A investigação sobre um homicídio ocorrido em São Luís ganhou novos desdobramentos com a entrega de materiais à Polícia Federal (PF) pelo executor do crime. Gilbson Cutrim Júnior, condenado a 13 anos de prisão pelo assassinato do empresário João Bosco em agosto de 2022, apresentou documentos, fotos e registros de contatos para tentar comprovar a existência de um esquema de desvio de recursos públicos no Maranhão com a participação do grupo político do governador Carlos Brandão (MDB).
Entre os itens entregues à PF estão anotações manuscritas com números de processos, imagens da placa de um veículo utilizado em pagamentos e a etiqueta de um maço de cédulas com identificação do Banco do Brasil. As informações complementam dados revelados pela colunista Daniela Lima, do Uol, e agora reportados pelo G1.
Loteamento de créditos e repasses no Palácio
Segundo a defesa de Gilbson Júnior, o grupo operava na cooptação de credores com valores superiores a R$ 5 milhões a receber de gestões estaduais anteriores. A proposta previa a liberação dos pagamentos mediante a devolução de percentuais aos integrantes do esquema. Em depoimento prestado à PF, o condenado afirmou ter participado de reuniões no Palácio dos Leões, sede do governo maranhense, para onde diz ter transportado valores em espécie.
A motivação do assassinato, ocorrido no centro comercial Tech Office, esteve vinculada a desavenças no loteamento dessas comissões ilícitas. Embora a Polícia Civil do Maranhão tenha encerrado o caso inicialmente como briga pessoal, o ingresso da PF na apuração redefiniu o homicídio como consequência direta de conflitos na divisão de propinas.
Afastamento no TCE e mesada pelo silêncio
A apuração sobre a tentativa de obstrução de Justiça levou o ministro Flávio Dino, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), a determinar o afastamento do presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MA), Daniel Brandão, sobrinho do governador. Daniel esteve presente no local do crime e é apontado como participante das tratativas financeiras.
Conforme a petição enviada à PF, aliados do governo teriam prometido R$ 30 mil mensais pelo silêncio de Gilbson Júnior, dos quais R$ 15 mil eram efetivamente entregues ao pai do detento. Os intermediários do repasse utilizavam um veículo registrado pelas testemunhas, dado agora integrado aos autos para identificação da origem dos saques e dos operadores do pagamento.
O outro lado
Em nota, o governador Carlos Brandão classificou as acusações como “inadmissíveis” e declarou revolta diante do crédito concedido ao depoimento de um réu confesso. O chefe do Executivo maranhense afirmou não haver provas das acusações e atribuiu as denúncias a disputas políticas regionais. Brandão destacou ainda que a Procuradoria-Geral da República (PGR) questionou a competência do STF para conduzir o caso.
Daniel Brandão declarou inocência e afirmou estar à disposição das autoridades e do Judiciário para prestar esclarecimentos. As investigações sobre fraude em licitações, desvio de emendas parlamentares e obstrução de Justiça seguem em tramitação na Suprema Corte.