Emendas de Flávio Bolsonaro beneficiaram empresas e entidades sob investigação

Emendas parlamentares destinadas pelo senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) foram utilizadas para financiar empresas e entidades que estão sob investigação ou que foram alvo de questionamentos de órgãos de controle. Entre os beneficiários estão uma organização classificada pela Receita Federal como “inexistente de fato”, empresas investigadas pela Polícia Federal por suspeita de cartel e um instituto que teve a liberação de recursos tratada com um miliciano.

Desde 2020, Flávio Bolsonaro teve mais de R$ 300 milhões reservados para emendas no Orçamento federal. Levantamento do UOL rastreou empresas e entidades contratadas por órgãos públicos que receberam recursos provenientes dessas indicações.

O senador afirmou que não participa da escolha das empresas contratadas pelos beneficiários das emendas. Segundo ele, seu gabinete atua apenas na indicação dos recursos, enquanto as contratações são responsabilidade dos órgãos que recebem as verbas.

Instituto “inexistente”

Em 2024, Flávio destinou R$ 3,1 milhões para ações de atenção básica à saúde em Mesquita (RJ). Do total, R$ 666 mil foram pagos, em agosto de 2025, ao Instituto de Medicina e Projeto (IMP).

Em junho deste ano, a Receita Federal classificou o instituto como “inexistente de fato”. Segundo documento do órgão, haveria elementos indicando que a empresa teria sido constituída para a prática de fraude fiscal.

O IMP também é alvo de fiscalização do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) desde 2024. A entidade foi contratada por diferentes municípios para administrar serviços de saúde. Em Mesquita, os contratos firmados com o instituto ultrapassaram R$ 580 milhões entre 2019 e o fim de 2024.

Em decisão de 2025, o TCE-RJ apontou suspeitas de irregularidades na contratação, incluindo a falta de estudos técnicos prévios e indícios de conluio na concorrência vencida pelo instituto. O tribunal também registrou que uma das pessoas que assinavam documentos da entidade estava morta desde 2017.

Em abril deste ano, a Prefeitura de Mesquita determinou que o IMP não poderia celebrar novos contratos com o município por dois anos. Segundo a administração municipal, os contratos foram posteriormente rescindidos, a entidade foi multada em R$ 3 milhões e declarada inidônea pelo mesmo período. O caso também foi encaminhado ao Ministério Público.

Empresas investigadas pela PF receberam recursos

Emendas de Flávio Bolsonaro também foram utilizadas em despesas do governo do Rio de Janeiro relacionadas à compra de equipamentos de proteção balística para a Polícia Militar.

Uma das beneficiárias foi a Glágio do Brasil, que recebeu R$ 569 mil entre maio e junho por meio de convênios que incluíam recursos indicados pelo senador. A empresa é investigada pela Polícia Federal por suspeitas de fraude em licitações.

A Inbra-Tecnologia, integrante de outro grupo citado na investigação, recebeu R$ 1,1 milhão no mesmo convênio. Documento do Ministério da Justiça aponta que uma emenda de Flávio foi usada na compra de 342 capacetes balísticos da empresa.

Glágio e uma empresa do grupo Inbra foram alvos de buscas na Operação Perfídia, deflagrada pela Polícia Federal em setembro de 2023. Segundo os investigadores, havia suspeitas de divisão de contratos públicos para aquisição de equipamentos de proteção balística, com alternância de vencedores conforme o tamanho dos equipamentos e a região do país.

As empresas também participaram de contratos para fornecimento de coletes durante a intervenção federal no Rio de Janeiro, em 2018. Na ocasião, investigadores identificaram indícios de conluio.

A apuração da Polícia Federal tramita sob sigilo. Procuradas, a Polícia Militar do Rio, a Glágio e o grupo Inbra não haviam se manifestado até a publicação da reportagem.

Emendas para projetos esportivos também foram questionadas

Outros recursos destinados por Flávio Bolsonaro também foram alvo de questionamentos.

Uma emenda de R$ 4 milhões enviada em 2025 para um projeto esportivo ligado ao Vasco da Gama entrou na mira da Controladoria-Geral da União (CGU). Segundo levantamento citado pelo UOL, R$ 684 mil, equivalentes a 93% dos gastos do projeto, foram destinados a uma única microempresa, registrada em uma sala comercial em Sapopemba, na zona leste de São Paulo.

Em outro caso, o senador destinou R$ 200 mil ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (IFOP), para um projeto esportivo em Taquara, no Rio de Janeiro. O UOL havia apontado anteriormente indícios de irregularidades na utilização dos recursos.

Mensagens reveladas pelo Estadão também mostraram que Robson Calixto, conhecido como Peixe e condenado no caso da morte da vereadora Marielle Franco, tratou da liberação de emendas com uma assessora de Flávio.

Outra emenda, destinada ao município de Resende (RJ), resultou em nove pagamentos à empresa Valle Sul, que totalizaram R$ 6,61 milhões para obras de revitalização do aeroporto municipal. Segundo reportagem da revista piauí, máquinas da empresa foram posteriormente flagradas trabalhando em uma propriedade privada pertencente a Renato Araújo, apontado como amigo do senador.

Flávio nega indicações

Em nota, Flávio Bolsonaro afirmou que ele e seus assessores não indicam as empresas que serão contratadas com os recursos das emendas.

Segundo o senador, a atuação de seu gabinete se limita às atribuições institucionais relacionadas à indicação dos recursos, enquanto a contratação cabe aos beneficiários, de acordo com a legislação e os procedimentos de cada órgão.

Flávio afirmou ainda que eventuais irregularidades devem ser investigadas pelos órgãos de controle.

A Prefeitura de Mesquita, por sua vez, declarou que instaurou processo administrativo contra o IMP, rescindiu os contratos e aplicou multa de R$ 3 milhões à entidade. A administração municipal também afirmou que os recursos das emendas destinadas à saúde foram repassados ao Fundo Municipal de Saúde e que a escolha da execução dos serviços cabe ao município.

*Com informações do UOL.

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