Delação de ex-Reag pode revelar rota do dinheiro de Vorcaro ligada a Flávio Bolsonaro

João Carlos Mansur Reag
O fundador da Reag, João Carlos Mansur. Foto: Gabriela Biló/Folhapress

A delação premiada assinada pelo fundador da Reag Investimentos, João Carlos Mansur, com a Procuradoria-Geral da República (PGR) coloca sob nova atenção uma conexão financeira indireta que chega ao caso envolvendo Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Mansur entregou 17 anexos com informações concentradas em Daniel Vorcaro e no Banco Master, e o acordo foi enviado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), para eventual homologação. A proposta de colaboração havia sido apresentada por Mansur na semana passada. Não há, até agora, informação pública de que Flávio Bolsonaro esteja citado nos anexos.

Segundo a CNN Brasil, Mansur entregou documentos sobre investimentos do Master até então desconhecidos e afirma ter condições de indicar o “caminho do dinheiro” para localizar cerca de R$ 20 bilhões atribuídos a Vorcaro no Brasil. O empresário também teria se comprometido a devolver R$ 40 milhões. A Polícia Federal não participou da negociação e deve receber o material caso Mendonça homologue o acordo. A Lei 12.850 permite que a colaboração seja negociada diretamente entre o Ministério Público, o investigado e sua defesa, cabendo ao juiz examinar sua regularidade, legalidade e voluntariedade

A conexão com Flávio aparece na estrutura financeira utilizada nos repasses para “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro. Mensagens, áudios e documentos mostraram que o senador negociou diretamente com Vorcaro recursos para financiar a produção. Dos valores inicialmente identificados, R$ 61 milhões foram transferidos pela Entre Investimentos e Participações ao Havengate Development Fund, fundo sediado no Texas. A Entre aparece nos documentos como intermediária das remessas solicitadas por Flávio ao então dono do Master.

A Entre também mantinha relações financeiras com estruturas administradas pela Reag. Relatórios de inteligência financeira do Coaf analisados pela Folha registraram ao menos R$ 20 milhões em transações entre a empresa e o Gold Style, fundo administrado pela Reag Trust. O mesmo elo apareceu em levantamento que mostrou a transferência de R$ 20 milhões do Gold Style à Entre Investimentos. A Folha relatou ainda que comunicados do Coaf apontaram operações do Gold Style estruturadas de maneira a dificultar a identificação de beneficiários. Não há, porém, prova pública de que esses R$ 20 milhões sejam os mesmos recursos posteriormente remetidos para “Dark Horse”.

Flávio Bolsonaro
O candidato a presidência, Flávio Bolsonaro (PL). Foto: Divulgação/Vittor Sales

Outro relatório mostrou que a Entre declarou à Reag Trust possuir R$ 316 milhões em investimentos, enquanto a posição efetiva superava R$ 2,3 bilhões distribuídos por seis fundos. A diferença é relevante porque o próprio Coaf apontou que a subdeclaração dificultava o rastreamento da origem e do destino dos valores. Assim, a ligação entre o caso de Flávio e a Reag não é societária nem pessoal conhecida: ela ocorre porque a empresa usada no circuito dos pagamentos negociados com Vorcaro também movimentava recursos em fundos administrados pela gestora fundada por Mansur.

A relação Reag-Master já estava sob investigação antes da delação. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mantém procedimento sobre operações do Gold Style e outros fundos, com Reag e Mansur entre os investigados. Em janeiro, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, nova denominação da Reag Trust, por “graves violações” às normas do sistema financeiro.

Mansur havia negado anteriormente irregularidades na Reag e afirmou no Senado que a empresa mantinha controles de compliance. A gestora também sustentou que atuou regularmente nos fundos em que prestava serviços e negou envolvimento nas atividades econômicas de seus clientes. A Entre afirma que suas operações seguem as normas do mercado financeiro. Flávio Bolsonaro, por sua vez, diz que os recursos captados com Vorcaro eram privados, destinados ao filme e sem qualquer contrapartida ilícita. O próximo passo é a decisão de Mendonça sobre a homologação. Até que os anexos se tornem conhecidos ou sejam corroborados pela PF, não há base para afirmar que Mansur implicou diretamente Flávio Bolsonaro na delação.

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