Empresas de Flávio Bolsonaro e do “Careca do INSS” aparecem no mesmo endereço em Brasília

Da Redação

Levantamento aponta que a Bravo Grafeno, empresa que tem Flávio e Carlos Bolsonaro entre os sócios, está registrada na mesma sala de um edifício em Águas Claras associada a pelo menos 16 empresas ligadas a Antônio Carlos Camilo Antunes. No mesmo endereço funciona a estrutura contábil de Alexandre Caetano dos Reis, sócio de Antunes em empresa e irmão da administradora do escritório de advocacia de Flávio. A coincidência de endereço e os vínculos profissionais são documentáveis, mas, isoladamente, não demonstram participação do senador no esquema investigado no INSS.

Uma nova conexão empresarial aproxima o entorno profissional de Flávio Bolsonaro do núcleo de Antônio Carlos Camilo Antunes, o empresário conhecido como “Careca do INSS” e investigado pela Polícia Federal no esquema de descontos indevidos sobre benefícios de aposentados e pensionistas. Levantamento publicado pelo ICL Notícias nesta sexta-feira (11) identificou que a Bravo Grafeno, empresa da qual Flávio e Carlos Bolsonaro são sócios, está registrada na sala 2601 do edifício Connect Towers, em Águas Claras, no Distrito Federal. O mesmo endereço aparece vinculado a pelo menos 16 empresas relacionadas a Antunes.

O dado ganha relevância porque a sala não representa a primeira conexão conhecida entre as estruturas empresariais. No mesmo endereço está vinculada a Voga Serviços Contábeis, empresa pertencente ao contador Alexandre Caetano dos Reis. A reportagem foi pessoalmente ao edifício e afirma ter recebido de funcionários a indicação de que a Voga era responsável pela sala 2601. Um representante do escritório, entretanto, apresentou outra explicação: disse que o local funcionava como coworking e não pertencia à empresa. Essa versão é importante porque o compartilhamento de endereço em escritórios contábeis, coworkings e serviços de domicílio fiscal pode reunir empresas sem que exista relação operacional entre elas.

O que torna o caso mais significativo é que Alexandre Caetano não aparece apenas como prestador de serviços localizado no mesmo endereço. Documentos da própria CPMI do INSS registraram que ele foi sócio de Antônio Carlos Camilo Antunes na Camilo & Antunes Limited. O relatório parlamentar também identificou que Letícia Caetano dos Reis, irmã de Alexandre, integra a estrutura do escritório Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia. A CPMI chegou a sustentar que esses elementos justificavam aprofundar a investigação e quebrar os sigilos bancário, fiscal e financeiro da banca do senador. Trata-se de uma suspeita formulada no âmbito parlamentar, não de uma conclusão judicial de que Flávio participou das fraudes do INSS.

A ligação contábil já havia surgido de maneira documental em julho. Notas fiscais emitidas pelo escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro traziam no cabeçalho o endereço eletrônico [email protected], pertencente ao domínio da Voga Serviços Contábeis. Os documentos estavam relacionados a três notas de R$ 500 mil emitidas para empresas vinculadas ao entorno empresarial de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Duas foram canceladas e uma terceira, de acordo com a documentação examinada pela imprensa, não apresentava registro de cancelamento. Flávio afirmou anteriormente que as relações comerciais de seu escritório eram privadas e legais.

É justamente aí que a nova descoberta deixa de ser uma simples coincidência de CEP. Há pelo menos três níveis diferentes de conexão que precisam ser separados: a Bravo Grafeno compartilha endereço com empresas ligadas a Antunes; a Voga aparece na estrutura contábil utilizada pelo escritório de Flávio; e Alexandre Caetano, ligado à Voga, teve relação societária com o próprio Careca do INSS. Além disso, sua irmã, Letícia, aparece na estrutura administrativa do escritório de advocacia do senador. Cada elemento, isoladamente, admite explicações legítimas. Examinados conjuntamente, justificam apuração sobre a extensão das relações profissionais e financeiras entre essas estruturas.

A Bravo Grafeno foi constituída em junho de 2024, com capital social declarado de R$ 100 mil, e atua no comércio de capacetes e viseiras. Além de Flávio e Carlos Bolsonaro, aparecem em seu quadro societário Pedro Luiz Dias Leite, Paulo Giordano Bernardi e Fernando Nascimento Pessoa, ex-assessor de Flávio. Jair Bolsonaro já participou publicamente da divulgação comercial da marca. Procurados pela reportagem que revelou o endereço compartilhado, os sócios não haviam respondido até a publicação.

O ponto que exige maior atenção é Alexandre Caetano. Ele já havia sido atingido por uma fase da Operação Sem Desconto, da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União. Segundo informações publicadas na ocasião, investigadores o situaram dentro da estrutura operacional e financeira examinada no esquema de descontos associativos sobre aposentadorias e pensões. A relação familiar com Letícia Caetano e a prestação de serviços contábeis ao entorno de Flávio são fatos distintos dessa investigação e não permitem transferir automaticamente ao senador as suspeitas dirigidas ao contador.

Mas a sucessão de vínculos merece ser examinada porque se conecta a outra frente atualmente sob investigação: a relação financeira do escritório de Flávio Bolsonaro com empresas associadas ao entorno do Banco Master. Documentos já revelados mostram as três notas fiscais de R$ 500 mil e, separadamente, a Polícia Federal investiga o financiamento do projeto cinematográfico “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, com recursos negociados entre Flávio e Daniel Vorcaro. O inquérito autorizado por André Mendonça investiga suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção relacionadas ao financiamento do filme. A existência da investigação não equivale a denúncia recebida ou condenação de Flávio.

A revelação também adquire importância porque o esquema do INSS tornou-se uma das principais armas da disputa política de 2026. Flávio Bolsonaro tem usado publicamente as investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, para atacar o presidente Lula e associar seu entorno às suspeitas envolvendo o Careca do INSS. Lulinha é investigado em procedimentos sobre possível tráfico de influência em negócios envolvendo empresas privadas e órgãos do governo, mas sua defesa nega participação nas fraudes que atingiram aposentados e sustenta que não há investigação que lhe atribua os desvios originais dos benefícios previdenciários.

A nova documentação, portanto, não autoriza uma inversão igualmente precipitada: não existe, a partir do endereço compartilhado, prova de que Flávio Bolsonaro tenha participado do esquema de descontos ilegais do INSS. O que existe é uma cadeia concreta de relações empresariais e profissionais que agora pode ser confrontada com documentos fiscais, societários, bancários e contábeis. É precisamente nesse terreno que uma investigação pode separar coincidências administrativas de relações econômicas relevantes.

As perguntas são objetivas. É preciso determinar desde quando a Bravo Grafeno utiliza a sala 2601, quem contratou o endereço, quais serviços eram prestados ali, se houve compartilhamento efetivo de estrutura com empresas de Antunes, qual era a extensão dos serviços prestados pela Voga às empresas de Flávio, quais profissionais cuidavam diretamente dessas contas e se houve qualquer fluxo financeiro entre esses diferentes núcleos. Também será importante verificar se o endereço era apenas um domicílio fiscal utilizado por dezenas de clientes do escritório contábil, hipótese que reduziria substancialmente o significado da coincidência física.

O que já pode ser afirmado é mais específico — e mais relevante — do que simplesmente dizer que Flávio Bolsonaro e o Careca do INSS “tinham empresas no mesmo lugar”. Uma empresa de Flávio e Carlos está registrada no mesmo endereço de diversas empresas ligadas a Antunes; a estrutura contábil presente nesse endereço já aparece em documentos fiscais do escritório de Flávio; o proprietário dessa empresa contábil teve relação societária com Antunes; e a irmã dele participa da estrutura administrativa da banca de Flávio. Esses são os pontos documentáveis.

Agora cabe às investigações estabelecer se essa teia representa apenas a concentração de clientes em torno de um mesmo escritório contábil ou se revela relações empresariais e financeiras mais profundas. Num caso que já atravessa o INSS, o Banco Master e diferentes estruturas privadas, essa diferença não pode ser resolvida por associação política nem por coincidência: precisa ser demonstrada por documentos e pelo caminho do dinheiro.

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