
Teresa Cristina, Daniela Mercury, Roberta Miranda e outras artistas brasileiras têm revisto repertórios e questionado letras que consideram machistas ou que naturalizam violência e submissão de mulheres. Em depoimentos reunidos pela Deutsche Welle e publicada nesta quarta-feira (2), elas relatam desde a decisão de abandonar determinadas músicas até a criação de novas versões e repertórios com outra perspectiva.
Teresa Cristina conta que deixou de cantar algumas composições depois de passar a enxergar de outra forma a maneira como mulheres eram retratadas. A sambista também afirma se arrepender de ter gravado certas faixas no início da carreira. “Se fosse hoje, não gravaria”, diz. Para ela, o problema não é exclusivo do samba: diferentes gêneros reproduzem relações de poder existentes na própria sociedade.
A cantora Doralyce adotou outra estratégia. Em vez de simplesmente retirar “Mulheres”, conhecida na voz de Martinho da Vila, ela participou de uma releitura feminista da composição. A proposta foi mudar o ponto de vista da canção e retirar da mulher o papel de personagem definida a partir das relações afetivas do narrador masculino.
No sertanejo, Roberta Miranda afirma que iniciou a carreira em um mercado dominado por homens e avalia que a participação feminina ainda está aquém do necessário. A discussão não se limita ao palco. Segundo dados citados na reportagem, mulheres representam uma parcela minoritária entre titulares de direitos autorais da música no país, grupo que inclui compositoras, intérpretes e instrumentistas.

Daniela Mercury também defende que artistas considerem o efeito social do repertório que escolhem interpretar. A cantora afirma evitar músicas que apresentem ciúme como demonstração de amor ou coloquem mulheres como objeto de disputa. Para ela, o artista não está separado do ambiente político e social em que sua obra circula.
Outras artistas seguiram caminhos semelhantes. Ana Cañas transformou a violência de gênero em tema explícito de sua produção, enquanto Tati Quebra Barraco afirma ter usado o funk para inverter uma lógica na qual liberdade sexual era aceita quando expressa por homens, mas censurada nas vozes femininas. O debate atravessa samba, funk, sertanejo, rock e música popular e expõe uma revisão mais ampla sobre obras que continuam sendo executadas décadas depois de terem sido compostas.
A discussão não apaga o contexto histórico nem exige que obras antigas sejam retiradas de circulação. O movimento descrito pelas artistas é outro: escolher o que desejam continuar cantando e discutir publicamente mensagens que durante muito tempo foram tratadas como naturais. Para Teresa Cristina, a transformação do repertório acompanha uma mudança na própria forma como mulheres passaram a ocupar e disputar espaço na música brasileira.