Da Redação
Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg mostra que 20,9% enxergam maior prejuízo para Flávio Bolsonaro, enquanto o caso Master divide quase exatamente o eleitorado sobre quais grupos políticos estariam mais envolvidos; levantamento mede percepção dos entrevistados e não demonstra, por si só, efeito causal sobre o voto
A crise que atingiu o Supremo Tribunal Federal nas últimas semanas entrou definitivamente no ambiente eleitoral de 2026. Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada nesta quinta-feira, 17 de setembro, mostra que 49,5% dos entrevistados consideram que a atual turbulência envolvendo ministros da Corte prejudica mais a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Outros 20,9% avaliam que o impacto maior recai sobre a candidatura do senador Flávio Bolsonaro, enquanto 14,4% dizem que a crise prejudica os dois igualmente. Para 6,7%, nenhum dos dois é afetado, e 8,6% não souberam responder.
O resultado exige uma distinção importante. A pergunta da AtlasIntel não mede quantos eleitores efetivamente deixaram de votar em Lula ou passaram a votar em Flávio por causa da crise. Ela pergunta quem o entrevistado acredita estar sendo mais prejudicado politicamente pelo episódio. Trata-se, portanto, de uma medida de percepção sobre o impacto eleitoral da crise, não de uma demonstração de causalidade entre os acontecimentos no STF e eventual mudança de voto. O próprio conjunto da pesquisa permite perceber essa diferença.
O levantamento foi realizado entre 11 e 16 de setembro com 5.018 eleitores, por recrutamento digital aleatório. A margem de erro informada é de um ponto percentual, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. Contratada pela Bloomberg, a pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR-06221/2026. O período de coleta é especialmente relevante porque abrangeu a escalada da crise e terminou um dia depois da sessão extraordinária do STF que discutiu os procedimentos relacionados às apurações envolvendo Alexandre de Moraes e André Mendonça.
A pesquisa revela, ao mesmo tempo, um dado aparentemente contraditório, mas politicamente importante. Quando a pergunta deixa de tratar do impacto da crise no STF sobre as candidaturas e passa para quem estaria politicamente mais associado às suspeitas do Banco Master, o eleitorado praticamente se divide ao meio. Segundo a AtlasIntel, 41,2% afirmam que aliados de Jair Bolsonaro são os principais envolvidos, enquanto 40,2% apontam aliados de Lula. Outros 13,8% dizem que todos estão igualmente envolvidos, e 3,4% atribuem maior participação ao Centrão.
Isso significa que os dois indicadores estão medindo fenômenos diferentes. No caso Master, a percepção de responsabilidade política está praticamente empatada dentro da margem de erro. Quando a pergunta é sobre quem a crise do Supremo prejudica mais eleitoralmente, porém, uma parcela maior dos entrevistados aponta Lula. Não é possível concluir apenas a partir desses números por que os entrevistados fazem essa associação. Explicações sobre transferência de desgaste do STF para o presidente, responsabilidade institucional ou estratégias das campanhas exigiriam dados adicionais para serem demonstradas.
A diferença é particularmente relevante porque Alexandre de Moraes não foi indicado ao Supremo por Lula. Moraes chegou à Corte em 2017, indicado pelo então presidente Michel Temer. O próprio Lula chamou atenção para esse fato nesta semana ao comentar a crise. Ao mesmo tempo, o presidente também elogiou a atuação de Moraes durante o processo eleitoral de 2022 e defendeu que qualquer autoridade sobre a qual existam suspeitas seja submetida a investigação e julgamento com direito de defesa. Portanto, a percepção captada pela AtlasIntel não deve ser confundida com uma relação institucional de nomeação entre Lula e Moraes.
A crise do Supremo alcançou um novo patamar na terça-feira, 15, quando os ministros se reuniram extraordinariamente para examinar uma questão de ordem surgida das investigações relacionadas ao Banco Master. A sessão foi marcada por divergências sobre se os casos envolvendo Moraes e Mendonça deveriam ser analisados conjuntamente ou separadamente e por confrontos verbais incomuns entre integrantes da Corte. O julgamento não chegou ao mérito das acusações e foi interrompido depois de pedido de vista de Flávio Dino.
É importante preservar essa distinção porque parte do debate público tem tratado a sessão como se o STF já estivesse julgando a responsabilidade criminal de seus ministros. Não estava. O plenário discutia inicialmente questões processuais relacionadas à condução das apurações e à forma pela qual os procedimentos deveriam tramitar. As acusações e contra-acusações apresentadas durante a crise continuam sujeitas a esclarecimento, investigação e contraditório.
A pesquisa também foi realizada em meio a uma ofensiva discursiva das duas principais campanhas sobre o episódio. Flávio Bolsonaro tem procurado associar politicamente Lula a Moraes e à composição atual do Supremo. Lula, por sua vez, tem explorado os contatos documentados entre Flávio e Daniel Vorcaro relacionados ao financiamento do projeto cinematográfico Dark Horse. As declarações de ambos fazem parte da disputa eleitoral e não substituem a apuração judicial dos fatos.
Essa sobreposição ajuda a explicar por que o Banco Master deixou de ser apenas um caso financeiro e judicial e passou a ocupar espaço crescente na campanha presidencial. As investigações e os documentos tornados públicos mencionam pessoas relacionadas a diferentes setores políticos e institucionais. A própria divisão de 41,2% contra 40,2% encontrada pela AtlasIntel mostra que, no eleitorado pesquisado, não existe atualmente uma percepção amplamente majoritária de que apenas um dos campos políticos esteja associado ao caso.
Outro dado da mesma rodada ajuda a dimensionar o momento, sem permitir atribuir à crise do STF uma mudança específica na intenção de voto. No primeiro turno, a AtlasIntel registra Lula com 44,1% e Flávio Bolsonaro com 41,7%. Esses números constituem uma fotografia do período pesquisado, e não uma previsão do resultado eleitoral. Também não demonstram que a diferença entre os candidatos tenha sido produzida pela crise do Supremo.
A mesma cautela vale para a avaliação presidencial. A AtlasIntel registrou nesta rodada 53,6% de desaprovação e 45,4% de aprovação do desempenho de Lula. Na rodada anterior, divulgada em 10 de setembro, a desaprovação estava em 53,8%. A variação é de apenas 0,2 ponto percentual, muito abaixo da margem de erro de um ponto. Portanto, os dados disponíveis não sustentam a conclusão de que a crise do STF tenha provocado, até agora, uma alteração mensurável na aprovação presidencial nesse intervalo.
Esse é provavelmente o aspecto metodológico mais importante para interpretar a pesquisa. Dizer que 49,5% acreditam que Lula é mais prejudicado pela crise não equivale a dizer que Lula perdeu votos por causa dela. Para demonstrar uma transferência efetiva de votos seria necessário acompanhar séries temporais, movimentos entre grupos de eleitores e resultados de perguntas específicas sobre mudança de escolha eleitoral. O levantamento divulgado nesta quinta-feira registra percepção política no momento em que a crise ocupa intensamente o noticiário.
O episódio também ocorre num ambiente mais amplo de questionamentos sobre o Judiciário. Problemas como morosidade, decisões monocráticas, remunerações acima do teto, transparência e acesso à Justiça aparecem paralelamente ao conflito atual dentro do Supremo. Tanto Lula quanto Flávio passaram a abordar o Judiciário em suas campanhas, embora com propostas e ênfases diferentes.
A relevância eleitoral do caso Master e da crise do STF poderá mudar à medida que novos documentos sejam conhecidos, o Supremo retome os procedimentos e as investigações avancem. O levantamento divulgado agora não permite determinar qual será essa trajetória. Ele registra, com coleta encerrada em 16 de setembro, que uma parcela maior dos entrevistados associa o desgaste eleitoral da crise a Lula, ao mesmo tempo em que o eleitorado aparece praticamente dividido sobre qual campo político estaria mais relacionado às suspeitas envolvendo o Banco Master.
São duas informações diferentes e que precisam permanecer separadas. A primeira mede percepção sobre prejuízo eleitoral; a segunda, percepção sobre envolvimento político. Nenhuma delas estabelece responsabilidade criminal nem permite antecipar o resultado da eleição. O que a pesquisa demonstra é que a crise institucional do Supremo, antes restrita principalmente ao terreno jurídico e político, já passou a integrar de maneira mensurável a percepção do eleitorado na reta final da campanha de 2026.