Datafolha revela principais causas de abstenção nas eleições

Simulação do projeto-piloto com biometria no Teste de Integridade das Urnas Eletrônicas, em Brasília. Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo

A pesquisa Termômetro do Bem Viver, realizada por um projeto da Plataforma Avaaz em parceria com o Datafolha, associa a solidão, a exaustão mental e a dependência digital ao afastamento de parte dos brasileiros das eleições. O levantamento aponta que a fragilidade dos vínculos comunitários pode influenciar a decisão de não comparecer às urnas.

O estudo estima que cerca de 30 milhões de eleitores deixaram de votar nos últimos pleitos. Entre os fatores relacionados à abstenção estão o que a pesquisa classifica como uma “epidemia de solidão”, o esgotamento mental e o uso excessivo de televisão e redes sociais.

O levantamento identificou que 47% dos brasileiros enquadrados no perfil analisado são “desvinculados”, grupo formado por pessoas que já deixaram de votar ou só comparecem raramente às urnas. Três em cada dez integrantes desse segmento abandonaram completamente o voto em razão da falta de vínculo social.

Jovens de 18 a 34 anos representam 44% dos “desvinculados”. Apenas dois em cada dez jovens afirmaram manter uma conexão comunitária e, ao mesmo tempo, sentir-se bem, conforme os dados reunidos pela pesquisa.

Documentação das urnas eletrônicas é conferida no cartório eleitoral. Foto: Érico Andrade/g1

Redes sociais e jornadas extensas entram na análise

Nana Queiroz, diretora do Projeto Desapocalíptica, do Avaaz, afirmou que esse público vive um ciclo de isolamento e cansaço. “Descobrimos que os ‘desvinculados’ estão em ciclo muito destrutivo”, disse em entrevista à Agência Brasil.

Segundo ela, televisão e redes sociais funcionam como “uma espécie de anestesia para essa exaustão”. A diretora também avaliou que as plataformas podem manter usuários em bolhas de opiniões semelhantes e estimular ambientes hostis.

“Quando essas pessoas se veem assim, culpadas, exaustas e isoladas, elas acham que não têm poder de transformar o coletivo e é por isso que estão parando de votar”, afirmou Nana. A pesquisa contrapõe esse quadro ao dos brasileiros com vínculos comunitários mais fortes, que tendem a tratar a democracia como um valor inegociável.

O levantamento também considera o impacto de jornadas extensas, como a escala 6×1, sobre o tempo disponível para lazer, convivência e construção de relações sociais. A metodologia avalia qualidade de vida por indicadores como acesso à cultura, contato com a natureza e tempo livre, para além de consumo e desempenho econômico.

Entre as medidas apontadas para recuperar vínculos estão políticas de acesso à cultura, lazer, espaços urbanos acessíveis e contato com o meio ambiente. Nana também citou o enfrentamento de mecanismos digitais, como rolagem infinita e design viciante, e defendeu mudanças concretas no cotidiano para que os eleitores sintam efeito real do voto em suas vidas.

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