
O ex-ministro Ângelo Calmon de Sá, banqueiro condenado por fraude e integrante de dois governos durante e logo após a ditadura militar, aparece entre os maiores doadores privados associados à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Aos 91 anos, ele destinou R$ 400 mil à Direção Nacional do PL, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral analisados pela Folha de S.Paulo.
O dinheiro não foi transferido diretamente para a conta de Flávio Bolsonaro, mas para a direção nacional da legenda que financia sua candidatura. No levantamento da Folha, Calmon de Sá aparece como o terceiro maior doador pessoa física ligado à campanha, atrás de Fernando de Castro Marques, da União Química, e Erasmo Carlos Battistella, da Be8, que destinaram R$ 500 mil cada.
A relação financeira do banqueiro com o partido não começou nesta eleição. Em 2024, Calmon de Sá já havia destinado R$ 300 mil ao PL, em três repasses registrados como contribuições para a manutenção da legenda.

O empresário presidiu o Banco do Brasil durante a ditadura de Emílio Garrastazu Médici e foi ministro da Indústria e Comércio de Ernesto Geisel entre 1977 e 1979. Anos mais tarde, Fernando Collor o nomeou ministro do Desenvolvimento Regional. Depois das passagens pelo governo, Calmon de Sá voltou ao comando do Banco Econômico, instituição que entrou em intervenção do Banco Central em 1995 e foi liquidada no ano seguinte.
Durante a crise do banco, o BC descobriu o episódio conhecido como “pasta rosa”, envolvendo US$ 2,4 milhões destinados a candidaturas nas eleições de 1990. À época, doações empresariais eram proibidas, e a investigação apontou o uso de registros de pagamentos por serviços fictícios para encobrir as transferências.
Em 2007, Calmon de Sá foi condenado pela Justiça Federal a 13 anos e quatro meses de prisão em regime fechado. Na sentença citada pela Folha, o juiz o classificou como principal estrategista das irregularidades e como destinatário de recursos captados no exterior e desviados para o banco. A reportagem afirma que não há registros de que a pena tenha sido cumprida; a defesa apresentou ao longo dos anos recursos e pedidos de habeas corpus, inclusive com alegações de prescrição.
A contribuição ocorre enquanto Flávio Bolsonaro concentra os maiores gastos da eleição presidencial. A campanha do candidato do PL já declarou R$ 49,5 milhões em despesas, e R$ 42 milhões de sua arrecadação vieram do Fundo Eleitoral repassado pela própria legenda.