 para conversar com outra é essa esperança andando pela rua.

O futuro já estava aqui

O dia 26 vai chegar, e com ele um Congresso mais hostil do que o atual, um agronegócio armado e muita gente pronta para cobrar caro cada voto. Por isso a virada não pode terminar na urna. As rodas de conversa e os comitês que erguermos agora precisam continuar de pé depois do dia 25, como casas onde o povo se organiza para arrancar o que é seu: o tempo de viver, a terra demarcada, a justiça contra os golpistas. Nenhum governo, por melhor que seja, segura o céu sozinho.

Krenak conta que, depois que a lama da mineração envenenou o rio Doce, que os Krenak chamam de Watu, o avô, a água verdadeira mergulhou fundo, sob uma laje de pedra, e seguiu correndo até o mar. O rio ferido não morreu. Desceu às profundezas para refazer o seu caminho. Talvez seja essa a lição para quem sentiu o golpe do dia 4: descer fundo, para dentro do povo, e seguir.

Kopenawa diz que, para os Yanomami, aquilo que os brancos chamam de futuro “é um céu protegido das fumaças de epidemia xawara e amarrado com firmeza acima de nós”. E Krenak completa: se há futuro a ser pensado, “esse futuro é ancestral, porque já estava aqui”. O futuro que queremos não é uma promessa vaga. É a floresta de pé, o rio limpo, o descanso devolvido a quem trabalha, a terra nas mãos de quem cuida dela. É o céu amarrado com firmeza sobre todos nós.

Kopenawa ensina que o céu só desaba quando não houver mais ninguém para sustentá-lo: “Enquanto os xamãs ainda estiverem vivos, eles poderão evitar a queda do céu”. Diante de antropólogos americanos, ele mesmo fez a pergunta e deu a resposta: “Por que continuo a lutar? Porque estou vivo!”.

Então a conta é simples. Estamos vivos. Estamos de pé. Somos milhões. No dia 25, é Lula. No dia 26, a luta continua. O céu fica no alto porque a gente segura.

 

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