Em disputa por influência, Carlos Bolsonaro critica campanha de Flávio e mira economista aliada

Flávio Carlos Bolsonaro
O candidato a presidência, Flávio Bolsonaro (PL) e o irmão, Carlos Bolsonaro. Foto: Adriano Machado/Reuters

A campanha presidencial de Flávio Bolsonaro voltou a enfrentar uma disputa interna aberta entre a ala ideológica do bolsonarismo e o grupo que ganhou espaço na formulação econômica da candidatura. Carlos Bolsonaro cobrou publicamente que o irmão reconheça que seu crescimento eleitoral está ligado a Jair Bolsonaro e alertou contra integrantes do entorno que, em sua avaliação, podem afastá-lo da base. Segundo a Folha de S.Paulo, aliados de Carlos apontam Daniella Marques, conselheira econômica da campanha, como um dos principais alvos da crítica.

“Flávio precisa entender que seu crescimento e sua eleição se devem ao seu pai”, escreveu Carlos Bolsonaro. Em outro trecho, afirmou que quem tentar conduzir o candidato por outro caminho “o afasta de sua base e o torna refém pós-eleitoral”. O irmão não citou Daniella nominalmente, mas interlocutores disseram à Folha que a mensagem era dirigida, entre outros nomes, à ex-presidente da Caixa.

Daniella vem ampliando sua influência na campanha, com participação em atos, lives, viagens e elaboração do programa econômico. A ala mais radical do bolsonarismo considera que ela deveria permanecer em uma função técnica e de bastidor e reclama que passou a ocupar espaço político e a dar ordens. Eduardo Bolsonaro compartilha a resistência à economista, segundo pessoas próximas a ele ouvidas pelo jornal.

Um dos principais pontos de atrito é a defesa de cortes de gastos. Flávio Bolsonaro já prometeu um “tesouraço” caso chegue ao Planalto, e Daniella passou a ser identificada internamente com a proposta. Para integrantes da ala ideológica, colocar o ajuste fiscal no centro da campanha pode afastar eleitores que dependem de políticas sociais em um país de renda baixa.

A crítica ganhou um componente histórico dentro do próprio bolsonarismo. Integrantes desse grupo atribuem à política econômica de Paulo Guedes, de quem Daniella foi uma das principais auxiliares, parte da responsabilidade pela derrota de Jair Bolsonaro em 2022. Eles defendem que Flávio Bolsonaro se comprometa com a manutenção de programas sociais e priorize temas como segurança pública, emprego e o legado político do pai.

As divergências já haviam aparecido em outras pautas. Daniella criticou a proposta de acabar com a escala 6×1 e defendeu maior liberdade para ampliar a jornada de trabalho. Ela também ganhou protagonismo na tentativa de aproximar Flávio Bolsonaro do eleitorado feminino e do mercado financeiro, dois movimentos vistos com desconfiança por setores mais ideológicos da família e da base.

A nova disputa ocorre justamente quando Flávio Bolsonaro melhora seu desempenho nas pesquisas e passa a enxergar uma possibilidade concreta de vitória. Para aliados do candidato, a alta nas sondagens também intensificou a briga por espaço e influência. Já a ala radical sustenta que o crescimento não autoriza uma mudança de identidade: quer uma campanha mais emocional, centrada em Jair Bolsonaro e nas bandeiras antissistema que consolidaram o bolsonarismo.

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